Política

Mata de S. João: difícil cuidar da saúde e até mesmo morrer

Imagem Mata de S. João: difícil cuidar da saúde e até mesmo morrer

Quem precisa de saúde na cidade tem sofrido. Já quem morre não tem menos problemas que os vivos

Publicado em 04/06/2013, às 15h49        Lucas Esteves (Twitter: @lucasesteves)


A oposição na Câmara de Mata de São João denunciou ao Bocão News o que classifica como um estado de abandono na sede do município. Em visita à cidade na última semana, a reportagem visitou locais e falou com pessoas para constatar a situação, que envolve grandes dificuldades de locomoção, falta de esgotamento sanitário e outros. Entre eles, dificuldades de cuidar da saúde e até mesmo para encontrar um lugar para fazer o descanso eterno.
Segundo o vereador Elcio Ramayana (PMDB), a prefeitura investiu na construção de diversos novos postos de saúde nos últimos anos, Porém, esqueceu de dotá-los de equipamento de tratamento aos pacientes, como os usados em primeiros socorros, remédios e até mesmo de aparelhos medidores de pressão. O motociclista Jeoval Araújo foi exemplo disto há cerca de 3 semanas.
Após sofrer um acidente com seu veículo na cidade, Jeoval foi socorrido e levado ao local. Porém, além de levar bastante tempo para ser atendido, não pode ser tratado por falta absoluta de materiais de socorro. Ele apelou para um contato que acionou a Secretaria de Saúde e, por conta disto, afirma ter sido assediado e ameaçado por médicos e enfermeiros do local. “Aqui, quem reclama perde a vez”, afirma.
A situação revolta o caseiro Manuel Paulino de Souza, o “Baixinho”. Vizinho do posto no distrito de Amado Bahia, ele alega que votou em 2012 no atual prefeito e em um vereador da situação, mas a manutenção da situação da localidade o fez se desiludir com a política prometida pelo grupo de João Gualberto. “Amado Bahia é o segundo maior colégio eleitoral de Mata de São João, só perde para a sede. Como é que ninguém faz nada pelas pessoas aqui? A gente vota nos políticos na esperança de que eles mudem alguma cosia, mas eles não fazem nada e isso deixa a gente muito chateado”, reclama. A cidade, segundo Elcio Ramayana, tem 42 mil habitantes e 32 mil eleitores.
Há duas semanas, a cidade, que tem cinco ambulâncias entre aquelas da prefeitura e as do Samu, encerrou um longo período com apenas um dos veículos. A razão justificada pela prefeitura foi uma série de problemas mecânicos e até mesmo de pneus carecas, que ainda estão sendo trocados à medida em que chegam a Mata de São João. “Por conta disto, levei muita gente no meu próprio carro para fazer tratamento nos hospitais de Salvador. Se dependesse de ambulância, teríamos muita gente morta na cidade”, alega o vereador peemedebista, que diz que sua bandeira política é a saúde. 
Cemitérios em penúria - Caso um cidadão matense perca a vida, a família terá grandes dificuldades para sepultá-lo. O cemitério do Centro, o maior da cidade, está totalmente lotado e, de acordo com as informações de moradores e funcionários. Atua sem energia elétrica há cerca de oito anos. Além disto, sofre com a falta de segurança. Dominada pelo tráfico de drogas, a região onde está localizado o cemitério não recebe sequer as rondas policiais à noite.
A situação de abandono é tal que há túmulos danificados, muito mato entre os jazigos e, sobretudo, falta de espaço generalizada. Atualmente, já não há mais como fazer um enterro, uma vez que todos os pedaços de chão do local estão ocupados. Caso haja uma morte, o jeito é apelar para as gavetas, conhecidas no jargão funerário como “carneiros”. Na atual situação de lotação, o único coveiro presente é obrigado a apelar para a criatividade.
“Quando fico sabendo que alguém vem se enterrar, consulto a lista de quem está nas gavetas e vejo quem está aqui há mais de 3 anos. Depois de achar um local, abro a gaveta e vejo a situação do corpo. Se estiver apenas a ossada eu recolho, coloco dentro de um saco e entro em contato com a família para que ela venha buscar. Depois, limpo a gaveta e ela pode receber outra pessoa”, explica o trabalhador, que pediu para não ser identificado temendo represálias.
Para piorar, a temporada de chuvas está colocando toda a estrutura das gavetas em risco. Localizada na parte da frente do cemitério, a construção sofre com muitas rachaduras e frequentemente recebe mãos emergenciais de cimento para se conservar em pé. O coveiro, porém, alerta que se não houver um trabalho imediato de reforço definitivo, um novo temporal pode inundar as ruas da vizinhança com corpos e caixões.
Caso a família não venha resgatar a ossada do parente, a única solução é incinerar os restos mortais. Entretanto, no cemitério de Mata de São João esta possibilidade não existe há bastante tempo. Danificado pelas chuvas, o incinerador está inutilizado e o espaço tomado por ossadas. As que saem das gavetas estão atualmente empilhadas até o teto em uma sala ao lado da capela que realiza os velórios antes do sepultamento.
De acordo com o vereador oposicionista, o terreno ao lado do cemitério não tem nenhuma construção e depende apenas de vontade política da prefeitura para ser expandido. “Não tem nenhum mistério. É só desapropriar a área e expandir a estrutura. Até quando as pessoas em Mata vão ter que sofrer com essa dificuldade para enterrar os parentes?”, critica. No outro cemitério da cidade, localizado no bairro do Bonfim, a situação está um pouco melhor. 
Há vagas de gavetas recentemente construídas e um espaço nos fundos do local para construção de novos carneiros, o que deverá gerar pelo menos outras 15 novas vagas. Entretanto, o bom estado de conservação se deve ao trabalho solitário do único coveiro do local. “Já cansei de tirar do meu dinheiro para comprar gasolina e colocar no cortador de grama. Eu compro e depois eles (prefeitura) me devolvem. Eu faço o que eu amo e eu amo ver esse lugar bem bonito”, relata.
Procurado pela reportagem durante a visita e posteriormente por contato telefônico, o prefeito de Mata de São João, Marcelo Oliveira (PP), não foi localizado para falar sobre as denúncias da oposição na cidade.

Nota originalmente postada às 17h do dia 3

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