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Governo das cortinas de fumaça

[Governo das cortinas de fumaça]
04 de Novembro de 2019 às 10:01 Por: Victor Pinto* 0comentários

Esconder o que realmente importa. Desviar a atenção de um debate mais denso que tem sido pautado nas conversas de bares, postagens das redes sociais, encontro de comadres ou notícias de jornais. A estratégia do governo Bolsonaro, desde a eleição e sua ascensão ao Planalto, coloca em voga o plano de ação de diversas Cortinas de Fumaça.

Militar que é, mesmo na reserva, Bolsonaro sabe muito bem do que se trata essa expressão. E mesmo que não soubesse, tem uma equipe por trás bem afiada com o assunto.

A cortina de fumaça original é uma tática militar de esconder, por meio de barreiras naturais ou não, a força bélica para que o inimigo não perceba o que há de mais importante. A utilização da cortina garante, na tática, uma possibilidade de contra-atacar, de se retirar da empreitada ou provocar um movimento diverso.  Foi uma manobra utilizada, por exemplo, na Primeira Guerra Mundial. Amplamente empreendida no mar, foi objeto de ação durante a Guerra Civil dos EUA, em 1862.

No campo da política e das tratativas com a comunicação o termo se refere ao assunto atrás do assunto. Saber criar polêmicas para distrair a atenção. O governo tem se especializado no caso.

Quando pipocou no noticiário os novos áudios de Queiroz com manobras comprometedoras, Bolsonaro publicou um vídeo no qual foi referenciado como um leão cercado por hienas, que tinham símbolos de partidos, organizações e veículos de comunicação. Chamou atenção a hiena do STF, o que levantou uma repercussão imediata.

O próprio ministro do Supremo, Marco Aurélio Mello, levantou essa hipótese da cortina para o desvio da atenção dos áudios comprometedores. Queiroz é acusado de promover rachadinha de salários com a família Bolsonaro, desde quando foi assessor do então deputado estadual do Rio, Flávio Bolsonaro, hoje senador. Sobre o vídeo, o presidente pediu desculpas.

Agora, quando se leva à tona informações do caso da morte da vereadora do Rio de Janeiro, Meirelle Franco, cujos acusados de assassiná-la tinham acesso ao condomínio do presidente nas terras cariocas, Eduardo Bolsonaro, em entrevista a Leda Nagle, fala do retorno do Ato Institucional 5, o AI 5, uma das mais abomináveis ações da Ditadura Militar no Brasil.

O foco passou ser outro. Todos foram para cima do caso e deixaram de lado a situação do porteiro, a casa 58 e os acusados de assassinar Marielle. Depois, em entrevista ao programa do Ratinho, o apresentador do SBT passou pano para o deputado que também pediu desculpas.

Esses foram dois fatos recentes. Mas, se analisarmos do período eleitoral para cá e a disseminação de fake news, como a “mamadeira de piroca” e o “kit gay”, há de convir que foram mais e mais cortinas para desviar o foco real da discussão densa que nos traz uma eleição.

De fumaça, já basta a da Amazônia, com a floresta corroída pelo avanço capitalista que não consegue conviver com o meio ambiente em nome do progresso. Fumaça essa um SOS. Nem mesmo a do Cachimbo da Paz, como nos dizia Gabriel O Pensador, podemos contar. Antes fosse.

 

* Victor Pinto é jornalista formado pela Ufba, especialista em gestão de empresas em radiodifusão e estudante de Direito da Ucsal. Atua na cobertura política em sites e rádios de Salvador. Twitter: @victordojornal

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