Política

É um “toma la da cá” que não acaba mais...

[É um “toma la da cá” que não acaba mais... ]
12 de Agosto de 2019 às 11:56 Por: Victor Pinto 0comentários

Pode até não ter sido moral, mas a fala do presidente da Câmara de Vereadores de Feira de Santana me chamou atenção pela sinceridade ao se referir ao velho e conhecido “toma lá da cá”. Em tempos nos quais os políticos são endeusados por realmente mostrarem aquilo que pensam ou agem, visto como muitos apoiam sandices ditas pelo presidente Jair Bolsonaro (PSL), o vereador José Carneiro (PSDB) externou aquilo que sempre fez parte do cotidiano eleitoral e de um modus operandi extraoficial do processo legislativo.

Contextualizo. O tucano, em entrevista ao programa Transnotícia da rádio Transamérica de Feira, pertencente ao Grupo Lomes de Radiodifusão, deu a seguinte declaração ao falar da base do prefeito Colbert Martins (MDB):  “Aqui ninguém é criança. Nós fazemos parte de uma política do toma lá da cá mesmo. Uma política onde todos que são aliados vão buscar defender aliados. Aqui não é diferente. Sou aliado, não sou alienado. Defendo, sim, algumas ideias, algumas questões. Agora, eu não posso fazer parte de um grupo e ficar todo dia lá questionando, procurando celeuma para denegrir a imagem do grupo que faço parte”.

O edil ainda apontou que os Legislativos não fiscalizam como deveriam o Executivo e colocou na conta da Assembleia Legislativa da Bahia e do Congresso Nacional esse contexto.

Nas minhas leituras do professor Wilson Gomes me lembro de um trecho do seu livro chamado “Transformação da Política na era da Comunicação de Massa” da editora Paulus no qual há um capítulo específico sobre o Theatrum Politicum. A política e o teatro andam de mãos dadas. Nada mais é do que a arte de encenar. Os plenários da Casas Legislativas são arenas de debates, cujos personagens estão em constante guerra discursiva e são vários os enredos que permeiam o ambiente político, como aponta Gomes.  

Alguns casos são enredos com personagens que fingem viver em um ambiente paralelo o da realidade, outros conduzem uma não ficção. As aspas do vereador feirense é uma quebra da quarta parede ao falar de maneira sincera ao público sobre a política do toma lá da cá e a falta de fiscalização do legislativo. Isso é um fato! Acontece! Está enraizado! Apesar de ser infeliz moralmente a declaração, como apontei, é algo corriqueiro.

Bolsonaro, por exemplo, se elegeu com esse discurso contrário as tratativas da velha política e sendo ele o condutor de uma nova política sem toma lá da cá. E o que vemos? Articulações intensas com o Congresso na mesma linha dos antecessores. Rui Costa precisa amaciar sempre sua base para conseguir votações estratégicas, como também o prefeito de Salvador, ACM Neto (DEM), e assim vimos com o projeto da isenção do ISS para as empresas de ônibus. Se analisarmos mais minuciosos os fatos e o noticiário, várias cenas sobre aquilo que o edil disse fica claro. Mas quando um escancara, o buraco é mais embaixo.

Se o Executivo combinasse a sua atuação como rege a lei, creio que o toma lá da cá não seria necessário. Mas é algo cultural e dificilmente sairá da base da política, precisamente, da esfera legislativa, ao qual considero o poder mais importante entre os três poderes difundidos por Montesquieu.

De capítulo em capítulo não mais nos assustamos. Fato grave. Ficamos coniventes com o “rouba, mas faz”, o “toma lá da cá”, grupos políticos, mesmo contrários a determinadas medidas, serem situação por situação para agradar o Executivo ou oposição por oposição para somente fazer balbúrdia com o mesmo poder. As cortinas abrem e fecham freneticamente e os protagonistas e antagonistas vão continuar com suas interpretações sem subir o letreiro final. De quatro em quatro anos seria o “Você Decide”. Questiono: estamos decidindo bem?

 
* Victor Pinto é jornalista formado pela Ufba, especialista em gestão de empresas em radiodifusão e estudante de Direito da Ucsal. Atua na cobertura política em sites e rádios de Salvador. Twitter: @victordojornal

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