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Baixo Dinamismo Econômico Mundial e Concentração de Renda - Reflexos no Brasil

[Baixo Dinamismo Econômico Mundial e Concentração de Renda - Reflexos no Brasil]
05 de Fevereiro de 2020 às 07:56 Por: Victor Andreoni e Cairo Andrade 0comentários

As recentes estimativas elaboradas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial a respeito da performance da economia mundial no ano de 2019, revelaram a continuidade da desaceleração da economia global. Segundo o FMI, o PIB global em 2019 cresceu apenas 2,9%, enquanto o Banco Mundial estimou um crescimento de 2,4%. Ambas instituições consideram que o crescimento em 2019 foi o mais lento desde a crise financeira imobiliária 2007/2008. Dentre os eventos que levaram a um fraco desempenho da economia global no ano passado estão:  os dois anos de conflitos comerciais envolvendo as duas maiores potências do capitalismo, EUA e China;  as incertezas em torno do Brexit na União Europeia; o baixo crescimento na zona do euro; e a desaceleração acentuada de países emergentes com grande expressão no PIB global, como a Índia e a China.  Por exemplo, o FMI estima que o crescimento da Índia em 5,8% em 2020, acima dos 4,8% do ano passado; enquanto a China com crescimento de 6,1% em 2019 apresentou a menor taxa crescimento das últimas três décadas.

Além do baixo dinamismo do crescimento econômico, as perspectivas para o comércio mundial também não são das melhores. “Além de seus efeitos diretos, os conflitos comerciais aumentam a incerteza, o que está levando algumas empresas a adiar os investimentos para aumentar a produtividade, essenciais para elevar o padrão de vida”, disse o diretor-geral da OMC, Roberto Azevêdo. A criação de empregos também pode ser dificultada, pois as empresas empregam menos trabalhadores para produzir bens e serviços para exportação. Segundo a Organização Mundial do Comércio (OMC), no primeiro semestre de 2019, o comércio mundial de mercadorias aumentou 0,6% em relação ao mesmo período do ano anterior. Isso marca uma desaceleração substancial em comparação com os últimos anos. As exportações das economias desenvolvidas cresceram apenas 0,2% no acumulado do ano, enquanto as exportações das economias em desenvolvimento cresceram 1,3%. Do lado das importações, as economias desenvolvidas registraram um crescimento de 1,1% em relação ao ano anterior, enquanto os países em desenvolvimento caíram 0,4%.

Já em 2020, o FMI e o Banco Mundial estimam um crescimento do PIB mundial maior que do ano anterior, porém reduziram a suas projeções realizadas em relatórios anteriores. Segundo o Fundo Monetário Internacional, o PIB global este ano alcançará 3,3%, contra 2,9% em 2019; para o Banco Mundial, a previsão de crescimento de 2,5% em 2020, frente a 2,4% ao ano anterior. A maioria do otimismo para 2020 é reflexo do fim da guerra comercial entre Estados Unidos e China – mesmo que essa “fase um” do acordo seja frágil por não possuir punições para suas violações – e também do desfecho da “novela” do Brexit. 
Dentro das previsões para 2020, o que chama a atenção é que economia da África deverá crescer a uma taxa de 3,8% em 2020, superando a taxa de crescimento mundial projetada de 3,3%. O Sudão do Sul e o Ruanda devem ter os maiores ganhos econômicos, de acordo com a Brookings Institution. Para os mercados emergentes e em desenvolvimento, o FMI prevê expansão de 4,4% em 2020, e quando observamos a economia brasileira, o FMI passou a ver um crescimento de 2,2% do Brasil neste ano, 0,2 ponto percentual a mais do que no relatório de outubro do ano passado. De acordo com o relatório e analistas de mercado, essa elevação da previsão, apesar de ainda ser um número baixo, é reflexo do avanço da reforma da previdência e da melhora no setor de mineração. Os números positivos brasileiros fazem frente, na América Latina, às previsões para o México, Argentina e Chile.

Apesar de um cenário negativo da economia mundial, nem todos estão provando do amargor do baixo dinamismo do mercado capitalista. Isto porque, segundo dados do relatório intitulado “Global Wealth 2019 Reigniting Radical Growth”, a concentração de renda mundial só fez crescer nas últimas décadas.  O número de milionários (em dólares americanos) cresceu 2,1% ano a ano para 22,1 milhões de pessoas em 2018. Esses indivíduos agora detêm 50% combinados de ativos financeiros globalmente. A maior concentração de milionários está na América do Norte, continuando um padrão de longa data. Para a teoria do mainstream econômico, a desigualdade de renda não é um problema para a sociedade capitalista por dois motivos: primeiro porque a desigualdade de renda é responsável por gerar nos indivíduos a motivação necessária para estimular a concorrência entre eles, contribuindo assim para a elevação da produtividade e da dinâmica da produção; e segundo é que a concentração de renda gera a poupança e, consequentemente, o investimento, de tal forma que a sociedade como um todo é beneficiada. 

Atualmente, os EUA têm a maior desigualdade e a igualdade de oportunidades entre os países desenvolvidos, escreve o economista Joseph E. Stiglitz, vencedor do Prêmio Nobel. Stiglitz descreve as políticas neoliberais como um dos principais motivos para o crescimento da concentração de renda e a elevação da desigualdade no período recente na sociedade americana, principalmente após o colapso financeiro 2007-2008. O resultado das distorções de renda numa sociedade dividida em classes, sendo estas classes sociais observadas a partir do poder de compra dos trabalhadores ao longo do tempo, revela um cenário de aprofundamento de concentração de renda em favor de grandes empresários detentores de bens de capital e ativos financeiros. Em contrapartida, os possuidores da força de trabalho, considerados os mais pobres e a classe média, vem carregando os fardos da crise do capitalismo. 

Esse processo de baixo dinamismo do crescimento econômico mundial e, simultaneamente, crescimento da concentração de renda, também vem acontecendo no Brasil desde 2015. Desde 2015 o crescimento econômico brasileiro quando não é negativo - 2015 (-3,55%); 2016 (-3,28%) - apresenta uma taxa de crescimento inexpressiva – 2017 (1,32%) e 2018 (1,32%). De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a extrema pobreza vem subindo no Brasil e já soma 13,5 milhões de pessoas sobrevivendo com até 145 reais mensais em 2018. O número de miseráveis vem crescendo desde 2015, invertendo a curva descendente da miséria dos anos anteriores. De 2014 até 2018 4,5 milhões de pessoas caíram para a extrema pobreza, passando a viver em condições miseráveis. O contingente é recorde em sete anos da série histórica do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Esses indicadores não deixam dúvidas que o crescimento da extrema pobreza coincide com o início da recessão que começou em 2014 no Brasil. Ao mesmo tempo, esse cenário é resultado de uma radicalização das políticas neoliberais que estão sendo implementadas no país desde a ascensão do governo Temer e agora do governo Bolsonaro, ou seja, o baixo dinamismo econômico, o crescimento da concentração de renda e crescimento da pobreza são resultados de políticas públicas implementadas por governos que atendem a “elite do atraso” no Brasil. 
 

Victor Andreoni - Pesquisador do Núcleo de Estudos Conjunturais (NEC) da Universidade Federal da Bahia (Ufba). Graduando em Economia na Faculdade de Economia da Ufba.

Cairo Andrade - Pesquisador do Núcleo de Estudos Conjunturais (NEC) da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Mestrando em Economia na Faculdade de Economia da UFBA. Graduado em Economia na Faculdade de Economia da UFBA.

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