Economia

Taxa de desemprego fica abaixo de 10% no Brasil, menor nível desde 2015

Marcelo Camargo/Agência Brasil

No trimestre até maio, o indicador recuou para 9,8%

Publicado em 30/06/2022, às 22h35    Marcelo Camargo/Agência Brasil    Leonardo Vieceli/Folhapress

A taxa de desemprego voltou a ficar abaixo de 10% no Brasil, indicou nesta quinta-feira (30) o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). No trimestre até maio, o indicador recuou para 9,8%. É o menor nível para o intervalo desde 2015. À época, a economia nacional amargava recessão, e a taxa estava em 8,3%.

Na série comparável do IBGE, o indicador não ficava abaixo de 10% desde o fim de 2015. A taxa estava em 9,1% no trimestre até novembro daquele ano. O novo resultado veio abaixo das estimativas do mercado financeiro. Analistas consultados pela agência Bloomberg projetavam 10,2% na mediana. O indicador estava em 11,2% nos três meses anteriores (dezembro a fevereiro).

O número de desempregados, por sua vez, recuou para 10,6 milhões até maio. O contingente estava em cerca de 12 milhões nos três meses anteriores. Ou seja, 1,4 milhão de pessoas saíram do grupo.

Conforme o IBGE, o número de desocupados chegou a bater em 15,2 milhões no trimestre até maio de 2021, sob efeito da crise gerada pela pandemia.

Pelas estatísticas oficiais, a população desempregada reúne quem está sem trabalho e segue à procura de novas vagas. Quem não tem emprego e não está buscando oportunidades não entra nesse cálculo.

POPULAÇÃO OCUPADA BATE RECORDE

No trimestre até maio, o número de pessoas ocupadas com algum tipo de trabalho chegou a 97,5 milhões. É o maior patamar da série histórica, iniciada em 2012. Houve acréscimo de 2,3 milhões de pessoas frente a fevereiro (95,2 milhões), o que ajuda a explicar a redução do desemprego.

De acordo com Adriana Beringuy, coordenadora de pesquisas por amostra de domicílios do IBGE, o avanço da ocupação pode ser associado ao processo de reabertura de atividades econômicas após a chegada da pandemia.

A pesquisadora citou como exemplo a "recuperação mais tardia" dos serviços presenciais, atingidos em cheio pela crise sanitária.

Sinal disso é o crescimento da população ocupada no setor de administração pública, defesa, seguridade social, educação, saúde humana e serviços sociais, destaque no trimestre mais recente.

Houve aumento de 466 mil ocupados nesse segmento. O movimento foi impulsionado por educação, com o retorno das aulas presenciais, indicou o IBGE.

"Foi um crescimento expressivo e não isolado da população ocupada. Trata-se de um processo de recuperação das perdas que ocorreram em 2020, com gradativa recuperação ao longo de 2021", disse Beringuy.

"No início de 2022, houve uma certa estabilidade da população ocupada, que retoma agora sua expansão em diversas atividades econômicas", completou.

O economista Bruno Imaizumi, da LCA Consultores, concorda com essa avaliação, mas também cita outras questões por trás da trégua do desemprego.

Uma delas é a adoção de medidas "artificiais" de curto prazo, por parte do governo Jair Bolsonaro (PL), para tentar conter a inflação e estimular a atividade econômica e o mercado de trabalho às vésperas das eleições.

Nesse sentido, Imaizumi lembra que o Palácio do Planalto ainda busca avançar na redução de impostos sobre os combustíveis, o que até pode incentivar a economia e o emprego neste ano, mas tende a resultar em uma "bomba fiscal" a partir de 2023.

O analista acrescenta que o Brasil ainda registra um grande contingente de pessoas que não estão procurando trabalho e, consequentemente, não entram nos cálculos de desemprego.

No trimestre até maio, o país tinha 64,8 milhões fora da força de trabalho. A marca representa cerca de 2,8 milhões a mais do que no intervalo até fevereiro de 2020 (62 milhões), antes da pandemia.

Dentro desse grupo, havia 4,3 milhões de desalentados até maio. A definição é usada pelo IBGE para descrever a parcela que desistiu de buscar emprego por pensar que não encontraria oportunidades. No trimestre anterior, o número de desalentados era maior (4,7 milhões).

"Muitas pessoas ainda não retornaram ao mercado de trabalho", diz Imaizumi.

RENDA CAI 7,2% EM UM ANO

Mesmo com a redução do desemprego, a renda média dos brasileiros ainda dá sinais de fragilidade.
Até maio, o rendimento habitual do trabalho foi estimado em R$ 2.613. Isso indica relativa estabilidade frente aos três meses anteriores (R$ 2.596), segundo o IBGE.

Já em relação a igual trimestre de 2021 (R$ 2.817), a renda teve queda de 7,2%. O valor de R$ 2.613, verificado até maio de 2022, é o menor para esse período na série histórica, iniciada em 2012.

Conforme Adriana Beringuy, do IBGE, a escalada da inflação dificulta a recuperação. A abertura de vagas de trabalho com salários mais baixos também pode explicar o quadro, sinalizou a pesquisadora.
"As ocupações, mesmo aquelas formais, não vêm tendo, necessariamente, expansão do rendimento."

Para Sergio Vale, economista-chefe da consultoria MB Associados, a renda frágil representa o "lado negativo do mercado de trabalho".

"Voltar a uma taxa de desemprego abaixo de dois dígitos é um resultado muito bom, um sinal de retomada. Mas, com a renda impactada pela inflação, ainda não dá para dizer que temos um mercado de trabalho totalmente recuperado", aponta Vale.

O economista Thiago de Moraes Moreira, professor do Ibmec-RJ e da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), vai na mesma linha.

"Estamos observando uma melhora contínua nos dados de desemprego, mas o retorno de muitas pessoas ao mercado aconteceu em situações menos favoráveis", analisa.

"O nível elevado de desemprego na pandemia foi importante para rebaixar os salários", completa.

ALTA DE FORMAIS E INFORMAIS

Os dados do IBGE integram a Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua). São avaliados desde empregos com carteira assinada até os populares bicos. De acordo com a pesquisa, as duas modalidades vêm mostrando sinais de retomada.

O número de empregados com carteira no setor privado subiu para 35,6 milhões, um acréscimo de 981 mil frente ao trimestre anterior.

O contingente nessa situação é o maior desde o período encerrado em fevereiro de 2016 (35,9 milhões), quando o Brasil ainda estava em recessão.

Já o número de empregados sem carteira no setor privado chegou a 12,8 milhões no trimestre até maio. É o maior da série. O grupo teve aumento de 523 mil pessoas.

"Há um processo de expansão bastante intenso, puxado tanto pelo setor formal quanto pelo informal", afirmou Beringuy.

Do total de 97,5 milhões de ocupados no trimestre até maio, 39,1 milhões eram informais, incluindo categorias como os trabalhadores por conta própria sem CNPJ e os empregadores sem CNPJ, além dos empregados sem carteira.

Com isso, a taxa de informalidade foi estimada em 40,1%. O indicador estava em 40,2% no trimestre anterior. "Operamos com uma taxa de informalidade bastante elevada", avaliou Beringuy.

A maior marca da série histórica foi de 41%. Esse patamar foi verificado no pré-pandemia, de junho a agosto de 2019.

Com o avanço da população ocupada, a massa de rendimento habitual, considerada a soma dos salários, subiu 3,2% no trimestre até maio, para R$ 249,8 bilhões.

JUROS ALTOS E INFLAÇÃO PERSISTENTE SÃO RISCOS

Na visão de economistas, a inflação persistente, os juros elevados e as incertezas eleitorais tendem a afetar a atividade econômica no segundo semestre. Assim, devem frear a recuperação do mercado de trabalho ao longo dos próximos meses.

Conforme Vale, da MB Associados, a taxa de desemprego pode descer a 9,1% até agosto e, em seguida, ganhar força. A previsão é de resultado de 9,9% no trimestre até dezembro. A LCA Consultores, por sua vez, pretende revisar sua estimativa para o indicador, que deve ficar abaixo de 9,5%, diz Imaizumi.

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