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Tem muito político tirando lasquinha em nome da Santa

[Tem muito político tirando lasquinha em nome da Santa]
23 de Setembro de 2019 às 11:30 Por: Victor Pinto* 0comentários

Quem não sabe rezar, xinga Deus. Eis uma máxima popular que representa bem todos os políticos que agora tentam tirar uma lasquinha do processo de canonização de Irmã Dulce, o anjo Bom da Bahia.

Desde o anúncio da conclusão do processo por parte do Vaticano e o anúncio do dia 13 de outubro, quando o Papa Francisco concretizará a elevação, alguns que não sabem nem desenrolar a profissão de fé tentam tirar proveito. De certo modo, o fato requer uma visão política, mas de outro o interesse é puro e exclusivamente só do dividendo eleitoral.

Um grupo de deputados federais baianos tem buscado organizar uma comitiva para participar do processo de canonização no Vaticano. Que altruísmo e sinal de boa fé, não é verdade?! Se não fosse o detalhe: alguns deles almejam que a Câmara Federal banque suas despesas na terra do Papa, ou seja, dinheiro do povo, conforme noticiou Lauro Jardim em O Globo.  

Já não basta a Assembleia Legislativa aprovar e o governador Rui Costa (PT) sancionar o dia 13 de outubro como o dia dedicado a Irmã Dulce. O arcebispo Dom Murilo Krieger, inclusive, precisou se pronunciar por dois erros eclesiais, não constitucionais, mas como assim fossem: primeiro que o dia da ainda beata (futura santa), no calendário litúrgico da Igreja, continua como 13 agosto, como sempre foi celebrado, e segundo que a partir da canonização, oficialmente, ela será chamada de Santa Dulce dos Pobres e não Irmã Dulce.

Acima de qualquer proveito eleitoral fora de contexto ou até mesmo religioso, a elevação da Bem-Aventurada Dulce dos Pobres a santa impulsionará o turismo/economia local. São setores em ascensão e para tanto a Arquidiocese de Salvador já fomentou uma pastoral só para cuidar da área, sob o comando do Padre Manoel Filho. Prova do desenvolvimento foi Salvador ser sede de um congresso nacional, recentemente, sobre o tema.  

Antes mesmo de Irmã Dulce se tornar santa, dados da secretaria do Turismo da Bahia apontavam para os vistosos 5 milhões de visitantes no Estado só pelo contexto da fé. Representa 25% do número de turistas. O projeto Caminhos da Fé, instituído pela prefeitura de Salvador, um incentivo a passeios religiosos, já representa um acréscimo de 7% no turismo da capital, conforme a secretaria de Turismo e Cultura soteropolitana. Desembocará também em ações de melhoria de infraestrutura em diversas áreas da cidade.

Salvador domina bem esse nicho por seu sincretismo, apesar de ainda não ser uma cidade oficializada com esse carimbo. Vide a festa do Bonfim, em janeiro, muito forte por seu apelo popular e sua mistura religiosa; como também o 2 de fevereiro no Rio Vermelho, dedicado a Yemanjá; a virada de ano com o Bom Jesus dos Navegantes; a Festa de Santa Bárbara no Centro Histórico ou a fogueira de Xangô, no Gantois. No interior existem também festejos marcantes como a romaria de Bom Jesus da Lapa ou a procissão do fogaréu em Serrinha.

A Bahia, mais precisamente Salvador, emana energia religiosa dos mais diversos matizes. Do contexto histórico cultural vinculado ao candomblé e o catolicismo desde quando o Brasil foi formado aqui no Estado, as mais diversas igrejas evangélicas tradicionais ou neopentecostais ou até do espiritismo com figuras marcantes na seara nacional, como o baiano de Feira de Santana, Divaldo Franco, cujo filme de sua vida está em cartaz nos cinemas de todo o Brasil, o tema é profundo.
 
Há quem se promova pela fé alheia no campo político por si só, mas isso, no fim dos tempos, para quem acredita na justiça divina, será cobrado na hora certa.


* Victor Pinto é jornalista formado pela Ufba, especialista em gestão de empresas em radiodifusão e estudante de Direito da Ucsal. Atua na cobertura política em sites e rádios de Salvador. Twitter: @victordojornal 

** Esse artigo é publicado simultaneamente no jornal Tribuna da Bahia

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