Política

Às vésperas da Bahia Farm Show, presidente da Abapa comemora resultados apesar da crise

[Às vésperas da Bahia Farm Show, presidente da Abapa comemora resultados apesar da crise]
04 de Junho de 2018 às 19:16 Por: Luiz Fernando Lima 0comentários

O presidente da Associação Baiana dos Produtores Algodão (Abapa), Júlio Cézar Busato, comemora os resultados do segmento em meio a uma crise que assola o País. O período após a seca que durou quatro anos reúne as duas melhores condições para o setor agroindustrial: alta produção e alto preço das commodities.

Nesta terça-feira (5) começa a Bahia Farm Show, a segunda maior feira da Indústria realizada no Brasil. O evento foi adiado em uma semana em decorrência da greve dos caminhoneiros. Busato afirma que os empresários apoiaram inicial a paralisação, mas pondera que não se pode estender este tipo de protesto sob pena de trazer prejuízos incalculáveis para quem produz.

O dirigente também respondeu, nesta entrevista ao BNews, às questões relacionadas ao desmatamento e ao uso da água para irrigação. Desmitificou o que, de acordo com ele, é uma das maiores críticas feitas contra os produtores: sem água, nós não produzimos. Nenhum irrigador faria o investimento que faz para ‘matar’ qualquer rio.

Confira:

BNews: A Bahia Farm Show começa nesta terça após o adiamento de uma semana, como foi organizada para não gerar prejuízos.

Júlio Cézar Busato: A Bahia Farm Show está com tudo pronto para 14ª edição. Os ânimos estão muito bons. Nós vimos da segunda maior safra de algodão e melhor safra de algodão e soja da Bahia, os preços estão num nível muito bom e fazia muito tempo que nós não tínhamos o encontro destes dois fatores: alta produção e bom preço de mercado. Isso traz ao produtor a rentabilidade necessária, diante dos quatro anos ruins que tivemos antes de 2015, para saldar o endividamento do período de seca e readquirir a capacidade de investimento. A Feira gerou negócios na ordem de 1,5 bilhão de reais no ano passado e a estimativa é melhorar. No entanto, o mais importante da feira não é o número de negócios, é sim o que ela representa. Ela é o espelho que reflete a organização, o trabalho e o desenvolvimento de uma região que é orgulho da Bahia. É uma feira voltada para negócios, mas tem também a promoção de contato com o poder público, pesquisadores, palestras, novidades e troca de informações entre produtores com vista em melhorar a produção aperfeiçoando a tecnologia.

É possível estimar o prejuízo em função do adiamento?

Realmente trouxe um prejuízo enorme para feira. Ela teve que ser toda relocada. Os organizadores não poderiam fazer o evento naquelas condições. Com desabastecimentos de diesel, alimentos, medicamentos. As pessoas já estavam aqui, os stands montados, mas voltando a normalidade vamos fazer de tudo para ser a maior. A greve foi legitima. Mostrou a insatisfação de todo um setor com o que vinha acontecendo.

Num primeiro momento houve apoio de diversos setores, como é que a Abapa se posicionou?

Não acompanhei de perto (a greve). A Abrapa, a associação brasileira e as associadas apoiaram a greve inicialmente como ela vinha sendo feita. A organização dos caminhoneiros com uma pauta, mas quando a pauta caiu (foi atendida) não havia necessidade de manter. Para nós agricultores também foi assim. Estamos em período de beneficiamento, colheita, contrato de vendas, nossos caminhões estavam sendo impedidos de circular. Isso precisava ser revisto. O prejuízo chegou, principalmente na Bahia porque é o momento da colheita. Temos que preparar solo para a próxima colheita. O produtor de leite, suínos, aves, legumes e frutas tiveram prejuízos incalculáveis. Era preciso encerrar e assim foi feito.

Este tipo de paralisação ilustra como a logística brasileira está defasada em relação a outros países e é dependente quase que exclusivamente do transporte rodoviário.

Vou dar um exemplo: um agricultor americano consegue colocar uma tonelada de algodão lá do meio-oeste onde produz no porto por US$ 25. Nós para fazer a mesma operação gastamos US$ 90. Onde está a diferença? Nós estamos levando algodão para Santos que dá 1800 km por roda de caminhão. Eles embarcam pelo Rio Mississippi, depois pega o trem. Isso se chama logística. Que nós não temos ainda. O governo tem esta informação. Nós já passamos para ele o ponto onde dói. Precisamos do Porto Sul, da Fiol, terminar a BR 020 entre Campo Alegre de Lourdes e Santa Rita de Cássia, além de melhorar o Porto de Salvador. Se fizermos isso já teremos avançado muito.

Mas no caso da Fiol, a promessa era de terminar há pelo menos dois anos.

Ficaram quatro anos discutindo um problema ambiental lá no Porto (Sul) porque primeiro tinha um peixinho, depois uma perereca e o tempo passou. Quem ia construir o porto perdeu o interesse em fazer. Nós estamos perdendo as oportunidades por estarmos discutindo com nós mesmos. Depois autorizaram, mas ai se passaram cinco anos. Neste período veio a crise com falta de dinheiro no governo federal e a obra está se arrastando por ai. Enquanto isso, nós temos que tirar a diferença dentro da propriedade. Eu sempre digo que, felizmente, nós temos um cara do nosso lado que é Deus que nos deu um clima maravilhoso em uma região fantástica. O solo não era tão bom, mas a fertilização e os cuidados que tivemos fizeram com que desse certo. Nós compensamos (os problemas) com produtividade, mas tudo tem um limite e este já chegou.

Como é a relação entre associação e governo estadual?

As associações e o governo estão com uma relação muito boa. Embora a região careça de investimentos acredito que o governo da Bahia, no passado, sempre geriu de costas para o oeste, mas as coisas começaram a mudar há algum tempo. Acho que tempo que nós nos aproximamos mais do governo e fomos dizer para eles o que nós precisávamos e temos um acesso muito grande com secretarias como a Seinfra (Infraestrutura), Seagri (Agricultura), Sema (Meio Ambiente) que são mais diretamente envolvidas com nós. Chegamos a uma conclusão de que os problemas são enormes, mas que nós precisamos nos ajudarmos a resolver os problemas. Por exemplo: a Bahia foi um dos primeiros estados a fazer o CAR (Cadastro Ambiental Rural) através de uma junção das associações Aiba, Abapa com a secretaria de meio ambiente. Aqui no oeste estamos bem avançados. Esse foi um trabalho que trouxe muito resultado. Temos também a patrulha motorizada da Abrapa que trabalha em conjunto com as prefeituras e com o governo do estado por meio de fundo (Prodeagro) para melhorar as estradas vicinais. Desde a criação já conservamos e fizemos mais de 1.2 mil km de estradas. Temos 7 mil km no total, ou seja, ainda temos o que fazer. Junto com a Seagri nós temos vários trabalhos. Destaco a transferência de tecnologia do Cerrado para o vale onde estamos levando quites de irrigação, levamos técnicos e insumos.

Uma das principais criticas ao agronegócio são feitas em função do desmatamento promovido pelos produtores. Como está isto e o que é mito e o que verdade neste processo?

As associações são totalmente contrárias e não aceitam o desmatamento ilegal. A legislação determina que no Cerrado do oeste baiano deve ser preservado 20% da área de reserva legal e mais as áreas de proteção permanente (APPs) que geralmente são as encostas dos rios. Quando fizemos essa parceira com a Sema foi justamente para legalizar as propriedades de nossos associados, isso quer dizer que devem reservar os 20% e preservar as APPs, e se ele tivesse desmatado além disso antes a legislação determinava que deveria ser providenciada área semelhante em outro lugar e assim foi feito. Os agricultores investiram nisso R$ 11 bilhões. Se eles pegassem essa terra e a transformasse em produtiva hoje seria R$ 27 bilhões. A gente é acusado de desmatar, de acabar com tudo, e nós estamos gastando esse dinheiro todo para preservar. A legislação está acima e nós estamos cumprindo. Este trabalho da Embrapa Satélite mostra que o oeste da Bahia tem 53% do seu território preservado e 35% disso é preservado pelos agricultores. Este percentual é muito maior que o dos parques e que nós investimos toda essa dinheirama para preservar e somos acusados de desmatar tudo. Realmente, para se produzir é preciso retirar o Cerrado. Só que logo no começo, eu tenho mais de 30 anos aqui, ouvia-se dizer que nós iríamos transformar o Cerrado em um grande deserto e se passaram estas três décadas e me parece que isto não aconteceu. O que nós temos hoje é a maior produtividade de soja do Brasil, maior produtividade de algodão irrigado do mundo. Nós fizemos alguma coisa direito para ter estes resultados. Junto com isso nós trazemos emprego e renda para uma região que é pobre. Todo mundo acha que essa é uma região rica, mas não é. Basta ver o IDH dos municípios que verá que existem bolsões de riquezas. Luís Eduardo tem 63% da área ocupada pela agricultura, é o terceiro IDH da Bahia, tem um PIB per capita de 50 mil reais. No município de Cocos, que tem 6% da área agricultura, o PIB é 7 mil reais. Na Barra que não tem agricultura empresarial o PIB era 2.7 mil reais (os dados são de 2010). Será que nós deveríamos ter tudo do jeito que estava e as pessoas desse jeito. O que é melhor? É preciso avaliar e escolher. De qualquer forma, nós agricultores temos a consciência de que nós precisamos respeitar a legislação do código florestal vigente e é isso que estamos fazendo.

Outro ponto que gera diversas discussões está relacionado à irrigação. De fato, a utilização da água é feita sem o controle devido?

O oeste da Bahia é um lugar abençoado por Deus. Eu ando muito pelo Brasil e pelo mundo e aqui realmente tem uma coisa fantástica. Nós temos aquela parte da serra do Goiás e do Tocantins que chove 1.600 a 1.800 mm por ano o que possibilidade fazer a agricultura de sequeiro que tem o maior índice de produtividade. A medida que vai se afastando da serra as chuvas vão diminuindo, mas os rios vão aumentando. Nós temos o aquífero Urucuia que é enorme, com uma armazenagem de água imensa, e que pode ser utilizado para irrigação. Nós irrigamos hoje, dos 2.2 milhões de áreas cultivadas, 160 mil hectares. É muito pouco perto do todo. Nós sabemos que tem um potencial muito grande para crescer. Por outro lado, só se pode crescer tomando muito cuidado. Um hectare irrigado custa de 10 mil a 15 mil reais a depender dos fatores e eu não conheço nenhum agricultor que faria um investimento desses se tivesse risco de ficar sem água. Um sistema de irrigação sem água não serve para nada. Nós instalamos sistemas de controle para usar a mínima quantidade possível. Já que precisamos, também, economizar energia elétrica que é cara. O Inema tem um bom controle dos rios, não é assim tudo que gostaríamos, mas tem um bom controle e isso foi posto a prova nos quatro anos de seca que teve e nenhum dos rios de onde partiam a irrigação secou.

Mas esse é um assunto que suscita atenção e discussão.

Houve um terrorismo de alguns para a população de que os rios iriam secar porque o nível estava baixando – e estavam baixando mesmo – mas foi por uma consequência da falta de chuva. Quando nós fomos ver os dados vimos que no período de 1968 a 1972 aconteceu a mesma coisa, que foi quando os rios tiveram o volume mais baixo, e não tinha ninguém irrigando aqui neste período. A culpa não foi do sistema produtivo e sim da falta de chuvas. A gente ainda não sabe quanto pode irrigar, mas existem sistemas para gerenciar isso. Estamos montando um projeto coordenado pela universidade de Viçosa, feito em conjunto com as secretarias estaduais de Agricultura, Meio Ambiente e Inema, além de universidades baianas, a Universidade de Nebraska. São 58 pesquisadores que desenvolvendo esse projeto para mensurar o quanto poderemos irrigar no futuro. Isso já acontece no Nebraska, nós estivemos lá visitando, por isso pedimos o apoio, porque eles fazem isso lá há 100 anos e o comparativo é o seguinte: Nebraska tem 20 milhões de hectares e a região oeste tem 19 milhões. Lá chove 650 mm por ano e o oeste 1.100 mm. Eles tem quatro milhões de hectares e irrigados e nós tem 160 mil. O PIB agrícola de lá é US$ 25 bilhões e o nosso não chega a meio bilhão de dólares. Alguma coisa está errada. Nós precisamos montar este sistema que dê segurança a todos de que a água não vai acabar e utilizar o que for possível. A água mais cara que existe é aquela que está indo encher o mar e que não gerou nada no percurso e que não vai voltar. Não sei, eu acho que algumas pessoas pensam que se o irrigante não irrigar a água vai ficar lá parada esperando ou voltar, mas isso infelizmente não acontece.

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