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Amor Sem Cadeado: Desejo, Relacionamentos e a Ilusão da Posse

Como a experiência com Dom Ruan redefine o conceito de amor e a importância da honestidade nas relações  |  Divulgação

Publicado em 04/04/2026, às 07h26   Divulgação   Marcelo Cerqueira*

O amor, aquele sentimento que tanto encanta e confunde, carrega consigo uma infinidade de definições e interpretações que variam de cultura, época e pessoa. Contudo, uma ideia parece atravessar gerações quase intocada: a noção de que amar alguém significa possuir essa pessoa, e com ela, seus desejos, sentimentos e escolhas. Mas será que isso faz sentido? Será que seremos mais felizes ao tentar alçar o amor à liberdade, ao invés de prendê-lo a regras rígidas ou à obsessão pelo controle?

Nesse contexto, histórias reais como as que explodiram na internet recentemente, como a do jovem Josué, lançam holofotes sobre as complexidades das relações afetivas, da liberdade de desejo e do ciúme. Josué, aos 19 anos, se viu no meio de um escândalo digital após ser exposto pelo tarólogo Eddy Mello, com quem mantinha um relacionamento. O caso ganhou contornos ainda mais dramáticos quando Eddy flagrou Josué com outra pessoa em um shopping de Salvador, registrando o momento e pedindo, com a câmera do celular ligada, de volta os presentes que teria oferecido ao jovem.

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A cena, compartilhada por perfis em redes sociais, viralizou. Entre a exposição pública e a avalanche de comentários, o caso não só deu fama instantânea a Josué, mas também reacendeu debates profundos sobre ciúme, respeito, possibilidades de amor e o impacto das redes sociais nos vínculos humanos. Mas, enquanto muitos buscaram apontar vilões ou vítimas nesta história, ela também nos convida a refletir de forma mais ampla: será que o ciúme é uma evidência de amor ou a mais traiçoeira das armadilhas em um relacionamento?

Falar de ciúme dentro de relacionamentos me faz lembrar da minha própria jornada. Sempre fui uma pessoa que amou profundamente, mas nunca senti ciúmes de nenhum dos meus companheiros – nem mesmo do meu marido. Para muitos, essa falta de ciúmes é peculiar, até intrigante. Já ouvi questionamentos de amigos que me perguntavam se isso significava que eu amava menos ou que não me importava o suficiente. Mas, para mim, a ausência de ciúmes sempre foi a maior prova daquilo que acredito no amor: confiança e liberdade mútua.

Depois do fim de um relacionamento antigo, conheci um homem maravilhoso, lindo e loiro, a quem vou chamar carinhosamente de Dom Ruan. Ele carregava um charme magnético, e eu sabia desde o início que ele mantinha relacionamentos com outras pessoas. Mas isso nunca me incomodou. Eu sabia que o desejo dele era algo único, algo que fazia parte de quem ele era, e que competia apenas a ele gerenciá-lo. O desejo dele não era meu, nem por obrigação, nem por garantia do amor que ele pudesse sentir por mim.

A intensidade da nossa conexão era tão incrível que, em um gesto raríssimo nos dias de hoje, ele promoveu um encontro entre mim e uma de suas outras namoradas, uma moça que também fazia parte do círculo de afetos dele. Ele nos apresentou, olhou para nós duas com serenidade e disse, sem rodeios: "Eu gosto de vocês, e quero que vocês se entendam porque não vou abrir mão de ninguém." O que poderia ter sido um momento de tensão ou rivalidade acabou se transformando em uma situação de maturidade e aceitação mútuas.

Era final de ano e, ao invés de disputas ou rancores, nós chegamos a um acordo prático: dividimos os feriados. Quem passaria o Natal com Dom Ruan? Quem ficaria com ele no Ano Novo? No final, tudo ficou bem. Vivemos aqueles momentos com compreensão, respeito e uma falta total de ciúmes. Não havia traição, apenas uma honestidade multifacetada que nos permitiu amar e ter nossos lugares reconhecidos sem tensões ou disputas.

A experiência com Dom Ruan, contrastada com casos como o de Josué e Eddy, aproxima-se de uma questão essencial que gostaria de propor: por que o ciúme continua sendo visto como uma prova de amor? Na maior parte do tempo, o ciúme não é nada além de uma manifestação de insegurança, da ânsia de controle ou da tentativa de possuir aquilo que nunca será passível de posse: o desejável no outro.

É importante refletir, também, sobre a palavra traição, que carrega um peso moral desproporcional nas relações. O desejo, em sua essência, é espontâneo e involuntário, algo que nenhuma relação – por mais sólida ou cheia de amor, pode impedir ou eliminar. Uma pessoa que deseja outro alguém, ou mesmo que se relacione fora das "regras" clássicas do amor romântico, não deixa de amar seu parceiro ou parceira por isso.

Como Dom Ruan me ensinou, o desejo e o amor podem ocupar lugares diferentes, coexistindo com respeito, maturidade e liberdade. Não se trata de justificar infidelidades ou banalizar contratos de exclusividade afetiva. Pelo contrário, trata-se de encontrar maneiras mais saudáveis e realistas de pensar sobre os relacionamentos e a autonomia que cada indivíduo possui sobre si mesmo.

O que o futuro das relações humanas nos pede é que abandonemos, pouco a pouco, os modelos de amor baseados na posse, na exclusividade absoluta ou na necessidade de controle. Pode ser desafiador prosseguir por um caminho onde o outro é visto como nosso igual, não como nossa propriedade. Mas é também libertador.

Muitos dos conceitos tradicionais de amor e fidelidade são travas emocionais escoradas em ideias ultrapassadas que confundem posse com cuidado e ciúme com valorização. Amar de verdade é reconhecer a humanidade no outro, em seus desejos, necessidades e liberdade.

Casos como o de Josué e Eddy demonstram como as redes sociais amplificam nossos embates emocionais e transformam as relações humanas em espetáculos públicos. Contudo, na esfera íntima, existe sempre a possibilidade de explorar diálogos mais honestos e narrativas mais transcendentais para o amor.

Quando colocamos menos peso na posse do outro e mais ênfase no respeito, no diálogo e na compreensão, descobrimos que o amor pode ser incrivelmente generoso. Como diria Dom Ruan, a chave está em sermos honestos com quem somos, respeitando tanto nossa própria singularidade quanto a do outro.

Talvez o futuro reserve relações mais honestas, equilibradas e libertadoras, onde o ciúme deixa de ser moeda de troca do amor e a palavra "traição" perde seu peso desmedido. Afinal, o amor verdadeiro brilha mais na liberdade do que dentro de qualquer tipo de prisão emocional.

*Marcelo Cerqueira é presidente do Grupo Gay da Bahia (GGB)

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