Economia e Mercado

Nem aeronaves e nem respiradores: a estrutura produtiva da indústria brasileira fragilizada em meio a pandemia

[Nem aeronaves e nem respiradores: a estrutura produtiva da indústria brasileira fragilizada em meio a pandemia]
19 de Maio de 2020 às 18:25 Por: Ludmila Giuli Pedroso* 0comentários

A pandemia gerada pelo vírus Covid-19 tornou-se um problema muito maior do que se podia imaginar quando surgiu na China, sobrecarregando não apenas os sistemas de saúde locais com o exponencial crescimento do número de contaminados, como também exigindo medidas socioeconômicas para lidar com os níveis de desemprego, nível de renda a serem garantidos e estratégias de insumos básicos necessários para atender um país com mais de 1,2 bilhões de habitantes.

Nesse contexto, países periféricos somam à estas urgências – como o caso do Brasil – o desempenho econômico que já não era dos mais animadores. De maneira que a pandemia escancarou a fragilidade da indústria nacional, incapaz de produzir, por falta de matéria-prima, até mesmo máscaras N95, necessárias em centros hospitalares, quem dirá a capacidade de suprir o Sistema Único de Saúde (SUS) com respiradores artificiais.

A indústria brasileira em 2019 já mostrava sinais claros de estagnação de acordo com os dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no início de março de 2020, com um crescimento acumulado em 2019 de pífios 0,5% no setor industrial em relação ao ano anterior, puxado pelo setor de construção civil durante 2019 com alta de 1,6%. A indústria extrativa fechou 2019 com um cenário negativo (-1,1%) e a indústria de transformação estagnada com variação de 0,1%.

Com o setor que já enfrenta o peso significativo de uma desindustrialização há mais de 20 anos, como suprir, nesse cenário pandêmico, as necessidades de um país continental competindo com outras economias em meio a regras de mercado extremamente agressivas (quem pagar mais, leva!)? Como aceitar que, podendo recorrer ao seu maior parceiro comercial (China), maior produtor potencial do mundo, detentor de experiência no combate à pandemia do COVID-19, sejam cometidas falhas diplomáticas tão infantis como as protagonizadas pelos filhos do senhor presidente e ministro da educação? Obviamente, o país não mostra uma capacidade de produção satisfatória caso o pico de casos confirmados da doença explodir em poucas semanas.

Diante disso, outro ponto que chama a atenção é com relação as cadeias globais de valor. A articulação da economia mundial é fortemente pautada em uma produção internacionalizada e a cadeia de suprimentos das empresas é espalhada por todo o mundo. Desta forma, com a identificação da doença no final de 2019 na China e a imposição de paralização de muitas atividades em território chinês no início de 2020 para conter a disseminação do vírus, as indústrias de eletrônicos no Brasil começaram a sentir os efeitos muito rapidamente já no final de fevereiro de 2020, pois não teriam como continuar a produzir, tendo em vista que muitos componentes que lhe são essenciais são oriundos da China.

Esse fato revela uma questão discutida que não é de hoje sobre a dependência internacional e a incapacidade de promover componentes para a indústria nacional em relação a produtos de bens manufaturados. Um exemplo simples é o segmento de produção de aeronaves no Brasil que depende de suprimentos de partes diferentes do mundo de maneira que, mesmo sendo um segmento de alto valor agregado, contém um significativo capital humano empregado e capaz de direcionar positivamente o desenvolvimento econômico, é extremamente dependente de uma produção globalizada e que diante de um efeito calamitoso não tem suporte para suprir alternativamente a produção nacional.

Obviamente, há um lado positivo na globalização tendo em vista que a especialização produtiva em setores com melhores valores agregados pode promover o desenvolvimento de uma economia. Entretanto, as economias periféricas para integrar-se ao mercado globalizado, limitam-se à sua capacidade produtiva em componentes mais simples e de baixa intensidade tecnológica e de capital humano em decorrência, dentre outros fatores, da sua trajetória histórica de desenvolvimento econômico altamente dependente de investimentos externos e que confina a capacidade de gerar inovação tecnológica, acabando por perpetuar ao longo do tempo. Logo, diante de um impacto exógeno como uma pandemia ou uma crise financeira de proporções semelhantes ou maiores à ocorrida em 2008, essas produções periféricas globalizadas correm um sério risco de paralisar ou reduzir drasticamente seu ritmo.

No Brasil, além de respiradores artificiais terem que ser importados com um custo elevado, a produção de máscaras mais eficientes (N95) também não foi suficiente para atender a demanda interna. Isso expõe a fragilidade tecnológica nacional que só absorve e não produz inovações tecnológicas e que coexiste até mesmo com uma produção automobilística significativa no mercado sul-americano, ainda que focada em metalurgia e montagem. Ao mesmo tempo em que é capaz de competir no mercado internacional, a indústria nacional deixa a desejar em outros segmentos que nem sequer fazem parte da tendência mundial da indústria 4.0.

Se antes mesmo do vírus estar presente em território brasileiro, a indústria brasileira já sentia seus efeitos e alguns pontos devem ser pensados. Inicialmente, a trajetória da indústria brasileira voltada à produção de tecnologia deve ser crucial para promoção de uma estratégia produtiva de desenvolvimento e retomada do crescimento econômico após os períodos de quarentena. Além disso, quando este primeiro período de isolamento for encerrado, a dinâmica econômica poderá seguir apresentando uma tendência à recessão. Haverá períodos de queda e ascensão econômica e do emprego. Por isso, o apoio financeiro e estímulo ao desenvolvimento de pesquisa e desenvolvimento, que no contexto da pandemia está sendo realizado, deve prosseguir como meio de fortalecer a indústria nacional.

Evidentemente, o comércio mundial não vai se extinguir, mas pode se alterar. É provável que muitos países modifiquem seus parques produtivos; que as empresas transformem suas plantas para adequação de normas sanitárias para operacionalizar e, com isso, reduzir a dependência da produção chinesa no fornecimento de suprimentos nos próximos anos, reconfigurando a produção mundial. Verifica-se, assim, uma oportunidade de o governo brasileiro pensar um pouco mais além do populismo e das eleições de 2022. Existe a chance de desenvolver a economia e reduzir a estagnação industrial que há anos está presente na estrutura produtiva brasileira. 

 

*Ludmila Giuli Pedroso – Pesquisadora do Núcleo de Estudos Conjunturais (NEC) da UFBA. Doutora em Economia pela Universidade Federal da Bahia. Mestre em Economia aplicada pela Universidade Federal de Alagoas.

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