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Espelho mal-assombrado

[Espelho mal-assombrado]
12 de Janeiro de 2020 às 08:54 Por: Diego Aric 0comentários

Neste fim de ano, andei pensando em algumas coisas relacionadas aos meus (des)afetos. Muitas dessas reflexões me levaram a observar a mania exagerada que as pessoas têm de julgar seu semelhante pela sua aparência e, enquanto ser humano, não devo me abster dessa péssima ação, mesmo pensando e controlando esse erro construído socialmente conforme as minhas relações foram se efetivando ao longo da minha vida. Não é incomum que, a cada amanhecer e ao repousar nossas cabeças e ombros pesados de trabalho laboral, estejamos também com o peso inconsciente do julgamento, da segregação, da opressão e do mal dizer contra algo ou alguém. 

Nessa direção e como não posso apontar todas as minhas angústias e questionamento aqui, irei focar em uma das “fobias” que estão em destaque e que matam/seccionam muitos indivíduos, tanto nos seus anos iniciais quanto na fase adulta. Uma bruxa que assombra muitos sujeitos por todos os continentes: a gordofobia. 

A gordofobia está estampada na cara da nossa sociedade de maneiras peculiares, afinal “gordo só faz gordices”. Estou cansado de vê-la em transportes públicos e assentos de avião, estes últimos que são inadequados para aqueles com massa corpórea elevada. Ela se encontra em expressões como “porque você não estava mais magro (a) no Carnaval? ou em frases do tipo “você é gordinho e seu colesterol é baixo?”, “não gosto de gordos, nada contra, é só questão de tesão mesmo!”, “menino, você engordou, né?”. Parecem palavras engraçadas e até inofensivas, mas que, com o tempo, fazem com que a mente fique exausta e criam um sentimento compulsivo que só prejudica aqueles que sentem na pele essas provocações. 

Sob esses pilares erguidos pela vontade de diminuir o outro, há a falsa preocupação com a saúde dos “gordinhos”. “Você deve cuidar da sua saúde”, “você é o que come”, “você não tem casos de obesidade na família?”. Então aqui vai um recado: ser gordo não é sinônimo de doença e, segundo estudos como o da Universidade de Los Angeles (2017), o índice de massa corpórea como fator determinante a saúde dos sujeitos levou a diagnósticos errados para aproximadamente 54 milhões de americanos, tratando essas pessoas como, de alguma maneira, doentes. Mas, não era o caso de muitas delas e isto, como tantos outros problemas, refletem em como estão pensando os nossos profissionais de saúde.  

Você deve me perguntar sobre o lugar de fala, afinal, é difícil falar sem viver na pele essas e outras questões. Na verdade, digo que sou um sujeito extremamente interseccional, vivendo sobre essas e outras opressões, sabendo sair delas sem nenhum ferimento ao meu “eu interior”, mesmo que nem sempre tenha sido desta forma. Lembro-me de diversas vezes, em muitas fases da vida, ter que baixar a cabeça por vergonha de ser quem sou e do que aparentava ser. Contudo, muitos aprendizados nasceram do preconceito alheio e assim, fui cravando as unhas da defesa autodeclarada e colocando algozes no seu lugar de julgadores e preconceituosos ao longo da vida. Minha saúde mental agradeceu/agradece!

Ainda sobre as vivências comuns a muitos de nós, trago aqui o depoimento de uma irmã, a Rosa (40) que fala exatamente sobre alguns questionamentos levantados nesse texto. Ela diz que a gordofobia “é tão triste pra mim! Sempre me achei feia, pois as pessoas a minha volta diziam que eu devia emagrecer. Por exemplo: se você fala pra alguém que ela é bonita, mas tem que emagrecer, acaba não sendo um elogio. Então, só me restou cobrir meu corpo. Nunca me olhava no espelho, e até as fotos da adolescência e de minha juventude eu me desfiz. Achei por anos que namorados iriam me trair com alguém de corpo escultural, quando na verdade se alguém está com você, essa pessoa deveria te amar do jeitinho que você é. E aí vem a minha própria família e meus amigos sempre colocando minha vida pra baixo e negando conscientemente minhas escolhas, alegando, por exemplo, que sendo mais magra, eu seria muito mais feliz”, disse ela em um desabafo que demonstra bem os prejuízos que a gordofobia causa no psicológico dos indivíduos. 

“Quem sente sua dor é que geme”, sempre diz minha mãe. O fato é que, o conto de fadas da beleza sugere que, o espelho que deveria nos mostrar força, vitalidade e brilho interno/externo, acaba sendo um objeto mal – assombrado colocado no mercado por nossa sociedade patriarcal para servir como castração mental e física. De muitos modos ele confirma o preconceito e o enquadramento estético à realidade dos outros e não a individual. Parece ser mais difícil aceitar a si do que lutar contra a subversão que vem dos outros.  Isso é perverso.  Peço que vocês, por favor, não sejam! E que a cada dia eu deixe de ser menos gordofóbico, não com os outros, mas comigo mesmo, quando acho que ser bonito é quando serei magro e musculoso. 

Era uma vez um mundo que tem pessoas que não sabem conviver com as diferenças e também sou uma delas...
...mais do mesmo. Muda, mundo. Muda, gente. Mudemos! 

Diêgo Aric Souza é Relações Públicas. Especialista em Mídias Oficiais e Gestão em RP. Mestre em Educação e Contemporaneidade pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB). 

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