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A tristeza com os "representantes" católicos

Imagem A tristeza com os "representantes" católicos

Publicado em 19/03/2021, às 09h38        Fagner Moreira

Recebo com tristeza a declaração que evidencia que “representantes” da igreja que faço parte me enxerga como "pessoa que vive em pecado” mesmo eu seguindo os ritos da fé católica pelo simples fato de ter casado com uma pessoa do mesmo sexo.

Sempre respeitei e respeito os dogmas da igreja católica, respeito o fato de determinadas regras em relação a conceder o sacramento do matrimônio (benção religiosa a casais) ou não, a igreja não tem obrigação de realizar  determinado rito por uma regra interna da doutrina, por existir vários tabus em relação ao casamento homoafetivo e sobre tudo por um tradicional discurso vindo antes de Cristo. 

Mas admito que recebo com tristeza a declaração que evidencia que “representantes” da igreja que faço parte me ver como "pessoa que vive em pecado” mesmo eu seguindo os ritos da fé católica  pelos simples fato de ter casado com uma pessoa do mesmo sexo. Cresci no seio católico, recebi o sacramento do batismo, da eucaristia e do crisma, fui eleito ministro da palavra e salmista da igreja, sou devoto de Nossa Senhora e sempre aprendi que família é sagrada, o próprio Papa Francisco falou disso em um documentário ano passado: *“ Pessoas homossexuais têm o direito de estar em uma família e serem protegidas por Leis específicas, elas são filhas de Deus e têm direito a uma família.
Ninguém deveria ser descartado [dela] ou ser transformado em miserável por conta disso", disse o papa . 

Como podemos dizer que a união de duas pessaos do mesmo sexo pode contruir uma familia e ao mesmo tempo dizer que “Deus não pode abençoar o pecado” quando se fala de abençoar esta “familia”. Como assim? 

Onde estar o pecado na construção de uma familia, desde que esta construção seja de forma digna, sincera e fiel? 

Não acredito que os olhos de Deus são os dos determinados representes da igreja que dizem que um casamento homoafetivo é um pecado, (não estou generalizando) porque o fato do documento ser do Vaticano não quer dizer que é o pensamento de toda igreja e nem do próprio papa Francisco (pessoa que admiro e vejo como revolucionário) que por sua vez em vários momentos tem demonstrado um pensamento progressista  e teve suas declarações abafadas também pelo Vaticano, quem criou os dogmas da igreja foram pessoas,  não Deus.  

É uma precipitação  pegarmos os nossos olhos e dizer que são  de Deus. Não estaríamos esquecendo do ensinameto  bíblico, “Amar o próximo como a ti mesmo?" Mateus 22:37-39. 

Fico a pensar como Jesus agiria se estivesse aqui em forma humana, será que ele negaria uma benção a um irmão? A um filho de Deus? Ainda que ele fosse Homossexual?

Vejo o pecado como um ato ruim, pecado é quem recebe o matrimônio  com uma mulher e trai ela, é quem rouba e mente, é quem usa o nome de Deus de forma falsa, pecado é fazer mal a si, ao outro e/ou a Deus. 

Casar com uma pessoa do mesmo sexo e viver o matrimônio de forma divina é pecado? Respeitar o marido ou companheiro e fazer o bem, cuidar das pessoas, ser generoso, torna a pessoa em pecado só porque se casou com uma pessoa do mesmo sexo?  

Sou católico e em 2019 recebi o SACRAMENTO DO MATRIMÔNIO (assim o considero) celebrado por um pastor evangélico que falou palavras divinas e pediu as bençãos de Deus sobre o meu casamento em uma cerimônia linda,  queria que a cerimônia fosse celebrada por um padre, ou um dirigente da minha igreja, mas respeito os dogmas  mesmo não concordando, acho que é assim que devemos ver tudo isso, concordar ou não concordar mas não dizer que Deus não pode abençoar duas pessoas que se amam. 

Por outro lado fico feliz em ver que padres e outros ministros da Igreja Católica  enviaram questionamentos, perguntas e solicitações a Congregação para a Doutrina da Fé (CDF)  expressando o desejo de conceder tais bênçãos como um sinal de boas-vindas aos Homossexuais católicos, já que a Igreja atualmente não permite o casamento homoafetivo.

Me vejo esperançoso ao ver que a CDF recebeu essas correspondências considerando que foram motivados por um desejo sincero de acolher e acompanhar os homossexuais e ajudá-los a crescer na fé.  

Espero no fundo do meu coração que antes de finalizar a minha vida humana eu possa  renovar meus votos matrimoniais em uma cerimônia católica.  

Fagner Moreira Lima é Secretário Parlamentar e Administrador. Ministro da palavra na igreja católica, que se casou em 2019 em uma cerimônia realizada por um pastor evangélico. Sendo o primeiro casamento homoafetivo realizado por uma pastor evangélico no Estado da Bahia.

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