Política

“Bolsonaro sempre foi uma figura frágil, rasa, da política pequena, sem nenhuma visão sobre os grandes temas nacionais”, detona Daniel Almeida

[“Bolsonaro sempre foi uma figura frágil, rasa, da política pequena, sem nenhuma visão sobre os grandes temas nacionais”, detona Daniel Almeida]
03 de Fevereiro de 2019 às 05:00 Por: Márcia Guimarães 0comentários

Recém-empossado deputado federal, Daniel Almeida (PCdoB-BA) está há 16 anos no Congresso e acumula décadas de luta como líder estudantil, sindicalista e político brasileiro. Em entrevista ao BNews, ele critica fortemente os primeiros 30 dias do Governo Bolsonaro, a polarização na política e comenta sobre a busca do PCdoB por mais espaço no Governo Rui Costa, entre outros assuntos. Confira:

BNews – Como você avalia os primeiros 30 dias do Governo Bolsonaro?
Daniel Almeida -
Um desastre. Para mim, que conheço Bolsonaro há pelo menos 16 anos no Congresso, ele sempre foi uma figura frágil, rasa, da política pequena, sem nenhuma visão sobre os grandes temas nacionais. Além disso, sempre semeou ódio, fez a dispersão, e não a convergência de ideias, de projetos e de forças políticas. Então, uma pessoa com estas características dificilmente reuniria condições de liderar um processo de gestão em um país tão complexo como o Brasil. 

As primeiras medidas de seu governo são sempre de muita insegurança, toma uma decisão hoje e recua amanhã. Quando ele se expõe para falar alguma coisa, é com muita insegurança, quase pavor, como o vexame que aconteceu em Davos. O Brasil tem tanta coisa a oferecer, mas ele demonstrou não ter capacidade de apresentar absolutamente nada. 

Além disso tem os problemas envolvendo o clã que ele lidera. Aquilo ali é uma coisa integrada, nada que acontece com o filho deixa de ser construção dele, as coisas estão muito juntas e o fato precisa passar por uma grande investigação. 

Vemos também um cenário aloprado de privatizações, que não vão levar o país para a frente; retirada de direitos do nosso povo, com a nova Previdência; o ataque ao trabalho do campo e aos sindicatos rurais, impondo dificuldades para esses trabalhadores terem acesso à aposentadoria; o estímulo à mais violência com a liberação de armas de forma indiscriminada. Enfim, é algo realmente assustador. A gente tenta extrair algo de positivo que esse governo apresentou nesses primeiros 30 dias, mas não consegue encontrar.

BNews – Como chegamos a essa polarização tão forte na política?
Daniel Almeida -
Bolsonaro faz um discurso que o seu governo está disposto a eliminar o chamado “viés ideológico”. Nunca se verificou um governo com tanta ideologia, no qual só serve o ponto de vista e o pensamento dele. O pensamento divergente, na visão deles, não pode ser tolerado e terá que ser eliminado, ou seja, não há convivência e respeito às posições divergentes. 

As ameaças a Jean Wyllys são realmente uma demonstração clara desse ambiente de intolerância que vai se consolidando dentro do governo. Ele vinha sendo ameaçado e percebendo que a sua vida estava sob risco. Não há nada mais sagrado do que o direito que as pessoas têm de se defenderem e de protegerem a própria vida. Eu não tomaria uma decisão com esse conteúdo, jamais imaginaria sair do meu país, mas eu não posso avaliar o grau de risco que ele verificou que a sua vida estava correndo. Pelos fatos que aconteceram tão próximos, como foram os casos da Marielle Franco (assassinada em 2018) e do Marcelo Freixo (que recentemente detectou que havia uma ação para assassiná-lo), Wyllys, seguramente pelo grau de consciência que ele tem e a percepção do risco político, tomou essa decisão que é grave. Mais do que qualquer coisa, é um atentado à democracia, à diversidade, à liberdade das pessoas terem posição e isso não é um fato que atinge só o Jean Wyllys, atinge toda a sociedade e todo o povo brasileiro.

BNews – Qual a expectativa para a sua participação na Comissão de Desenvolvimento Econômico, Indústria, Comércio e Serviços (CDEICS)? 
Daniel Almeida -
A cada ano, faz-se a eleição para uma nova mesa de cada comissão. Eu não sei ainda qual posição me caberá para este próximo período. Como presidente, eu fiz um trabalho para abrir a CDEICS para um amplo debate sobre o desenvolvimento nacional. Vou divulgar uma compilação de audiências públicas e contribuições que conseguimos extrair em debates na comissão sobre diversos temas, a exemplo do desenvolvimento nacional, da indústria nacional, indústria de 4ª geração, emprego, relações externas, automação, incentivo aos automóveis movidos a energia elétrica (que está bastante atrasado em nosso país), petróleo, mineração e desenvolvimento da economia da Bahia. Então, conseguimos fazer com que a comissão fosse um espaço para pensar política industrial para o nosso país em todas as dimensões que esse tema pode comportar. 

Espero continuar como presidente ou membro da comissão e dar uma contribuição continuada, principalmente não permitindo que se desmonte uma estrutura grande que o país já conseguiu produzir. Nós temos um setor elétrico sólido com a grande participação estatal, mas que querem desmontar. Precisamos definir qual é o papel da manutenção dessa estrutura e segurar. Temos a Petrobras, que é uma coisa extraordinária da construção do povo brasileiro e que está correndo um grande risco desse setor tão estratégico passar por um processo de desnacionalização. 

Estamos vendo o que aconteceu com a Embraer, estamos abrindo mão de uma produção tecnológica de caráter estratégico e esse debate precisa ser feito. Nós queremos discutir o papel das instituições públicas e essa onda de privatização pode esvaziar ou até privatizar bancos como o BNDES e o Banco do Brasil e assim por diante. 

Neste ano, a atitude que devemos ter é muito mais de resistência, de enfrentamento e de afirmação sobre o papel dessas instituições. É a defesa da nossa soberania, da nossa democracia, da nossa institucionalidade e do patrimônio que a gente conseguiu construir até aqui. Acho que essa é a principal ameaça que nós devemos debater com a sociedade e conquistar apoio dela e do Congresso.

BNews – Você buscará algum posto de liderança na Câmara dos Deputados?
Daniel Almeida -
Eu já tenho a honra de ter sido reconhecido por oito anos consecutivos como uma das cabeças do Congresso. O Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap) faz um levantamento e vê quais parlamentares se destacaram pela ação que desenvolvem no Congresso. Eu pretendo continuar nesse ritmo que tenho adotado até aqui e vou me empenhar para que a nossa ação possa ser percebida e possa ter impacto na relação com a sociedade. 

Sobre o posto que a gente vai ocupar, eu sempre coloco à disposição da bancada, não apresento nenhum pleito à priori. Pode caber algum espaço numa comissão especial, a presidência de uma comissão, ser líder da minha bancada ou de um bloco que pretendemos formar. Todas estas hipóteses estão postas, mas ainda é cedo para a gente falar sobre qual lugar poderia resultar numa contribuição maior do nosso mandato.

BNews – Como está a procura do PCdoB por mais espaços no Governo Rui Costa?
Daniel Almeida -
O governador está discutindo, ouvindo os partidos e as ponderações, fazendo sugestões de critérios, mas ainda não informou o que caberia ao PCdoB. Não tem sido fácil para ele, em função da complexidade do caso, já que o seu governo foi eleito com 76% dos votos dos baianos, com tantos partidos e forças participando desse processo, com uma bancada parlamentar tão densa e expressiva e em um momento em que a estrutura do governo diminuiu. A reforma administrativa reduziu o número de cargos e de empresas. Então, é uma situação complexa mesmo. O que está posto nas conversas com o governador é que o PCdoB é um parceiro estratégico e fundamental e não haverá diminuição de espaço. Se a gente puder acrescentar alguma coisa de responsabilidade nova para o PCdoB, a gente vai trabalhar nessa direção. Qual vai ser e se vai ser possível, ainda não está definido. 

Atualmente, temos duas secretarias e uma empresa: a Secretaria do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte (Setre), a Secretaria de Políticas Públicas para Mulheres (SPM) e a Bahiagás. O governo afirma que não haverá diminuição desse espaço, isso não quer dizer que não possa haver uma permuta, alguma mudança de uma posição para a outra (empresa ou secretaria). Só depois de definir quais são os espaços é que iremos definir quais são os nomes e, posteriormente, debateremos sobre o segundo escalão. 

Gostaríamos muito de ter um espaço maior. O PCdoB cresceu, saiu de três deputados estaduais para cinco. Elegemos três deputados federais. Temos um que não irá assumir por agora porque está sub judice, que é o Isaac Carvalho, mas teve votos suficientes para se eleger. Nós crescemos a nossa influência política e a nossa base de apoio a Rui. Nós falamos com o governador que isso poderia justificar ter duas secretarias de porte médio, já que nós temos uma de porte médio e outra de peso político menor, mas isso o governador que tem que decidir. 
 

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