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Você se lembra de mim?

[Você se lembra de mim?]
07 de Setembro de 2020 às 06:30 Por: Victor Pinto

A pergunta é a letra de um dos jingles mais marcantes da história política brasileira seguido de um refrão que dizia: ACM, meu amor de Gerônimo e Vevé Calazans. Se vivo estivesse, ACM, o original, haveria completado 93 anos neste 2020 pandêmico. 

Recordo-me de dois momentos em que tive a oportunidade de vê-lo pessoalmente: ainda criança, nos ombros de meu pai, quando a chegada de um governador em cidade do interior era motivo de praça cheia e fanfarra na rua e, em 2006, já adolescente metido a jornalista, durante uma visita do então governador e candidato Paulo Souto também em Conceição do Coité, em plena campanha eleitoral. 

No mesmo ano, ACM perdeu a eleição para Jaques Wagner e não resistiu esperar o próximo pleito e muito menos viu seu neto chegar ao poder em Salvador e reestruturar seu grupo quase extinto. 

A impressão criada no meu imaginário, por, inclusive, conviver em um ambiente mais esquerdista, era do homem do chicote. Somente o Toninho malvadeza, o bajulador dos militares em tempos de ditadura, o implacável com os inimigos quando assim pisavam no seu calo. Mas no analisar das ações, me questionava a capacidade de se manter tanto tempo no poder e de como desbravou a comunicação em seu favor. Sabia fazer o jogo político como poucos, com ou sem chicote, como apontavam. 

No pedestal dos sabedores especializados em fazer política, ACM era o amado e também o odiado. Normal. Vemos isso com os figurões da atualidade e é de praxe na política essa dualidade de sentimentos impregnados por uma cultura mais grupista do que ideológica, no sentindo literal da palavra. Sabia fazer o Teatro Político como poucos. 

Certa vez, ainda nesse período de pandemia, assisti a uma edição do Roda Viva em que ele fora entrevistado. Entre os colegas jornalistas comentávamos como ele era bom de oratória e de análise de cenários. Tinha um olho de águia perspicaz. Tudo isso numa análise mais técnica, desprovida de qualquer sentimento do que já fez, do que não fez, do que era acusado ou do que era endeusado. 

Por mais que tenha feito escola ao encaminhar ACM, o neto, na política, principalmente após perder o seu maior pupilo, Luís Eduardo Magalhães, a história do cabeça branca das camisas listradas se entrelaça com a da política do Nordeste, principalmente da direita no Brasil. 

Eu queria ter tido a oportunidade de tê-lo entrevistado de maneira a aguçar histórias, colher opiniões e tentar entender o político direto da fonte e não pelos olhares maldosos e bondosos impostos por terceiros. Quis o destino que não ocorresse, mas lembrar de situações e fatos, alguns, sim, eu lembro. 

 

Victor Pinto é editor do BNews, jornalista formado pela Ufba, especialista em gestão de empresas em radiodifusão e estudante de Direito da Ucsal. Atua na cobertura jornalística e na área administrativa de rádios em Salvador. 

Twitter: @victordojornal

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