Saúde

Engasgar frequentemente pode ser sintoma de doenças graves; saiba como socorrer uma pessoa engasgada

[Engasgar frequentemente pode ser sintoma de doenças graves; saiba como socorrer uma pessoa engasgada]
07 de Outubro de 2019 às 05:00 Por: Márcia Guimarães 0comentários

Uma criança de sete meses morreu engasgada na última terça-feira (10), na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do bairro Jardim Santo Inácio, em Salvador. Infelizmente, casos similares têm acontecido pelo Brasil durante todo o ano e atingido as mais diversas idades. O engasgo ocorre por causa do bloqueio da glote (a porta de entrada para a traqueia) quando algum objeto ou até mesmo alimentos dificultam ou impedem a respiração adequada. Isto quer dizer que os mecanismos de proteção da via aérea do indivíduo por algum motivo falharam.

É preciso uma ação rápida para salvar a pessoa engasgada. É possível, inclusive, o próprio indivíduo se socorrer, basta aplicar a manobra correta. Para falar sobre o assunto, o BNews convidou a otorrinolaringologista Melina Marambaia. Confira a entrevista:

BNews - O engasgo está associado a alguma doença?
Melina Marambaia -
Não necessariamente. Ele pode acontecer em pessoas sem doenças de forma esporádica. Neste caso, geralmente é rápido e sem repercussões graves. No entanto, quando frequente e com repercussões mais graves, pode ser indício de algumas doenças, entre elas doenças neurológicas, gástricas ou mesmo alguns tipos de tumores.

BNews - Como está a incidência de engasgos em idosos e crianças? 
Melina Marambaia -
Com o aumento da expectativa de vida do brasileiro, há o aumento do número de idosos na sociedade. Desta forma, a incidência de doenças neurodegenerativas vem aumentando, assim como pessoas que sobrevivem a acidentes vasculares cerebrais, que podem ter este sintoma como uma sequela da doença de base, portanto, a prevenção e a reabilitação adequadas nesses casos são essencias. 

Em relação aos engasgos em crianças, de maneira geral, o principal motivo é aspiração de corpos estranhos, comumente aqueles objetos que a criança já consegue manusear e tem o hábito de colocar na boca ou mesmo pelo nariz. Como a via aérea dos pequenos tem tamanho reduzido, isso pode se tornar rapidamente uma emergência médica, podendo levar a asfixia e morte em pouco tempo.

BNews - Como socorrer uma pessoa engasgada?
Melina Marambaia -
Aquelas pessoas que têm engasgos repetitivos e habituais devem procurar um médico para avaliação e investigação. No caso de socorro imediato para a pessoa que está engasgando, é importante frisar para não estimular a pessoa engasgada a empurrar o objeto que está causando o engasgo ainda mais, o contrário é o ideal: estimular a tosse e o vômito para que o ar dos pulmões possa ajudar a expelir o objeto ou alimento que está causando o engasgo. Uma manobra que pode tentar ser realizada em adultos chama-se manobra de Heimlich. A pessoa que vai socorrer e a que está engasgando devem ficar de pé, uma atrás da outra, de modo que quem está ajudando possa abraçar a pessoa que está engasgando e pressionar suas mãos entre o umbigo e a costela do engasgado, apertando e comprimindo de modo rítmico e forte a parte superior do abdômen, na altura dos pulmões, para que o ar seja liberado e estimule que o objeto que está causando o engasgo seja expelido. 

No caso de crianças pequenas, não se deve tentar retirar o objeto com as mãos ou com qualquer tipo de instrumento para evitar que este seja empurrado ainda mais e piore a situação. O ideal é levar imediatamente a uma emergência para ser avaliado por um médico. Em bebês pequenos pode ser tentada a manobra de tapotagem, com a criança deitada no antebraço com a cabeça mais baixa do que o corpo e a realização de palmadas em suas costas em direção ao chão para que ocorra a mobilização do objeto, mas o ideal é que os responsáveis da criança já se informem previamente com o médico pediatra para se instruir sobre como proceder na eventualidade do engasgo, antes que o mesmo ocorra, para se sentirem seguros em como proceder nessa situação.

BNews - Como a própria pessoa pode se ajudar quando ocorrer o engasgo?
Melina Marambaia -
O ideal é tentar estimular a tosse e induzir o vômito para expelir o que está causando o engasgo. Sempre evitar retirar sem ver, pois a chance de empurrar mais é grande.

BNews - Em quantos minutos deve ser socorrida uma pessoa engasgada?
Melina Marambaia -
O ideal é que em casos graves o socorro seja o mais rápido possível para evitar a asfixia.

BNews - O engasgo pode afetar órgãos?
Melina Marambaia -
A grande questão do engasgo é poder causar asfixia, isto é, a parada da respiração levando a morte, mas também há o perigo da aspiração do conteúdo do engasgo para os pulmões, podendo levar a pneumonias graves, que necessitam de tratamento com antibióticos e internação hospitalar.

BNews - O que fazer para prevenir engasgos? Há fisioterapia ou trabalho com fonoaudiólogo?
Melina Marambaia -
Nos casos das crianças, é importante que os responsáveis não deixem na altura delas objetos pequenos e se mantenham sempre vigilantes com o que o menor está manipulando. Na hora da alimentação, deixar os alimentos sempre cortados em pedaços pequenos, pois a criança está ainda aprendendo a mastigar e deglutir; não fazer refeições rápidas, é preciso que a criança tenha tempo para mastigar adequadamente até que possa engolir; e sempre ter um responsável que vigie as refeições. 

Nos casos de adultos e até mesmo crianças e jovens com engasgos frequentes, é necessário primeiramente investigar quais as possíveis causas dos engasgos, se há doença que os justifiquem. Para isso, o médico pode precisar lançar mão de alguns exames complementares para avaliar as fases da deglutição. Com esses dados em mãos, pode ser necessário o trabalho com fonoaudiólogo para reabilitação da deglutição e estratégias para que o indivíduo consiga se alimentar melhor, sem engasgos. Algumas vezes podem ser necessárias vias alternativas de alimentação como a sonda nasoenteral ou a gastrostomia para que a pessoa não corra o risco de aspirar para o pulmão a sua alimentação.

BNews - Há tratamento no SUS para essa área?
Melina Marambaia - Sim, existe. Há centros especializados em problemas da deglutição, porém, com o aumento crescente da demanda, infelizmente não é rápido o acesso da população a alguns exames complementares que podem ser necessários e à reabilitação com equipe multidisciplinar.

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