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Arquiteto Sidney Quintela comemora 20 anos de escritório e fala sobre carreira no Brasil e exterior 

[Arquiteto Sidney Quintela comemora 20 anos de escritório e fala sobre carreira no Brasil e exterior ]
16 de Setembro de 2019 às 15:08 Por: Rafael Albuquerque 0comentários

O escritório SQ+ Arquitetos e Associados, do renomado arquiteto baiano Sidney Quintela, celebra 20 anos de fundação em Salvador. Com escritórios também em Maputo (Moçambique) e Lisboa (Portugal), onde mora parte do ano e se divide com o Brasil, Sidney acaba tendo contato com diversas culturas. Porém, garantiu em entrevista ao BNews que procura levar um pouco de brasilidade a cada projeto seu. No bate-papo, o arquiteto de 45 anos também falou sobre sua relação com Salvador, cidade onde foi responsável pela requalificação urbana do bairro do Rio Vermelho, por exemplo, e de sua consolidação em Portugal. Confira a entrevista na íntegra abaixo:

BNews: o que significa pra você completar essas duas décadas de escritórios?
Sidney Quintela:
Completar 20 anos prestando serviço com a mesma empresa, com o mesmo CNPJ, é um desafio grande no Brasil, ainda mais uma empresa de serviço. Tem uma importância bacana, dá uma satisfação bem grande pra gente, e sobretudo pelo que fizemos. São trabalhos na Bahia, no Brasil e fora do Brasil. As coisas estão funcionando bem, os clientes estão satisfeitos, e isso nos traz alegria. Esses vinte anos passaram em uma velocidade muito grande. É um tipo de trabalho que te absorve muito, as coisas vão acontecendo e você não se dá conta do tempo. De repente, você faz uma comemoração dessa e pensa: ‘poxa, já tem vinte anos’. Não tenho a sensação dos vinte anos percorridos.

BNews: Então, tem fôlego pra mais quantos anos?
Sidney Quintela:
pelo menos mais vinte anos (risos).


Edf. Adelaide, Salvador 

BNews: fala um pouco sobre a abertura do escritório em Portugal.
Sidney Quintela:
nós montamos o escritório em Portugal há 14 anos, ou seja, com seis anos do escritório aqui abrimos um em Portugal pra atender os portugueses e espanhóis que estavam investindo aqui no Brasil, aqui na Bahia, fazendo empreendimentos imobiliários, e fomos ficando lá. Começamos a desenvolver projetos pra lá e começamos atender alguns países da África, nomeadamente Angola e Moçambique. Montamos um escritório em Moçambique há 12 anos. Hoje temos esses três escritórios: Salvador, que é nossa sede, em Lisboa e em Maputo, capital de Moçambique. Cada lugar desses tem sua particularidade, sua cultura, seu modo de viver. As sociedades se comportam de formas diferentes, ou por religião, ou por intempéries naturais, ou por questões culturais. Tem uma diversidade grande de formas de viver que interfere diretamente em nosso trabalho. Na arquitetura você tem que fazer as pessoas se sentirem bem sempre, cada um com suas escolhas, com sua personalidade, com o gosto pessoal das pessoas ou do coletivo. É bem desafiador.


Casa Praia da Torre, em Portugal

BNews: Mesmo com a particularidade de cada lugar desses, você tenta, de alguma forma, transmitir ou levar um pouco do Brasil e de sua história aqui pra esses outros lugares?
Sidney Quintela:
Com certeza. O arquiteto tem uma linguagem. Mesmo que essa linguagem seja adaptada às pessoas, ao ambiente, ao lugar, tem algumas premissas que acompanham a obra. A cidade do Salvador e o povo soteropolitano forjaram minha forma de ser e minha forma de estar. Salvador é uma cidade muito miscigenada em todos os aspectos, é uma cidade que, no meu ponto de vista, convive muito bem com as diferenças. Ao meu ver, Salvador tem uma enorme diversidade cultural, religiosa e étnica, e que, dentro do razoável, se respeita. É claro que sempre tem um problema aqui ou ali, uns mais ou menos intolerantes, mas, de forma geral, a nossa cidade tem essa mistura bacana. Isso faz a gente ter uma certa liberdade de pensamento e de conviver com essas diferenças. Além disso, é uma cidade solar, com uma luz fantástica. Uma cidade onde a arquitetura tende a ser aberta para o exterior, com pequenos detalhes, grandes janelas e portas. Uma integração grande com a cidade, com a área envolvente. Isso é um diferencial que eu levo a todos os lugares. Na Europa, as casas e prédios são muito mais fechados, as janelas menores, por causa da amplitude térmica. São dias muito quentes no verão e muito frios no inverno. E eu não consigo ser assim. A gente sempre propõe grandes vãos, grandes aberturas com vidros especiais, claro, pra ir de encontro ao conforto térmico e acústico. E isso tem feito uma arquitetura diferenciada lá, criando uma identidade de brasilidade.


Requalificação urbana do Rio Vermelho, em Salvador

BNews: Você falou de uma maneira muito poética e apaixonada de Salvador. Aproveitando essa deixa, comenta um pouco sobre seus trabalhos aqui na capital baiana.
Sidney Quintela:
Eu tenho alguns trabalhos aqui em Salvador. Cito aqui a requalificação urbana do bairro do Rio Vermelho - a Praça Caramuru, o Largo da Mariquita e o Largo de Santana. É um projeto de muitas mãos, com a participação efetiva da Fundação Mario Leal Ferreira e de toda a equipe de engenharia que deu suporte a esta realização. Em projetos de grande envergadura, apesar de ter minha assinatura, existe uma equipe muito grande por trás. Também tive a oportunidade de projetar o edifício Dois de Julho, no CAB, onde funciona um setor da Polícia Militar, a requalificação dos fortes de Santa Maria e São Diogo, que abrigam os museus Pierre Verger e Carybé. Enfim, cada projeto é um desafio diferente. Quanto mais eu puder realizar projetos de qualidade, que agreguem valor à nossa cidade, ao público da cidade do Salvador, eu farei. É como um time de futebol quando joga em casa, fica sempre mais confortável, é mais gratificante.

BNews: Para finalizar, queria que você fizesse um paralelo, em termos de valorização, entre a arquitetura no Brasil e nos outros países onde você atuou.
Sidney Quintela:
O Brasil é um país ainda muito jovem. Comparado à Europa - à Portugal e Espanha, por exemplo, é muito jovem. Não estou com isso dizendo que a Europa é melhor do que aqui. Embora a diferença entre Europa e Brasil esteja mais equilibrada hoje, a valorização do profissional de arquitetura e da arquitetura propriamente dita é maior na Europa. Lá, o cliente questiona, discute, mas respeita muito o que é proposto pelos arquitetos. Isso é bom e ruim. É bom porque, para nós, arquitetos, temos a sensação de reconhecimento do trabalho, da técnica e do conhecimento, mas é ruim porque aumenta nossa responsabilidade de acertar. O cliente entrega ali o sonho e pede para você construir. E bota na sua mão para você acertar. Quando o cliente discute muito, e impõe determinadas questões, ele se torna corresponsável, dividindo a responsabilidade com o arquiteto. Em Portugal, ninguém questiona, por exemplo, um engenheiro. Aqui (no Brasil) se questiona. Essa é a diferença cultural que falamos no início. As pessoas são diferentes, vivem de forma diferente, foram educadas de forma diferente. Nós, que trabalhamos em lugares distintos, temos que entender como as sociedades se comportam. Isso faz a diferença. E faz da arquitetura uma coisa bacana de interpretar as pessoas. A magia da arquitetura e do urbanismo está aí, por trás do desenho.

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