Política

“Não vejo raiva dos brasileiros, vejo que o PT foi vítima de uma campanha brutal”, avalia Marcelino Galo

[“Não vejo raiva dos brasileiros, vejo que o PT foi vítima de uma campanha brutal”, avalia Marcelino Galo]
17 de Fevereiro de 2019 às 05:00 Por: Márcia Guimarães0comentários

Eleito líder do Partido dos Trabalhadores (PT) na Assembleia Legislativa da Bahia (AL-BA) em 2019, o deputado estadual Marcelino Galo possui uma trajetória política de lutas a favor da reforma agrária, da agricultura familiar e da agroecologia. O agrônomo é filiado ao PT desde a sua fundação e trabalhou na criação de diversos assentamentos por todo o estado. Por ter participado de diversos momentos históricos para o Partido, o BNews o convidou para avaliar as inúmeras críticas e ódio direcionados ao seu partido, a corrupção na política, o afrouxamento das normas ambientais no Governo Bolsonaro e o futuro do Bolsa Família, entre outros assuntos temas polêmicos. 

BNews – A que você atribui a raiva de milhões de brasileiros direcionada ao PT?
Marcelino Galo -
Não vejo raiva dos brasileiros, vejo que o PT foi vítima de uma campanha brutal. Nunca vi uma campanha com tanta violência política para desconstruir um projeto. Isto não foi nem pelas mazelas do PT, mas pelo que o PT vinha fazendo de bom para a sociedade brasileira: a construção de um projeto de democracia com igualdade, inclusão social e com o crescimento da economia de forma inusitada. Quem diz isso não são intelectuais de esquerda, é o próprio Banco Mundial. Você nunca viveu um período na história do Brasil com tanta liberdade, democracia e melhoria real das condições de vida do povo brasileiro. Isso não interessava às elites e foi um ódio fomentado, construído dia a dia, comandado principalmente pelas grandes redes de televisão e a Rede Globo.

BNews – Especialistas afirmam que o PT faliu o Brasil. Você concorda?
Marcelino Galo -
O Brasil teve o maior crescimento e desenvolvimento da sua história. Então, o que é falir o Brasil? O nosso país tinha, no período Lula, os índices de desemprego quase a pleno emprego, coisa difícil na economia de países dependentes e, principalmente, na história do Brasil. O país cresceu e chegou a ter 7% de média, então nunca se cresceu tanto e nunca se criou tanto emprego. Sendo assim, digo que o Brasil está quebrado agora, está falido, com os índices cruéis de desemprego, a economia estagnada e o pior é que nós não temos nenhuma perspectiva de sair desse cenário. 

Atribuo essa falência ao modelo implantado, um projeto ultraliberal expresso em um governo que tem muita consistência, pois é comandado pelas maiores forças que mandam na economia mundial. Aqui, é uma associação entre o grande capital financeiro e o capital do agronegócio para reestruturar a economia brasileira, mas com o fim da Previdência, das leis trabalhistas e com o rebaixamento do custo de mão de obra. É a resolução clássica da crise do capitalismo: a superexploração dos recursos naturais para ter lucro a qualquer preço, o rebaixamento do custo da mão de obra e, agora, o fim da Previdência. Quando você vê os desastres como Brumadinho e Mariana, isso é resultado da privatização da exploração, de forma brutal, dos nossos recursos naturais. É esse conjunto que unifica os setores dominantes que governam o país hoje.

BNews – Qual a sua opinião sobre a reforma da Previdência?
Marcelino Galo -
É uma lástima! Não é nem reforma, agora é acabar com a Previdência. É o modelo chileno de Pinochet. O Paulo Guedes é um sub-intelectual, não compreendeu a história do mundo. Nós precisamos garantir a vida das pessoas e Previdência Social é o maior instrumento de proteção social que existe no Brasil porque ela chega para a grande maioria dos brasileiros e constrói a renda pessoal e de municípios. Nós temos vários municípios em nosso país onde a maior renda vem das aposentadorias e dos programas sociais. Então, acabar com a Previdência é um crime, uma usura, uma ganância do grande capital que quer esse bolo de recursos que foi acumulado pelo povo brasileiro.

BNews – Como você vê o afrouxamento das políticas ambientais no Governo Bolsonaro?
Marcelino Galo -
Isso ele [Bolsonaro] já dizia que ia fazer e já vem desde o Governo Temer. A expressão disso é perdoar Bolsonaro por pesca ilegal e que renderia uma multa de R$ 10 mil. Isso é vergonhoso! Como é que um governo que se preze vai perdoar uma dívida de uma pesca feita de forma ilegal? Além disso, nós temos um ministro que servia às grandes mineradoras e que reduziu, de forma ilegal, até uma área de reserva ambiental. Então, isso faz parte dessa intensificação da exploração dos nossos recursos naturais, barateando custos e desmontando toda a legislação ambiental. Assim foi feito com o pré-sal, e o grande objetivo deles agora são as terras indígenas para a ampliação do agronegócio e a mineração. Para isso, é necessário que acabe ou desmonte a legislação ambiental, desmonte a Funai, como eles fizeram, permitindo esse avanço nos territórios dos povos tradicionais, não só dos indígenas.

BNews – Quais as perspectivas para o futuro do Bolsa Família?
Marcelino Galo -
Eles [o governo] estão praticamente extinguindo, de forma administrativa, o Bolsa Família. Eles não anunciaram que vão acabar o programa, mas vão tornando-o cada vez mais restrito e cortando, cortando... sendo que deveriam fazer o contrário: garantir uma renda mínima a todos brasileiros, principalmente em um momento extremamente complicado de desemprego. Então, é preciso que a gente dê suporte a essa população, como também a aqueles que têm uma renda insuficiente para a sua vida, garantindo o que é necessário para sobreviverem.

BNews – Como deve ser o trabalho na AL-BA em 2019?
Marcelino Galo -
A AL-BA reempossou a sua nova Direção. No período legislativo passado, nós trabalhamos bastante, aprovamos projetos significativos e acredito que agora temos que trabalhar também para incorporar os projetos dos deputados. Eu sinto falta disso. Por exemplo, eu tenho um projeto tramitando há quase dois anos que trata sobre a segurança das barragens e nós não conseguimos discutir. Infelizmente, agora aparece esse crime ambiental brutal da Vale. Temos um projeto que garante os direitos e conceituamos o que são “atingidos por barragens” e, veja você, esse conceito hoje passa a ser mais amplo. Por exemplo: Um morador da beirada do Rio São Francisco que vai perder a sua sobrevivência, vai deixar de pescar e vai beber água contaminada é um atingido, de forma que passa a ser muito mais amplo o que é ser atingido por barragem. Então, são projetos importantes para a sociedade e os deputados têm que apresentar isso. Espero que, nessa gestão, possamos discutir projetos de interesse/relevantes para a sociedade e que sejam de autoria dos deputados.

Também temos que dar suporte ao governador Rui Costa, que já tem a ampla maioria da bancada, ajudando-o a governar. Esse é um papel fundamental do parlamento, que é o garantidor da democracia. E, para ajudar a governar, nós temos que formular tanto projetos de lei como várias iniciativas parlamentares.

BNews - Como está o PT na AL-BA?
Marcelino Galo -
O PT está bem, tem uma bancada muito qualificada e me sinto muito bem em compor essa bancada. São deputados extremamente preparados, articulados com a sociedade e que vieram de diversos movimentos sociais, de universidades. Além disso, discutem muito, refletem as condições de governo do estado e têm compromisso com a sociedade. Somos dez deputados, é a maior bancada eleita e eu sou o líder da bancada.

BNews – Como estão as articulações para o PT no Governo Rui Costa?
Marcelino Galo -
O debate é dentro do próprio PT, mas a prerrogativa de escolher é do governador. Então, nós temos que chegar a bom termo nessa discussão. Temos excesso de nomes para apresentar e o governador tem a prerrogativa de escolher um perfil mais adequado. Naturalmente isso vai se resolver. Temos nomes importantes, muito bem preparados e que irão servir muito bem à Bahia e à sociedade baiana. Temos a Secretaria de Desenvolvimento Rural (SDR), que é uma das mais importantes de governo, pois organiza a estrutura fundiária, a produção do campo e dá suporte para a produção de alimentos; e a Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social (SJDHDS), que também é muito importante porque abarca um conjunto de programas protetivos, como os de desenvolvimento social. Nós estamos trabalhando para manter sete secretarias, escolhidas pelo PT e com petistas da melhor qualidade. Essa é uma discussão conjunta e tem sido muito tranquila.

BNews - O que fazer para o PT retomar a sua força?
Marcelino Galo -
O PT é muito forte, se não fosse tão forte como é, não teria resistido. Foi bombardeado. Fui presidente do PT em 2006 e, naquela época, já aparecia uma crise e nós nos recompomos. Elegemos pela primeira vez um governador do PT aqui na Bahia, que foi Jaques Wagner. É um partido que está entranhado em todo o rincão do Brasil. Hoje, tem mais PT nos municípios do que o próprio Banco do Brasil. Quando você chega no campo, tem gente refletindo sobre a realidade política e se organizando.

O PT, nas últimas eleições, recebeu 447 milhões de votos, elegeu a maior quantidade de vereadores, de governadores e é a maior da AL-BA e da Câmara Federal, além de contar com um número significativo de senadores. Esse partido, não só do ponto de vista parlamentar, tem uma base social e está arraigado na sociedade, vinculado aos movimentos da vida do povo. O PT é o partido mais forte desse país, partido de esquerda mais importante da América Latina e um dos mais importantes do mundo, não só pela sua força, mas por sua originalidade desde a sua criação. Ele vem de forças sociais progressistas, da igreja, da Teoria da Libertação que agora está sendo perseguida, espionada pelo governo, vem das forças populares, daquele movimento moderno sindical que se reestrutura comandado por Lula e da esquerda revolucionária. Então, é uma forma única e inusitada como foi criado o Partido dos Trabalhadores.

BNews – O PT não precisaria se reorganizar para ‘lutar contra as forças neoliberais’?
Marcelino Galo -
A política é dinâmica como a vida. É preciso ir se readequando, se reorganizando, mas, na essência, o PT é um grande partido. Então, esse ataque neoliberal depende também do fluxo da luta de classe, da compreensão do povo brasileiro, e ali está o partido. O partido pensa os problemas do coletivo e conduz de forma coletiva. Esse processo é dado pela História, não é a minha vontade, nem a vontade de gente partidária. Nós podemos chegar depois de amanhã e ter outra realidade neste país. Esperamos que o atual cenário não perdure muito porque eu nunca vi uma situação de tanto descalabro, de perseguição e repressão política. É um governo extremamente conservador e esconde, no seu lado conservador, essa essência que é o ultraliberalismo. A proposta econômica de reestruturação deles avança com consistência e fica esse discurso da moral escondendo. É a cor da blusa, é a goiabeira, mas os interesses dos grandes capitalistas e dos que exploram o povo brasileiro vão se constituindo nesse projeto ultraliberal. Aí, nós temos que nos reorganizar para retomar o caminho da democracia para esse país.

BNews - Aceitar as críticas sobre a corrupção seria uma boa estratégia?
Marcelino Galo -
A corrupção é um fenômeno mundial, não é das instituições, é feita por pessoas. Temos que combater isso no dia a dia. Não existe uma bala mágica que irá acabar com a corrupção. Esse falso discurso quem faz é o juiz que condenou Lula [Sergio Moro] e que agora virou ministro do próprio governo que ele ajudou a eleger, já que eliminou o principal competidor e acabou com a condição do partido eleger o presidente. E ele agora vira ministro. O que é isso?

O PT tem que repensar, mas ele foi vitimado de forma seletiva no combate à corrupção, que tem que ser feito em todos os lugares. É preciso criminalizar as pessoas e deixar que as instituições sobrevivam. O que fizeram esse país foi acabar com a sua economia, matando empresas, destruindo empregos em nome de uma corrupção e essa corrupção só feita de forma seletiva, para um lado só. Combater a corrupção significa combater ela no seu todo e combater o corrupto.
 

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