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Artigo

De Werther aos stories: o sofrimento jovem em tempos de exposição

Há um ponto de encontro entre esses dois tempos: a dificuldade de sustentar a frustração  |  Joilson Pereira

Publicado em 22/10/2026, às 16h49   Joilson Pereira   Ueliton Pereira Filho*

Publicado em 1774, “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, de Goethe, tornou-se um retrato emblemático de uma juventude tomada por sentimentos intensos, idealizações amorosas e uma relação quase insuportável com a própria existência. Mais de dois séculos depois, a pergunta que permanece é incômoda: o que mudou? E o que permanece no sofrimento do jovem do século XXI?

Werther era um sujeito atravessado por sua sensibilidade. Amava de forma absoluta, pensava de forma radical e sofria sem mediação. Sua dor não encontrava espaço simbólico suficiente para ser elaborada, por isso, transbordava. O mundo lhe parecia estreito demais para aquilo que sentia. Havia uma recusa em negociar com a realidade.

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O jovem contemporâneo, por sua vez, parece viver o oposto, mas talvez seja apenas uma ilusão. Hoje, há palavras para quase tudo: ansiedade, depressão, burnout, crise existencial. Há diagnósticos, manuais, vídeos explicativos e até algoritmos que antecipam estados emocionais. No entanto, paradoxalmente a experiência do sofrimento continua, muitas vezes, sem escuta verdadeira.

Se Werther escrevia cartas longas e densas, o jovem atual posta fragmentos: stories, tweets, legendas. A dor não desapareceu, apenas mudou de formato. Tornou-se mais rápida, mais visível e, ao mesmo tempo, mais superficializada. O sofrimento, que antes era vivido no silêncio e na introspecção, hoje é frequentemente exposto, compartilhado e consumido.

Mas há um ponto de encontro entre esses dois tempos: a dificuldade de sustentar a frustração. Werther não suporta o amor impossível. O jovem contemporâneo parece não suportar o vazio, o tédio, a espera ou a ausência de validação. Em ambos os casos, há um impasse diante da realidade, uma recusa, ainda que inconsciente, em lidar com os limites do mundo.

A diferença talvez esteja no cenário. Werther vivia em uma época em que o sofrimento era solitário e, de certo modo, silencioso. Hoje, ele é coletivo, performático e muitas vezes mediado por telas. Se antes o jovem se perdia em seus próprios pensamentos, agora ele se perde na comparação constante com a vida dos outros.

Há também uma mudança importante, a medicalização da vida. Enquanto Werther sucumbia à intensidade de seus afetos sem muitos recursos, o jovem atual encontra, com facilidade, respostas rápidas, diagnósticos, rótulos e, não raramente, soluções farmacológicas. Isso não é, por si só, um problema. O risco está em reduzir a complexidade da experiência humana a explicações simplificadas.

Werther nos lembra de algo essencial, que sentir dói. E talvez uma das maiores dificuldades do nosso tempo seja justamente tolerar essa dor sem precisar imediatamente eliminá-la ou transformá-la em espetáculo.

No fim, Werther não é apenas um personagem do século XVIII. Ele continua vivo, talvez menos nas cartas e mais nas telas. Menos no silêncio e mais na exposição. Mas ainda ali, tentando, de algum modo, dar sentido ao que sente.

E talvez a questão não seja como evitar o sofrimento, mas como, finalmente, aprender a escutá-lo.

Por Ueliton Pereira Filho - Diretor Técnico e Psicólogo da Holiste Psiquiatria / @holistepsiquiatria

Classificação Indicativa: Livre


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