Artigo

Um silêncio barulhento

[Um silêncio barulhento]
28 de Dezembro de 2020 às 05:39 Por: Victor Pinto

O que chamou mais atenção nos bastidores políticos após a bomba da nova fase da Operação Faroeste, que prendeu desembargadoras e atingiu em cheio a alta cúpula da secretaria da Segurança Pública, foi o silêncio. Na mesma semana a professora Malu Fontes, em seu comentário cirúrgico na rádio Metrópole, chamou atenção para isso. 

Com esse gatilho, passei a acompanhar as repercussões e conversar com fontes do legislativo nos dias e semanas sequentes: ninguém queria tocar no assunto, muito menos por telefone. Todos se esquivavam, seja publicamente em discursos, posições em redes sociais ou declarações à imprensa, seja em conversas do velho e bom “off” do jornalismo. 

O governador Rui Costa (PT) mergulhou em um fundo mar aberto, sumiu de eventos públicos e se resguardou. Não deu uma linha protocolar, como político, sobre a situação. Nem mensagens seus assessores mais próximos respondiam quando se pedia um comentário. Tudo se limitou a uma nota de três linhas do Estado. O petista saiu da redoma na última semana em uma live sucinta com o anúncio do novo comando da secretaria da Segurança e da Polícia Civil. 

Você pode até se questionar: a Faroeste o atingiu? Não. Somente um setor da sua gestão, mas que não se prova envolvimento com nada, vale ressaltar. Mas nós, da comunicação, sempre somos acostumados a ouvir menções dos líderes de grupos políticos e agentes importantes nas repercussões. Algumas mais singelas, outras com muito estardalhaço. 

Nem mesmo os deputados mais aguerridos de oposição fizeram barulho, muito menos os ligados à esquerda, como bem salientou Malu. O ainda prefeito de Salvador, ACM Neto (DEM), foi um dos poucos a se manifestar, até porque manteve agendas públicas e fora indagado por jornalistas. Ele se resumiu em chamar de graves as denúncias feitas que envolvem o judiciário baiano. 

As grandes fases da Faroeste tiveram intervalo de um ano. A mais recente atacou secretário, derrubou articulações de indicações de futuros desembargadores para o TJ e vai jogar suspeição em diversos processos sob análise do Ministério Público. Os juristas das academias, importante também lembrar, tal qual os políticos, se calam. 

Esse silêncio é muito simbólico. Foi mais barulhento do que qualquer grito sobre. É estranho. Pimenta no dos outros é refresco, mas quando é aqui, na nossa aldeia, ninguém se ousa a bater tambor. Por que será?

 

Victor Pinto é editor do BNews, jornalista formado pela Ufba, especialista em gestão de empresas em radiodifusão e estudante de Direito da Ucsal. Atua na cobertura jornalística e na área administrativa de rádios em Salvador. 

Twitter: @victordojornal

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