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Publicado em 16/06/2026, às 20h11 Foto: Arquivo pessoal / Marcelo Cerqueira Marcelo Cerqueira
A história civilizatória LGBT+ no Brasil possui um marco geográfico e político inegociável: o Grupo Gay da Bahia (GGB). Fundado em 1980, o GGB não apenas inaugurou o movimento organizado no país, mas estabeleceu uma epistemologia de resistência que funde o rigor documental à coragem pública do professor Luiz Mott que completo orgulhosos 80 anos. O grupo não é somente uma ONG com sua história é patrimônio imaterial da Bahia e Brasil. Relembrar nossa gênese é evocar as "Mariatas", as históricas excursões marítimas na Baía de Todos os Santos que circundavam o Forte São Marcelo. Aquele local, onde outrora um governador foi denunciado por sodomia, tornou-se o centro simbólico de uma retomada de narrativa. O que começou como um refúgio nas águas, protegendo-nos do olhar inquisidor da terra firme, evoluiu em 2002 para a ocupação definitiva do asfalto do Centro transformando o estigma em emblema de liberdade.
A saída do confinamento para a circulação pública representa uma das maiores vitórias da nossa biopolítica. Durante séculos, nossos corpos foram alvo da Delegacia de Jogos e Costumes e da vigilância do regime militar, que nos relegava aos guetos e à invisibilidade compulsória. Ter um ente na família era motivo de vergonha, para não passar essa vergonha, exilavam os filhos, com a desculpa pública de estudar fora. Famílias ricas mandavam para o Rio de Janeiro, as muito ricas mandavam para a França.
A Parada do Orgulho LGBT+ da Bahia rompeu esse cerco. Circular pelas Ruas de Salvador não é um ato de afronta, mas o exercício pleno do direito à cidade, historicamente negado às subjetividades dissidentes. Ao marcharmos, subvertemos a lógica da repressão que tentava nos imobilizar, provando que a mobilidade é a expressão máxima da cidadania e que o espaço público é, por definição, o lugar da diversidade.
A luta do GGB sempre foi, em essência, uma batalha contra a patologização da existência. Enfrentamos teorias higienistas que, sob o manto da ciência, buscavam classificar o amor e o desejo como desvios clínicos. A perseguição médica, que operava como braço ideológico do controle social, encontrou no GGB uma barreira intelectual intransigente. Fomos protagonistas na pressão pela desclassificação da homossexualidade como doença, muito antes da OMS oficializar tal medida em 1990. Nossa resistência desarmou o discurso que tentava nos "curar", revelando que a verdadeira patologia reside no preconceito institucionalizado que insiste em desumanizar corpos que não se curvam à heteronormatividade.
Aqui em nossa cidade, anos 1990 o GGB combateu a prática criminosa de um médico que se gabava de "curar" homossexuais. O Dr. Chemas, utilizando um método fraudulento à base de injeções de urânio no reto, prometia a reversão da orientação sexual. O Professor Mott denunciou o embusteiro ao Conselho Regional de Medicina da Bahia. A audiência, caros leitores, foi um cenário de contrastes: de um lado, os médicos enfileirados em seus jalecos brancos, protegendo o denunciado; do outro, o bravo Professor Mott, revestido apenas de coragem e ciência, desmascarando a barbárie em defesa da dignidade humana.
Sob o manto da Saúde Coletiva, a Parada LGBT+ transcende a celebração festiva para se tornar um poderoso ativo psicológico. A visibilidade atua como uma catarse coletiva, uma intervenção terapêutica em escala urbana que combate o isolamento e a depressão causados pelo estigma de tantos anos. De tanto ouvir que somos doentes muitos de nós acreditaram que eram mesmo, nos bateram tanto que crescemos com a violência o ódio é reproduzindo essa prática dentro dessa população. O encontro com o igual — o reconhecimento mútuo no olhar do outro — promove uma libertação das amarras do sofrimento psíquico. Quando milhares de indivíduos se reúnem para celebrar quem são, ocorre uma cura pelo pertencimento. A Parada é, portanto, uma tecnologia de cuidado, onde a alegria compartilhada funciona como um antídoto contra a violência simbólica que tanto adoece os indivíduos dessa população, ainda distante de ser comunidade.
A ocupação do espaço público cria, fundamentalmente, o espaço da palavra. Ao darmos voz às nossas demandas e narrativas, estabelecemos uma nova normatização da diversidade, tornando-a parte integrante e indissociável do tecido social. Manifestações dessa natureza humanizam as pessoas, permitindo que a felicidade deixe de ser um privilégio para se tornar um estado de direito. A aceitação social, impulsionada pela nossa presença massiva nas ruas, reduz os níveis de ansiedade social e fortalece a autoestima e a saúde coletiva, transformando Salvador em um laboratório de convivência democrática e respeito mútuo.
A Parada do Orgulho LGBT+ da Bahia configura-se como um quilombo contemporâneo. É o território da resistência, da preservação da memória e da celebração incondicional da vida e aquilombamento. Assim como Palmares (AL) Zumbi e Ganga Zumba, Quariterê (MT) Tereza de Benguela, quilombos históricos foram espaços de liberdade e cura para os escravizados, a Parada é o nosso refúgio de dignidade em meio a um mundo, hostil, habitado por piratas coorporativos, LGBTfobia institucional que ainda tenta nos silenciar calando a nossa voz. Do coração de Salvador para o mundo, reafirmamos que nossa existência é política, nossa saúde é coletiva e nossa revolução é feita de afeto e pertencimento.