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Cultura

Livro revê trajetória da Odebrecht da ascensão à derrocada e expõe desavenças familiares

[Livro revê trajetória da Odebrecht da ascensão à derrocada e expõe desavenças familiares]
20 de Novembro de 2020 às 07:05 Por: Arquivo Pessoal Por: Folhapress

No fim de agosto de 2016, quando estava preso pela Operação Lava Jato em Curitiba e soube dos termos da delação negociada por seu pai, Emílio Odebrecht, o empresário Marcelo Odebrecht escreveu uma longa carta para dizer que o patriarca da família estava mentindo aos procuradores.

Endereçada à sua mulher e a dois irmãos, a mensagem classificava os relatos que o pai fizera aos integrantes da força-tarefa à frente das investigações como "tardios, incompletos, omissos e inverídicos", e o acusava de pôr em risco as negociações com a Lava Jato e o futuro das empresas da família.

Segundo Marcelo, o pai se recusava a contar tudo que sabia sobre as relações da Odebrecht com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e outros políticos com quem lidara. "Não apenas não relata tudo a que meu pai está exposto", escreveu. "Não fala tudo e não aborda corretamente o tema Lula".

Obtido pela jornalista Malu Gaspar, o documento é uma das revelações de "A Organização", livro que ela acaba de lançar sobre a trajetória do grupo empresarial. A obra tem tudo para acirrar as disputas familiares que aprofundaram a crise em que a Odebrecht mergulhou após ser atingida pela Lava Jato.

Repórter da revista Piauí, Gaspar trabalhou no livro durante três anos, entrevistou os principais personagens da sua história e teve acesso a material inédito, incluindo um diário escrito por Marcelo na cadeia, com milhares de páginas, e mensagens que ele trocou depois com executivos e familiares.

Segundo a jornalista, as omissões apontadas por Marcelo nas conversas com seus familiares incluíam detalhes sobre o relacionamento da Odebrecht com os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso (PSDB), Fernando Collor (PROS) e José Sarney (MDB), além de parlamentares que foram alvo da Lava Jato.

O livro sustenta que, de acordo com Marcelo, o pai recebia R$ 5 milhões em dinheiro vivo todo fim de ano em Salvador. Os recursos eram entregues pelo departamento que controlava o caixa dois da empresa e nunca foram declarados aos procuradores que negociaram a delação da Odebrecht, diz Gaspar.

A jornalista revisita as origens da empreiteira na Bahia, a expansão durante a ditadura militar (1964-1985) e sua consolidação como centro de um grande conglomerado empresarial, até sua derrocada com a Lava Jato, que levou a família a se desfazer de vários negócios e entrar em recuperação judicial.

O retrato que emerge do livro é o de um grupo privado que deu passos cada vez mais audaciosos com base numa aposta de alto risco —a de que suas alianças com um amplo espectro de forças políticas e os favores prestados a sucessivos governos lhe garantiriam para sempre uma rede de proteção.

A estratégia ruiu com a Lava Jato, que mandou Marcelo para a prisão e afugentou os bancos que por décadas financiaram a Odebrecht. Em 2016, o grupo decidiu colaborar com a Justiça, reconheceu ter pago US$ 788 milhões em propina no Brasil e no exterior e aceitou pagar uma multa de R$ 3,8 bilhões.

Participaram do acordo 77 executivos, entre eles Emílio e Marcelo, que presidiu o grupo de 2008 até 2015, quando foi preso. Ele deixou a cadeia em 2017 para cumprir o restante da sua pena em regime domiciliar e foi demitido pela empresa no fim de 2019, após uma escalada das desavenças na família.

Apesar do título do livro, que adota um termo usado por gerações de executivos para reverenciar a Odebrecht, a narrativa de Gaspar mostra que a empresa era também uma gigantesca bagunça, em que os acionistas traíam a cultura corporativa e antigos colaboradores desviavam o dinheiro do patrão.

A jornalista aponta pelo menos três executivos que participaram da distribuição de recursos do caixa dois da empresa e aproveitaram para desviar milhões de reais para contas pessoais, sendo que um deles foi inocentado pelo próprio Emílio quando o caso veio à tona durante as negociações das delações.

O caso mais notório, o do ex-diretor jurídico Maurício Ferro, foi exposto mais de um ano depois da conclusão do acordo com a Lava Jato, e só porque Marcelo saiu da prisão e passou a reunir provas para incriminar seus desafetos. Ferro, que é cunhado de Marcelo, hoje responde a processo na Justiça.

lijado das negociações da delação da empresa, que foi discutida com os procuradores quando ele estava preso e só tinha contato com a família e os advogados, Marcelo se considera traído por todos e rompeu com o pai durante o processo. Os dois não se falam pessoalmente desde o fim de 2016.

Após a demissão do herdeiro, a Odebrecht passou a acusá-lo de chantagem e foi à Justiça questionar um pacote de benefícios no valor de R$ 143,5 milhões concedido a Marcelo para garantir sua participação no acordo com a Lava Jato, incluindo uma indenização e o pagamento da multa acertada com os procuradores.

Com o dinheiro bloqueado e sem ter como pagar despesas pessoais, Marcelo pediu ajuda a amigos para não ter que recorrer ao pai, que chegou a dirigir um apelo ao filho, segundo Gaspar. "Desça do pedestal e peça a seus pais as necessidades de sobrevivência da família", escreveu Emílio a Marcelo.

Todas as tentativas de acordo entre eles fracassaram. Marcelo não teve êxito ao recorrer contra a ação movida pela empresa para bloquear seu dinheiro e se afastou também da mãe. Segundo Gaspar, o empresário não se arrepende de ter rompido com os pais. "Para mim, eles estão mortos", diz Marcelo.

A organização: A Odebrecht e o esquema de corrupção que chocou o mundo
Preço R$ 99,90 (640 págs.)
Autor Malu Gaspar
Editora Companhia das Letras

Grupo buscou aproximação com a imprensa nos anos 90, diz autora
O livro de Malu Gaspar conta que Emílio Odebrecht fez um esforço para se aproximar dos principais veículos de comunicação do país nos anos 1990, quando a imagem da sua empresa foi atingida por vários escândalos. Ela afirma que a construção do parque gráfico inaugurado pela Folha em 1995 fez parte dessa estratégia.

A Odebrecht executou a obra e a Folha pagou pelos serviços com espaço para anúncios da empreiteira no jornal. Segundo Gaspar, a Odebrecht também construiu um parque gráfico para O Globo e adiantou recursos para O Estado de S.Paulo, Gazeta Mercantil e Jornal do Brasil na mesma época.

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