Bahia

"Dor que a água não levou": Um mês após rompimento de barragem, famílias ainda aguardam retorno para casa

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11 de Agosto de 2019 às 12:53 Por: Diego Vieira/BNews Por: Diego Vieira* 0comentários

Os livros e carteiras abriram espaço para sofás, camas, geladeiras e fogões nas salas de aula da Escola Municipal Maria Dalva, localizada na cidade de Coronel João Sá, na região nordeste da Bahia. A unidade escolar é um dos três locais que se transformaram na “casa provisória” de diversas pessoas atingidas pelo rompimento da barragem do Quati, no dia 11 de julho. Um mês após o desastre que inundou os municípios de Pedro Alexandre e Coronel João Sá, o BNews retornou à região para mostrar os reflexos do incidente que deixou cerca de 160 famílias desalojadas ou desabrigadas nas duas localidades.

“Tudo o que eu mais quero é ter uma casa de volta, enquanto isso sigo aqui na escola junto com a minha filha e minha mãe pedindo a Deus que isso aconteça o mais breve possível. Aqui estamos recebendo toda a assistência necessária, mas nada melhor do que estarmos no nosso próprio lar”, afirma Ana Paula Nascimento, que arrumou a sala de aula como se fosse a sua casa. “Enquanto a nossa casa não chega, temos que nos sentir como se estivéssemos em casa e por isso fiz questão de arrumar tudo como se fosse a minha residência”, acrescenta.

Na mesma situação de Ana Paula, a aposentada Gilvaneide Conceição também vive ao lado de filhos e netos em um dos abrigos de Coronel João Sá desde o rompimento da barragem.

“Não tenho mais nada, só sobrou a roupa do corpo. Agora o que nos resta é ficar aqui na escola até que alguma solução seja dada. Graças a Deus até aqui não nos faltou nada, mas o melhor é estarmos no nosso barraquinho pra gente poder ficar mais à vontade”, diz.

Por outro lado, diversas famílias retornaram para os seus imóveis, muitos deles interditados pela Defesa Civil por algum tipo de risco. É o caso do aposentado Gilson de Jesus que chegou a ficar com o filho em um ginásio de esportes da cidade, no entanto, resolveu voltar para casa por conta própria.

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“Eu saí de lá [do ginásio] porque eu quis mesmo. Disseram que ia alugar as casas, mas até agora não deu certo e aí pra não estar no que é dos outros eu decidi voltar pra minha casa. Agora estou aqui esperando para ver o que vai acontecer”, relata.

Quem também resolveu voltar para a casa mesmo com a estrutura comprometida foi o motorista Manoel da Silva. Ao BNews, ele conta que agora aguarda o benefício do aluguel social para sair do imóvel. “Fiquei mais de uma semana fora de casa, mas resolvi voltar mesmo com o chão afundando. Em uma reunião prometeram auxílio-aluguel, mas até agora nada”.

Além dele, a dona de casa Ana Maria também aguarda pelo benefício. Na casa dela, as rachaduras nas paredes colocam em risco a vida de toda a família. É o que diz Iasmim Santos, filha da dona de casa. 

“Fizemos um cadastro para receber o aluguel, mas até hoje nada foi feito, só recebemos uma geladeira e um fogão até agora, mas não adianta nada recebermos essas doações e continuar em uma casa prestes a cair”, desabafa a estudante que ficou abrigada durante oito dias em um bar ao lado dos pais e dos irmãos. 

Moradora da Rua Bonfim, uma das mais atingidas pela inundação, a lavradora Josefa da Silva diz que até o momento não recebeu um retorno relacionado ao benefício. “Eu consegui salvar pouca coisa, perdi praticamente tudo. Nesse período, recebi cestas básica e um fogão e agora estou aguardando o aluguel social, mas até agora não tive nenhuma resposta. Espero que pelo menos reformem o meu barraco. No meio da rua é que não vou ficar”.

De acordo com o prefeito de Coronel João Sá, Carlos Sobral, o processo de pedido do aluguel social foi iniciado na última semana e deve contemplar todas as 130 famílias desabrigadas do município. “Já fizemos a entrega dos cadastros e esses estão em análise”, explica o gestor que esteve, recentemente em Brasília para garantir o direito. Segundo ele, o benefício cedido pelo Governo Federal é válido por três meses e renovável por mais três. O valor solicitado pela prefeitura foi de R$ 500 mensais para cada família, mas a quantia pode sofrer alterações após a análise. 

Ainda segundo o prefeito, não há um prazo ou previsão de quando esses aluguéis devem ser disponibilizados e que um plano de trabalho para construção das novas moradias será iniciado juntamente com a esfera federal e/ou estadual.

Enquanto isso, o município recebeu ajuda humanitária da União no valor de R$ 265.346. Apesar de o dinheiro já estar disponível, segundo Sobral, a prefeitura aguarda a entrega do cartão da Defesa Civil para a compra de 500 colchões, 500 kits dormitórios com fronhas, travesseiros, lençóis e cobertores, 600 cestas básicas, 125 kits higiene pessoal e 120 kits de limpeza geral para residências. 

Além disso, a cidade recebeu do governo do Estado, na última sexta-feira (9), a quantia de R$ 40 mil que será destinada à compra de mais cestas básicas, garantindo assim o fornecimento de alimentos para os atingidos até o mês de outubro.

O gestor explicou, ainda, que foram doados 102 fogões e 82 geladeiras para as famílias atingidas. Parte dos eletrodomésticos foram comprados com recursos da prefeitura e outra adquirida através de doações de comerciantes e amigos.

“Fizemos um levantamento de porta em porta para saber o que cada família tinha perdido e fizemos um cadastro. Após isso, foram feitas as doações, mas, infelizmente, algumas pessoas agiram de má fé e esconderam os eletrodomésticos com o objetivo de ganharem outros”, lamenta.

De acordo com Derlane Bezerra, integrante da coordenação do Movimento de Atingidos por Barragem (Mab), que está em Coronel João Sá desde o dia 13 de julho a fim de garantir os direitos para as vítimas, a assistência fornecida para as famílias foi ágil, no entanto, a prioridade no momento é a liberação dos aluguéis.

 “A gente reconhece o esforço que a gestão local está fazendo, desde a doação do terreno para construção de novas moradias como também a questão das assistências como um todo, mas a prioridade agora é liberação dos aluguéis sociais para retirar essas pessoas dos abrigos".

"Não é bom viver em abrigo e um deles específico, o do ginásio, oferece riscos para os desabrigados. Então, esses devem ser retirados de lá o mais breve possível”, avalia o coordenador que está viabilizando a criação de uma comissão dos atingidos pelo desastre na cidade.

A reportagem tentou contato com o prefeito da cidade de Pedro Alexandre, Pedro Gomes, mas não obteve êxito.

*Diego Vieira direto de Coronel João Sá

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