Eleições 2018

Repaginada, Lídice abre o jogo sobre Coronel, Bolsonaro, socialismo e o futuro do PSB

[Repaginada, Lídice abre o jogo sobre Coronel, Bolsonaro, socialismo e o futuro do PSB]
18 de Agosto de 2018 às 06:11 Por: Henrique Brinco 0comentários

Após oito anos, Lídice da Mata (PSB) vai deixar o carpete azul do Senado Federal em dezembro de 2018 para tentar uma vaga no Salão Verde da Câmara. A presidente do PSB na Bahia esteve no centro das atenções do noticiário político nos últimos meses em meio ao imbróglio sobre a permanência ou não na chapa majoritária do governador Rui Costa (PT). Ela perdeu a batalha, mas não o jogo de cintura e pretende continuar em posição de destaque no parlamento caso seja eleita deputada federal.

Após longa negociação com sua assessoria, Lídice aceitou o convite do BNews para uma entrevista exclusiva e reveladora onde fez um balanço sobre o período turbulento e revela suas visões de mundo. A conversa será a primeira da série de entrevistas com os presidentes estaduais dos partidos, sempre publicadas aos sábados.

A ex-prefeita de Salvador esteve no estúdio do site, localizado na Barra, na última quinta-feira (16). Chegou pontualmente às 17h30, horário marcado para o encontro, e surpreendeu logo de cara: abandonou os tradicionais terninhos e adotou um visual mais despojado, que inclui vestidinho acima do joelho e um novo corte de cabelo. No entanto, aos 62 anos, Lídice continua com a marca registrada de ter opiniões fortes e contundentes.

Defensora aguerrida dos governos Lula e Dilma, a senadora vê com preocupação o crescimento do presidenciável Jair Bolsonaro (PSL) nas pesquisas de intenção de voto. “É como se houvesse com Bolsonaro no poder uma permissão para matar”, destaca. A baiana também não deixa de explicitar o descontentamento o acordo entre o PSB e o PT nacional, que culminou no isolamento do candidato do PDT na corrida ao Palácio do Planalto. "O PSB poderia ter apoiado Ciro [Gomes] e liberado os estados que já têm aliança com Lula, como é o caso da Bahia".

Sobre a saída da chapa de Rui, ela é enfática: "Não, eu não desisti. Eu fui desistida". Esclarece que o partido ainda não definiu sobre qual candidato vai apoiar na segunda vaga à senatoria (na primeira vaga, apoia o petista Jaques Wagner). Sobre o candidato Ângelo Coronel (PSD), que ficou em seu lugar, evita maiores polêmicas. "Eu obviamente fiz com a minha candidatura uma oposição à candidatura de Coronel. Defendi que a minha candidatura era legítima, como uma candidatura que estava no mandato e que exerceu o mandato com aprovação dos baianos – já que as pesquisas demonstravam isso. Agora, este capítulo está encerrado".

Indagada sobre o candidato Jutahy Magalhães (PSDB), da chapa oposicionista, Lídice exalta a relação de respeito que mantém com o tucano. "Conheço Jutahy há muitos anos. Ele inclusive já me apoiou para prefeita de Salvador. É um colega com quem tenho relações pessoais e de respeito. mas eu tenho um caminho político diferente de Jutahy".

Antes de se firmar como candidata a deputada federal, ela chegou a ser sondada pelo governador de São Paulo sobre a possibilidade de concorrer à Presidência. "Seria uma grande oportunidade e eu ficaria muito honrada de poder fazer isso em nome do meu partido. No entanto, o convite de Márcio, mesmo compreendendo e sendo grato por sua lembrança, se deu em um período muito próximo ao período eleitoral", lamenta. Entretanto, ela diz que não deixa de sonhar com a possibilidade de servir ao país ocupando a cadeira que um dia foi da ex-presidente Dilma Rousseff.

Ainda na entrevista, Lídice faz um balanço sobre como vê o partido do qual faz parte atualmente. "O PSB realmente tem divisões. A busca de Eduardo Campos por uma candidatura em 2014, e depois com o acidente que tirou a sua vida, levou o partido a uma situação de grande dificuldade que nenhum outro partido teve no Brasil".

Sobre propostas que quer levar para a Câmara Federal, a candidata afirma que pretende propor projetos que incentivem a produção cacaueira na Bahia e defendam os direitos humanos. E defende a implantação de um novo formato de socialismo no Brasil, a exemplo do modelo econômico chinês. “Acredito que seja possível construir um país socialista com liberdade. Agora, qual é a liberdade? A liberdade da Rede Globo? Dos grandes meios de comunicação se comporem para dizer qual é o destino da nação? Não, é a liberdade definida com as regras que o povo escolher”, pontua.

Questionada sobre como gostaria de ser lembrada nas futuras biografias, Lídice afirma que “não quer morrer tão cedo”. “A mim, me basta a lembrança dos meus netos. Quero ser lembrada como uma avó afetuosa e uma mãe também assim”.

Leia a entrevista na íntegra:

BNews – Como a senhora vê a instabilidade política no país atualmente? O cenário ainda está muito nebuloso?

Lídice da Mata – Nós estamos há três anos nessa situação de instabilidade e de crise, que se agravou após a retirada da presidente Dilma do governo. Talvez as pessoas não tivessem a dimensão do que aquela retirada iria significar em termos de mudança de realidade para a vida das pessoas no Brasil. Tivemos uma piora na qualidade de vida dos brasileiros em dois anos. Isso não quer dizer que o governo de Dilma estivesse na sua melhor fase. Não estava. Enfrentava a sua maior crise econômica. Mas o que se juntou a essa crise econômica foi a oposição derrotada para inviabilizar a governabilidade rejeitando todas as propostas que visassem o enfrentamento da crise econômica da Câmara. Nós tivemos o fim da CLT com a Reforma Trabalhista. A agenda que foi colocada deixou a conta da crise nos ombros do trabalhador para pagar e isso claro que gera instabilidade permanente. E se foi para uma ação persecutória para pessoas daquele campo que de certa forma representavam aquele governo que foi deposto. E a principal liderança disso era o PT e o presidente Lula. Foi uma ação de criminalização da política para atingir Lula. E é isso que estamos vendo agora: o principal candidato à Presidência do Brasil está preso.

BNews – Nesse momento vemos Jair Bolsonaro (PSL) na liderança das pesquisas e os partidos de esquerda fragmentados. O que a senhora acha disso? Como ele pode ser combatido diante desse cenário?

Lídice – Acho ruim. Acho que o melhor caminho seria que nós estivéssemos juntos numa frente de centro-esquerda que pudesse nos alavancar mais rapidamente, com o apoio obviamente de Lula, para que a gente pudesse chegar de forma mais confortável ao segundo turno. Isso não quer dizer que não temos chance de chegar ao segundo turno. Temos ainda. Lula é o campeão das pesquisas e elas também demonstram que há uma grande disposição da população em votar naquele que der continuidade ao legado de Lula. A presença de Bolsonaro na campanha vem, em parte, de uma onda do conservadorismo internacional. E tem também alguns elementos que transformam o discurso dele em algo mais palatável para segmentos da política atual. Uma é a própria retirada da candidatura de Dilma. Uma eleição é um pacto entre a população e o eleito. O eleito apresenta uma proposta de programa e o povo o elege com aquele programa. Quando você retira a pessoa ali do governo apenas porque uma maioria parlamentar decidiu, vêm à tona segmentos que, para essa retirada de Dilma, se aliaram. E, infelizmente, o PSDB namorou explicitamente com esse segmento mais conservador e atrasado do ponto de vista econômico e do comportamental – sobretudo dos direitos individuais, que é a representação da candidatura de Bolsonaro. É uma candidatura que fala claramente em violência, que usa o símbolo de um revólver na mão para uma população que tem visto a violência crescer e a proteção do cidadão individualmente ficar menos possível. Então, esse processo de insegurança não teve um devido cuidado nos últimos 15 anos de política pública que o incorporasse numa agenda forte num projeto eleitoral. No governo Lula, durante os Jogos Pan-Americanos, se construiu a ideia de uma polícia unificada. Mas veja que são ações eventuais e determinadas, depois tudo volta a ser como era antes no Quartel d'Abrantes. Existe a necessidade de discutir uma nova agenda de segurança pública. Isso é visto de uma maneira muito particular pela campanha de Bolsonaro, porque ele promete impunidade para as forças policiais. É como se houvesse com Bolsonaro no poder uma permissão para matar. Vejo isso com muita preocupação daqui para a frente.

"Foi uma ação de criminalização da política para atingir Lula. E é isso que estamos vendo agora: o principal candidato à Presidência do Brasil está preso."

BNews – O ex-presidente Lula registrou a candidatura nessa semana e já foram protocolados pedidos de impugnação no Tribunal Superior Eleitoral. Com base na Lei da Ficha Limpa, ele deve ser impedido e a tendência é que Fernando Haddad (PT) assuma a cabeça de chapa, com Manuela D’Ávila na vice. Como a senhora vê essa estratégia do PT? É acertada?

Lídice – Ela tem o seu grau de acerto, porque Lula cresceu. Do período em que foi preso até agora, ele não parou de crescer nas pesquisas eleitorais. Então, a colocação do seu nome como candidato agregou o esforço do seu legado. As pesquisas demonstram que, até em São Paulo, que todos diziam que era o grande campo anti-Lula, ele ganha a eleição. Mas você pode dizer que ele tem alta rejeição, mas todo candidato tem rejeição. O que importa é que ele é conhecido e ele tem o maior índice de aprovação. O resto, o debate político vai fazendo com que as dificuldades sejam superadas. O que mostra é que o voto de Lula não é um voto só do Nordeste. É um voto do país inteiro. Ele é um voto que une o Nordeste e a pobreza no Brasil. 

BNews – O secretário-geral do PSB na Bahia, Domingos Leonelli, declarou que não concordou com o acordo do PT com o PSB de Pernambuco, que culminou na desistência da candidatura de Marília Arraes (PT) no estado e o afastamento dos socialistas do PDT de Ciro Gomes. A senhora concorda com essa declaração?

Lídice – Eu lamento muito a saída de Marília. Acho que é um direito dela ser candidata. Agora isso faz parte do debate e da força de negociação política. Foi o PSB o principal responsável pela candidatura de Marília, porque foi o PSB que solicitou isso ao PT em troca do PSB retirar a candidatura de Márcio Lacerda em Minas Gerais para que isso resultasse em um equilíbrio de capacidade de concorrência. Faz parte dessas composições nacionais. E com isso Ciro também foi retirado. Eu lamento. Não foi o melhor projeto. O PSB poderia ter apoiado Ciro e liberado os Estados que já tem aliança com Lula, como é o caso da Bahia. Foi a moeda de troca do PT, que desejava o apoio do PSB a Lula nacionalmente. Como o PSB não poderia fazer isso porque não tinha unidade política interna suficiente para tomar essa decisão, o PT jogou uma outra cartada.

BNews – Quantos candidatos o PSB pretende lançar aqui na Bahia para a Assembleia Legislativa e a Câmara Federal? Quantos podem ser eleitos?

Lídice – São 11 candidatos a deputado estadual. Quantos vão ser eleitos não sei, nós temos cinco deputados e é claro que o partido luta para que haja a reeleição deles e que ainda assim a gente possa crescer a bancada. Para federal são seis candidaturas. Nós tivemos que cortar de estadual foram para federal, principalmente para garantir a cota de mulheres. Nós tínhamos apenas um deputado federal e o nosso esforço é para tentar viabilizar uma votação para que o partido chegue a dois ou três deputados federais.

BNews – Nos últimos meses a senhora fez uma campanha forte para se manter como candidata ao Senado. Mas, após conversas com o governador Rui Costa, acabou desistindo...

Lídice – [interrompe] Não, eu não desisti. Eu fui desistida. A chapa é de Rui. A composição é do governo. Se tivesse a condição de decidir se sou ou não sou [candidata ao Senado], só se fosse para me lançar sozinha. Mas para participar de uma chapa majoritária, de um projeto maior, tem que os outros concordarem com isso. Houve, portanto, um pleito do PSD que terminou convencendo o PT, que é o partido do governador.

BNews – Mas a senhora ensaiou fazer uma campanha avulsa, inclusive.

Lídice – Não, eu não ensaiei isso. Houve companheiros que propuseram isso. Eu nunca defendi isso publicamente, embora o meu partido e eu pudéssemos ter o direito de assim fazê-lo. Mas entendi que seria um prejuízo do PSB, para a nossa possibilidade de eleger deputados federais e estaduais, leva-los a uma candidatura sem ter preparado o partido para sair sozinho. Se nós tivéssemos feito uma estratégia de sair sozinhos para deputado estadual, como fez o PCdoB, e fizéssemos 60 candidatos a deputado estadual, tínhamos para fazer 30 inicialmente... mas nós fomos para uma proposta de coligação proporcional no chapão, o que inviabilizaria uma construção dessas e facilita para os deputados estaduais.

BNews – O seu partido anunciou o apoio ao candidato do Prona ao Senado, Celsinho Cotrim...

Lídice – [interrompe] Não, não. O meu partido não anunciou apoio para Celsinho. O presidente do partido no município de Salvador, uma pessoa, anunciou a sua posição individual de apoio a Celsinho. 

"Não, eu não desisti. Eu fui desistida. A chapa é de Rui"

BNews – E a senhora concorda com esse apoio?

Lídice – Não. Celsinho é  um amigo, uma pessoa que foi do partido e tem diversas pessoas dentro do partido e, certamente, um ou outro militante ter em Celsinho o seu candidato. O PSB não definiu isto. Então, não há uma posição oficial do partido. 

BNews – Fala-se muito também que os seus correligionários vão apoiar a candidatura de Jutahy. O que a senhora acha disso?

Lídice – Também não há  nenhuma posição oficial do partido sobre isso.

BNews – E o que a senhora pensa sobre Jutahy?

Lídice – Conheço Jutahy há muitos anos. Ele inclusive já me apoiou para prefeita de Salvador. É um colega com quem tenho relações pessoais e de respeito. Mas eu tenho um caminho político diferente de Jutahy. Nos respeitamos muito e eu sou uma política que acredito que, independente das posições políticas e ideológicas, é preciso ter respeito um pela opinião do outro.

BNews – E como está a sua relação com Ângelo Coronel hoje?

Lídice – A que sempre teve, de cumprimentá-lo e trata-lo bem. E ele a mim. Eu, obviamente, fiz com a minha candidatura uma oposição à candidatura de Coronel. Defendi que a minha candidatura era legítima, como uma candidatura que estava no mandato e que exerceu o mandato com aprovação dos baianos – já que as pesquisas demonstravam isso. Agora, este capítulo está encerrado. Eu sou candidata a deputada federal e componho a chapa ao governo do governador Rui Costa. 

BNews – Mas sem dar apoio a Coronel...

Lídice – Sem dar ou dar, isso não é uma questão para mim no momento.

BNews – Quais são as suas principais propostas de campanha?

Lídice – Tenho projetos como senadora que levarei para o Congresso Nacional. Espero aprovar até o fim do ano o nosso projeto de 35% de cacau  no chocolate, porque é uma coisa importante para a Bahia na produção do chocolate brasileiro. Se isso não se efetivar, pretendemos agora no próximo esforço concentrado da Câmara ter já votação na primeira Comissão. Se não conseguirmos, vamos com essa proposta para unir a Bahia em torno de um projeto claro de defesa do cacau. Nós temos uma posição histórica de defesa da inclusão da criança, do adolescente no processo de proteção social. Vamos lutar para não diminuir as verbas para a educação e saúde, porque estamos vendo cortes nessas áreas. 

BNews -  Fala-se muito que o tema dessa eleição vai ser o desemprego. Como a senhora pretende ajudar lá no parlamento a resolver essa questão aqui na Bahia?

Lídice – Só se combate o desemprego com desenvolvimento. O instrumento principal é o poder executivo que tem de ter investimento e instrumentos para que o país volte a crescer e para que, no nosso caso, a Bahia também possa se desenvolver. O Congresso Nacional tem que estar a serviço disso. E um dos instrumentos acho que é revogar essa história absurda que é a manutenção do controle dos gastos no Brasil, colocada na Constituição, onde por 20 anos não pode se fazer aumento de gastos que não seja com a correção da inflação. Isso vai acabar com a educação e a saúde públicas no Brasil. Lutarei contra este retrocesso. E espero que sejamos capazes de eleger um presidente da República que acabe com isso.

BNews – Fala-se também que o próximo Presidente terá que dar continuidade ao “balcão de negócios” existente no parlamento por causa da grande quantidade de partidos. Isso realmente vai acontecer? Como podemos fugir disso?

Lídice – Depende do que se chama de “balcão de negócios”. No Brasil, nesses últimos tempos, as tentativas de criminalização da política transformaram tudo em coisa ruim. Não há governo no mundo que não seja formado com a distribuição de parte do poder para os partidos que fazem parte daquele governo. Isso não é “balcão de negócios”, isso é uma negociação de participação no poder. Ou você tem um partido único, que é dono do poder, ou você tem dois grandes partidos, como nos Estados Unidos. O nosso presidencialismo não foi capaz de ser um presidencialismo de dois partidos. E eu não vejo erro nisso, não. O presidencialismo que temos aponta para uma composição de frentes políticas, de participação de partidos. Agora, temos muitos partidos e acho que as medidas que estão sendo tomadas nesta eleição para não ter coligação proporcional e estabelecer limite de votos para ter acesso ao fundo partidário e ao tempo de televisão, são instrumentos para uma regulamentação do número de partidos na sociedade brasileira. Realmente, há muitos partidos. Eu sou defensora da liberdade partidária, agora isso não quer dizer que ele tenha tempo de televisão e recursos financeiros para as legendas aí sim usarem como “balcão de negócios”. Espero que nós tenhamos condição de fazer uma reforma política realmente séria para que a gente possa conseguir dar uma representatividade maior aos partidos ao poder no Brasil.

BNews – O PSB hoje se dividiu em dois: no Nordeste é mais petista e no Sudeste, mais tucano. A senhora concorda com essa afirmação?

Lídice - Não sei qual é o partido no Brasil que não está dividido. Mesmo o PT hoje tem as suas tendências. Sem que o PT e o PCdoB têm uma posição clara de apoio à candidatura de Lula, mas duvido que no PCdoB não tenha havido divergências sobre esse processo. Ouvi declarações sobre o governador Flávio Dino apoiando a candidatura de Ciro, por exemplo. Então, o PSB realmente tem divisões. A busca de Eduardo Campos por uma candidatura em 2014, com o acidente que tirou a sua vida, levou o partido a uma situação de grande dificuldade que nenhum outro partido teve no Brasil. O desafio de ter uma candidatura própria, a ousadia de colocar uma candidatura própria e perder essa candidatura do principal líder em plena campanha eleitoral. Então, é natural que o PSB tenha que passar por um período de recomposição. Isso é real. O partido no Sul ganhou uma influência de forças mais à direita e o partido do Norte-Nordeste ganhou uma composição mais à esquerda.

BNews – A senhora se encontrou com o governador de São Paulo, Márcio França, e foi divulgado que a senhora foi convidada a ser Presidente da República. Conte-nos um pouco sobre esse convite e porque ele foi recusado.

Lídice – Márcio concluiu que, diante dessa divisão do partido, ter uma candidatura própria seria o caminho que teria condição de unificar o partido. Ir para um caminho mais unificado. E isso eu concordo com ele. No entanto, nós não conseguimos fazer essa candidatura própria a tempo. No congresso que tivemos em março anunciamos essa possibilidade. O partido tentou com a presença de Joaquim Barbosa. Na medida em que Joaquim Barbosa se retirou do pleito por vontade própria, o movimento seguinte do partido deveria ser rediscutir a questão da candidatura própria e até talvez caminhar para uma coisa dessas. Aí seria outra coisa. O partido estaria discutindo um programa de governo e eu teria a disposição, como outros companheiros de partido, de me colocar para fazer ser instrumento da luta do partido para levar ao povo brasileiro o conhecimento do nosso programa de governo e ideias. Para mim não teria problema se fosse para unir o partido em torno disso. Aliás, seria uma grande oportunidade e eu ficaria muito honrada de poder fazer isso em nome do meu partido. No entanto, o convite de Márcio, mesmo compreendendo e sendo grato por sua lembrança, se deu em um período muito próximo ao período eleitoral. Então, em função disso, achei que não era o momento e sugeri que, àquela altura, era melhor o partido apoiar as candidaturas já existentes.

BNews – Mas é um sonho da senhora ser Presidente?

Lídice – Acho que qualquer político sonha em poder um dia servir ao seu país dessa maneira. É claro que eu também tenho a dimensão de que não tenho uma liderança nacional que me coloque numa posição dessas neste momento. Mas é claro que se fosse para o partido, por um programa estruturado pelo partido, só poderia ser uma honra para mim. 

"Espero que nós tenhamos condição de fazer uma reforma política realmente séria para que a gente possa conseguir dar uma representatividade maior aos partidos ao poder no Brasil"

BNews – Além da senhora, existe algum outro nome dentro do PSB que poderia ser uma futura liderança nacional?

Lídice – O próprio governador de São Paulo, Márcio França, tem toda condição. Nós temos governador em Pernambuco, no Distrito Federal, candidato com muita chance de ganhar eleição no Espírito Santo, candidato com ótima aprovação na Paraíba... Não faltam nomes no PSB que possam assumir essas lideranças. Numa democracia, àqueles que passaram pelos governos estaduais naturalmente são possíveis candidatos para alçar voos mais altos.

BNews – O Tribunal Superior Eleitoral divulgou que a cota de candidaturas para mulheres está perto do limite estabelecido por lei. Qual é a dificuldade para se ter mais mulheres na política?

Lídice – Primeiro porque a mulher conquistou o voto depois. A discriminação cultural da sociedade limitando apenas o espaço doméstico para que ela pudesse atuar, leva para que ela tenha se preocupado depois com a sociedade - embora a mulher tenha uma participação muito grande nas lutas coletivas. Qualquer prefeito sabe que as lideranças femininas nos bairros se destacam rapidamente. Mas elas não se veem como lideranças, porque historicamente elas foram colocadas para atuar para a família e para o lar. Os homens encarregaram de dizer para as mulheres que a política é suja e só serve para eles. Muitas acreditaram nisso. É o resultado de uma dominação ideológica, do machismo instituído no poder. Segundo porque temos um sistema político que afasta as mulheres. No sistema de financiamento empresarial  a mulher não tinha acesso as empresas por estar na base da pirâmide social e econômica do país. Agora é que nós começamos a aparecer, porque tem financiamento público e o próprio TSE tomou a decisão de dizer que se somos 30% da chapa, 30% dos recursos também têm que vir para nós. Aí mudou. O que aconteceu? Pode olhar a composição das chapas de Presidente da República: praticamente todas têm uma mulher na vice. Todo mundo quer um pouquinho do naco do dinheiro eleitoral. Muitas feministas denunciam isso como uma burla eleitoral. E é uma manobra oportunista, mas ainda assim é importante porque viabilizou que as mulheres sejam vistas de maneira diferente. Todo mundo agora quer uma senadora mulher, uma vice-governadora mulher, para poder ter um pedaço dos 30% do fundo partidário. Vão surgir naturalmente mulheres políticas nesse processo.

BNews – Recentemente discutiu-se muito uma possível união entre o DEM e o PSB? Existe um diálogo com o DEM?

Lídice – Essa discussão começou logo após a morte de Eduardo, em 2015. Praticamente porque algumas lideranças do DEM sentiram a necessidade de renovar as suas imagens. E como o PSB era um partido que tinha perdido a sua liderança principal, algumas lideranças confusas começaram a tentar crescer procurando retirar de outros partidos esse crescimento. E lideranças do DEM é que procuraram o PSB para seguir esse caminho. Mas isso não foi adiante porque o PSB tem uma história, um programa. Mesmo que eventualmente se afaste desse programa como aconteceu, não tem jeito. Ou tira o nome de Partido Socialista Brasileiro e apaga sua história. Acho que se essa união ocorresse acabaria o PSB. Não creio que nenhum militante político de esquerda ou centro-esquerda que esteja no PSB pudesse conciliar ou participar de uma coisa dessas.

BNews – A senhora citou a palavra “Socialista”. O PSB ainda é mesmo socialista hoje em dia? É possível implantar o socialismo ainda hoje no Brasil?

Lídice – Claro que não é um socialismo como o da União Soviética, em 1917. O socialismo se modifica do ponto de vista da sua execução e da sua realização no momento de desenvolvimento de cada sociedade. O que é a China? É uma economia capitalista? Alguns dizem que é Capitalismo de Estado.

BNews – Mas lá não há liberdades...

Lídice – Você está perguntando se é possível o socialismo.

BNews – Mas descamba para isso.

Lídice – Sim, meu amor. O PSB defende o socialismo com liberdade. O socialismo e liberdade é o símbolo do nosso partido. Acredito que seja possível construir um país socialista com liberdade. Agora, qual é a liberdade? A liberdade da Rede Globo? Dos grandes meios de comunicação se comporem para dizer qual é o destino da nação? Não, é a liberdade definida com as regras que o povo escolher. Quero saber o seguinte: a China é o quê? É uma economia de força, vitoriosa? Ou não é? Porque a China se diz um país socialista. Volto a dizer que alguns a consideram Capitalismo de Estado. Não é um capitalismo clássico igual ao dos americanos, mas tem influência na economia do mundo inteiro. O que eu quero dizer com isso é que não podemos discutir socialismo como discutíamos no início do século 20. O socialismo tem que ser discutido e atualizado à luz de uma sociedade moderna, com desenvolvimento tecnológico que tem e em um formato novo.

"Todo mundo agora quer uma senadora mulher, uma vice-governadora mulher, para poder ter um pedaço dos 30% do fundo partidário"

BNews – Senadora, como a senhora pretende ser lembrada na sua biografia?

Lídice – Olha, eu não pretendo morrer tão cedo. [risos] Não quero saber como quero ser lembrada. A mim, me basta a lembrança dos meus netos. Quero ser lembrada como uma avó afetuosa e uma mãe também assim. E também como uma pessoa que se dedicou como uma vida pública. A minha biografia hoje é lutar. O resto vai caber ao pensamento de cada um. Uma pessoa de direita que vota em Bolsonaro pensa uma coisa. O que eu não desejo na minha biografia é que achem que eu tenha uma opinião unânime. A unanimidade não faz parte da política. A unanimidade, como já diria Nelson Rodrigues, é burra. Não existe uma verdade única. Existem verdades. E as verdades são constituídas dos pensamentos e dos valores que cada pessoa tem. A minha vida é um livro aberto. Não tenho nada a esconder do povo baiano. Todos os anos apresento meu imposto de renda. Muitos se falam sobre os políticos e a política, mas não há poder mais transparente do que o poder legislativo do Brasil. Todos conhecem a vida dos políticos. Tenho uma vida absolutamente transparente para o julgamento do povo.

Fotos: Vagner Souza // BNews

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