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Bahia Farm Show: presidente da Aiba, Celestino Zanella, se diz indignado com preconceitos contra o agronegócio

[Bahia Farm Show: presidente da Aiba, Celestino Zanella, se diz indignado com preconceitos contra o agronegócio ]
09 de Junho de 2018 às 16:56 Por: Luiz Fernando Lima 0comentários

O presidente da Associação dos Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba), Celestino Zanella, passou os cinco dias de Bahia Farm Show andando de um lado para o outro, participando de palestras, conversando com expositores, recepcionando autoridades políticas e organizando o evento. A Feira chega ao fim neste sábado (9). O agricultor paranaense radicado na Bahia, Zanella não é de muitos rodeios e abriu o jogo nesta conversa. Confira trechos do bate-papo!

BNews: A Bahia Farm Show foi adiada. Mas, ao final, aconteceu dentro do era esperado no que se refere aos negócios e discussões.

Celestino Zanella: A agricultura como um todo é feita por um pessoal diferenciado. Nós conseguimos nos adaptar a situações difíceis e sempre conseguimos buscar uma saída no mínimo honrosa para as nossas condições. Esta semana, para se ter uma ideia, a feira de 2019 já começou. Nós temos alguns clientes de stands que pediram para ficar e querem fazer algumas modificações nos stands para o ano que vem. A vantagem que nós temos é esta adaptabilidade, estas condições de agregar e sermos pró-ativos. Essa dificuldade que tivemos na semana anterior com a mobilização dos caminhoneiros provocou um aumento nos custos, mas o objetivo da Aiba como associação é transformar este aumento de custo (para a feira) em resultado e não focar no prejuízo. Pegamos este custo e transportamos para o momento de venda de tal modo que este custo maior que tivemos vai ser diluído nas somas das coisas. O objetivo da Bahia Farm Show sempre foi esse, dos produtores é esse e nós conseguimos fazer uma sintonia com os caminhoneiros que estavam aqui na nossa região. Conversamos, dialogamos, sedemos, colocamos faixa de apoio, fizemos um trabalho através do prefeito Oziel de Oliveira e dos sindicatos, procuramos conversar com o maior número de pessoas possível para que chegássemos a um consenso e isso foi bacana para organização. Foi um aprendizado para nós

Ainda sobre os caminhoneiros é preciso entender esta relação com os produtores

Primeiro que os produtores apoiaram as reduções de impostos na área do diesel por ter um custo direto para nós, porém nós não fomos extensivos na participação com os caminhoneiros. Mas é preciso lembrar que o cara que está parado na estrada é o mesmo que transporte a nossa produção e uma grande parte das vezes a pessoa que está transportando trabalha para outro produtor que é vizinho nosso, então é uma coisa muito entrelaçada destes movimentos. Grande parte dos produtores já guiaram seus caminhões para cima e para baixo na maior parte do tempo. Todas as pessoas (produtores) que tem acima de 50 anos em algum momento já foram seus próprios caminhoneiros. Por isso temos alguma afinidade com os caminhoneiros e com transporte. Este é um custo que nos prejudica ou nos ajuda muito.

Segurança para feira

O trabalho que nós temos com a Polícia Militar na nossa região ajudou muito. A Polícia Militar hoje nos conhece com muito mais propriedade. Essa possibilidade de fazer uma delegacia voltada para a área rural vem coroar o nosso êxito. Nós temos uma segurança preventiva que é militar e teremos agora a civil como investigativa.

Sobre a abertura

A vinda do governador aqui na semana passada era conturbada porque tinha muitas incógnitas. Postergamos a feira. Conseguimos que os caminhões fossem liberados. Conseguimos fazer a montagem dos stands. Algumas pessoas trabalharam literalmente 24 horas por dia. Aumentou nosso custos de segurança, de alimentação, de hotel, mas acho que tudo isso, é um sinal bacana. Com o apoio da prefeitura esse trabalho todo foi coroando com a abertura da feira que foi bom, embora tenhamos atrasado um pouco. Mas o governador tem seus direitos e temos que respeitar, o prefeito tem os seus direitos e temos que respeitar. A tarde viemos aqui, almoçamos com o prefeito e o governador, depois andamos na feira e isso é uma coisa que o produtor, expositor gostam de ver. O governador participando. A coisa mais importante é que estão fazendo negócios.

Plano Safra e os agricultores

O plano Safra saiu. Demos uma olhada em releases, vimos que os juros baixaram na faixa de 1,5%. Temos ainda algumas dúvidas porque há uma variação de produtor para produtor, mas o crédito oficial de 150 milhões reais vai resolver a demanda de uma parte dos produtores, porém tem uma parte muito interessante: este ano, como tivemos uma produtividade maior que a esperada, sobrou principalmente soja nas fazendas. E o produtor tem dúvida quando investe em infraestrutura de armazenagem, que é um investimento pesado feito em um espaço muito curto de tempo, porém extremamente importante. Se chove e a gente consegue colher durante alguns minutos, secamos e guardamos. A estrada é ruim, então estocamos e depois transportamos em estrada melhor. A infraestrutura de armazenagem é muito importante. Acredito que baixando a taxa de juros, mais produtores vão se interessar a fazer os investimentos. A área ambiental, quando tínhamos um juros mais barato lá atrás, era o entrave para investimento e armazenagem. Hoje, armazenagem até sei mil toneladas tem uma condição especial na área ambiental. Nós defendemos na associação que a armazenagem nas fazendas não vão prejudicar nada ambientalmente.

Tabela de Frete

A tabela de frete, como administrador, produtor e presidente de uma associação, não gosto de nada tabelado porque quando tabelam sempre vão pelo lado mais baixo. Isso torna as pessoas menos eficientes. Se nós não tivéssemos um processo de funcionários públicos com trabalho garantido, os funcionários públicos se tornariam mais eficientes. Se nós mudarmos a legislação e premiarmos a eficiência o poder público vai ser muito mais ativo e tranquilo. O tabelamento de frete num primeiro momento vai dar um alívio, especialmente para aquele caminhoneiro que tem seu único caminhão, como único bem de sustento, eu já tive caminhão sozinho como pessoa física e sei o que é guiar dois ou três mil quilômetros, num tempo determinado sem saber se vai chegar, se o frete cobrirá os custos, você fica numa agonia danada. Compreendo e acredito que a tabela de frete deve ser uma diretriz deste momento e com o passar do tempo precisamos sentar, discutir e chegar num denominador. O que nós precisamos hoje é garantir o almoço e a janta. Depois vamos pensar para amanhã. Quando garantirmos a próxima semana de alimentação ai podemos pensar para frente. Neste momento, então, o importante é garantir ao caminhoneiro que poderá almoçar, jantar e levar comida para os filhos, casa e esposa.

Transporte e logística

O Porto de Salvador é ruim e chove bastante. Nós precisamos criar alternativas. O Porto de Ilhéus, por exemplo. eu acredito que quando sair a ferrovia (Fiol) deve melhorar. O porto de Ilhéus é ineficiente, de Sergipe é ineficiente. Eu digo assim: andamos de bicicleta ou a pé. Se for distância curta podemos andar a pé, mas se a distância for 20km é melhor andar de bicicleta. O sistema ferrovia e porto tem que caminhar lado a lado. É a mesma coisa de dizer quem nasceu primeiro: a galinha ou o ovo. Nós como produtores vemos que a ferrovia tem que continuar trabalhando e o porto continuar a ser construído e nós temos que ter as coisas convergindo em algum momento para que quando a ferrovia estiver pronta possamos exportar alguma coisa pelo porto. Não adianta ter um porto eficiente se não tem sistema de transporte. É um processo que tem que andar integrado. Vai demorar? É verdade. Eu sempre conto uma história que aconteceu comigo lá no Paraná. Recebi um canadense de 76 anos lá no Paraná, eu era mais jovem e reclamava que região oeste do Paraná não tinha ferrovia, não tinha capacidade, não tinha nada e ele mandou eu parar o carro. Ele ai disse: você está me dizendo que antes de 1952 não existia cidade aqui, não existia asfalto aqui, não tinha as avenidas, não tinha isso e nem aquilo? E eu concordando. Ele ai declara: rapaz, nós estamos em 1988 e o que você está me dizendo é que tudo isso foi feito entre 1952 e 1988? a minha cidade tem 250 anos e só tem 15 mil pessoas. Então, tudo isso nos próximos 15 ou 20 anos estará tudo pronto. E quando eu voltei lá em Cascavel está tudo lá. Eu olhei e lembrei do canadense. Isso tudo para dizer que a nossa região aqui no Oeste baiano tem o mesmo processo. A Bahia tem que perceber que o Oeste tem uma vocação para o agronegócio, para o aumento do potencial hídrico, da irrigação e não estou falando só da irrigação na parte central, chapada, estamos falando de irrigação para pequenas propriedades, para o Vale. É fruta, leita, peixe, aves. Quando todo este sistema estiver integrado com energia, com o processo educacional que está se desenvolvendo aqui vamos chegar numa situação excepcional.

Irrigação e a redução da água nos rios

Quando eu ouço que estamos secando o Rio São Francisco vejo que existe uma ignorância absurda. Eu fico indignado com este tipo de comentário. Se uma pessoa compra um pivô, instala, precisa de todas as licenças ambientais, precisa da outorga de água, precisa de energia demandada. Quando vai fazer a conta percebe que para cada pivô se gasta um dinheiro que não deixa margem para brincadeira ou aventura. Não se vai puxar água no rio para colocar na lavoura porque tem um custo de energia que torna a operação proibitiva. Se tem horário para fazer isso. O custo é muito caro. O produtor rural hoje sabe o quanto há de armazenamento de água no solo. Sabe quanta água a planta precisa antes de germinar, o quanto ela vai precisar no momento em que germinou até ela entrar em estado reprodutivo, quanto precisa no estado reprodutivo até o enchimento final de grão ou de fibra e sabemos quando podemos cortar a água desta planta. Para tudo isso tem um software desenvolvido pela Universidade de Viçosa. A maioria dos irrigantes usa o software. Nós controlamos a água na variação de temperatura, em tudo, por tempo curto, de tantos em tantos minutos envia uma mensagem para o computador. Tem medição de sol, velocidade do vento, as necessidades das plantas. Todas estas informações são cruzadas e tem uma conta matemática que é feita. Não tem brincadeira. Nós não molhamos, nós irrigamos. Não tem esse negócio de estarmos secando rio. As universidades de Viçosa, Rio de Janeiro, Bahia e Nebraska estão fazendo o estudo em conjunto com as secretarias de Agricultura, Meio Ambiente, Recursos Hídricos e com o aval do governador. O dinheiro, neste momento, é do nosso fundo (Prodeagro). Este um milhão de dólares que está sendo investido somos nós que estamos gastando. Lógico que em algum momento vamos pedir ao governador que invista, porque não posso estudar outros braços da Bahia. Mas precisamos apresentar dados, medidos, transparentes, feitos por pessoas competentes e que sejam idôneas. Por isso, não pode ser um produtor apresentando, tem que ser o pesquisador, professor que vai assinar embaixo. Ai, nós diremos para os criticos: que não é a agricultura que tem que parar de funcionar. O que tem que parar de funcionar é a produção de energia elétrica em Sobradinho do jeito que está. Porquê se você quer produzir energia elétrica constante em Sobradinho tem que negociar com o clima para entrar a quantidade água necessária e isso não acontece. Se gasta mais água para produzir energia do que entra no reservatório, o reservatório vai secar. Vamos usar outras formas de energias? Ligar toda essa rede de energia eólica que temos aqui? Vamos utilizar a energia solar que temos 1.600 horas de luz por ano na nossa região o que é uma coisa estupenda. Eu acho que este processo, e é o que estamos dizendo para o governador, que tinha que pressionar o Banco do Nordeste (já tem alguma coisa hoje) mas específico para energia solar. Tudo é medido. O Objetivo nosso é estudar quanto de água nós podemos reter no aquífero por ano e quanto nós vamos poder tirar. Nós temos uma caixa da água. Temos que manter a caixa d’água. Tiramos na época de seca e repomos na época de chuvas. Não ficamos perdendo os cabelos à toa.

Energia para produção

A conta é simples: uma irrigação extremamente eficiente gasta 1 kwh por hectare. Se queremos 500 hectares temos que ter 500 kwh de energia. Se for eficiente. Se for no sistema mais ou menos vai dar 1,5 para ou 2 para 1. Nós temos que ter as coisas focadas na eficiência. O processo é lento, gradativo. Uma fazenda exige hoje que sejamos agrônomo para produção, biólogo por causa do processo de vida, engenheiro para a quantidade de construções, de equipamentos. Exige que você tenha uma indústria porque já tem que fazer o pré-benefício, algumas precisam descaroçar como no caso do algodão, tem que secar, tem que ter a estrutura toda. Alguém precisa ter conhecimento de matemática na área de engenharia. Contabilista, administrador, todo um processo. Uma fazenda hoje é considerada como se fosse uma indústria na área urbana. O que nós não podemos ter é um tratamento como uma indústria na área urbana. O ministério do trabalho vem ai e diz que o trabalhador tem que ser pego lá há 400 quilômetros da fazendo e depois ser levado de volta no sábado para casa e voltar na segunda de manhã: só se for de teletransporte. Não tem como fazer essas coisas. A mesma coisa é o jovem aprendiz: a Aiba e as associações conseguiram fazer uma fazenda-modelo para termos os jovens aprendizes na fazenda porque não dá para fazer diferente. 300 km para ir e outros para voltar não dá para fazer todo dia. A área rural precisa ter flexibilidade. Quando precisa plantar, temos que plantar. Nós temos uma janelinha curtinha, então se tivermos que plantar 12 horas ou 24 horas por dia temos que fazer. O operador trabalha bem durante 12 horas por dia, excelente. Tem que trabalhar. Agora, passou o período entra a área de colheita. Se as lagartas atacarem de noite não podemos pulverizar? E eles contaram isso para as lagartas? Não contaram, então tem que ir lá e liquidar as lagartas. As nossas ações precisam ser imediatas. Agricultura é um negócio diferente. O médico vai dizer se eu posso ou não usar um princípio ativo para matar os insetos, eu não vou lá dizer para ele se posso usar um medicamento com esse ou aquele princípio ativo, mesmo sabendo que esta medicação causa problema. Ou o bispo vir dizer para gente: oh, vamos ficar dez anos sem abrir um hectare de cerrado. Bacana, eu vou lá na igreja falar para ele: ó, bispo, vou ficar 10 anos sem vir na missa. Olha que bacana. Não dá. Cada macaco no seu galho e cada coisa tem que ser convergente. E é isso que Bahia Farm Show faz, propícia. Uma oportunidade de aprendizado, ensinamento, encontro de amigos. Uma oportunidade que nós temos de mostrar para vocês da imprensa que nós somos parte do princípio e que toda noite temos mais de 250 pessoas convidadas para o jantar. Eu não como o que nós produzimos, e eu consigo sobreviver em qualquer parte do mundo, agora, uma boa parcela da população não consegue fazer isso.

Determinações do corpo de bombeiro

Digo sempre o seguinte: tudo que for exigência feita antes de fazermos os projetos nós conseguimos adaptar com facilidade. É o caso da legislação trabalhista, da ambiental, do Crea e é o caso dos bombeiros também. Olha, nós sabemos apagar fogo melhor que qualquer bombeiro por ai. Pode trazer qualquer bombeiro, treinado em qualquer parte do mundo que não sabe apagar fogo melhor do nós produtores. Isso eu garanto. Os bombeiros têm que chegar, olhar, demonstrar conhecimento e respeito para quem trabalha na área e convencer de que esta é a maneira mais eficiente de fazer as coisas. Com certeza vai ter produtor que continuará sendo mais eficiente que qualquer bombeiro de qualquer lugar do mundo. Nós conhecemos onde moramos. E nós não aceitamos que o fogo destrua o que nós fazemos. Bombeiros, meio ambiente e área trabalhista: eu disse estes dias a um grupo de órgãos que passou um tempo visitando as fazendas. Chegava policial federal com submetralhadora, um monte de gente, uma ostentação danada e eu falei lá: se eu tiver um roubo ou incêndio vocês terão a mesma eficiência para vir aqui? Tem nada!. Essas coisas precisam começar a mudar.

Diálogos

Nós somos a população do estado também. O policial é um cara que tem uma família igualzinha a nossa. É por isso que fazemos o trabalho de aproximação com as policias. Um só se dá melhor trabalhando em uma área e o outro em outra. Nós temos que convergir. Temos que continuar conversando e convergindo sem tomar medidas drásticas.

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