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Douglas Santos, o lateral silencioso

Após quase uma década fora das convocações, Douglas Santos retorna como um dos melhores defensores do Brasil  |  Rafael Ribeiro / CBF

Publicado em 05/07/2026, às 07h00   Rafael Ribeiro / CBF   Cauan Borges

"Para nós, o futebol não se traduz em termos técnicos e táticos, mas puramente emocionais", escreveu o cronista Nelson Rodrigues. Poucos jogadores simbolizam essa ideia tão bem quanto Douglas Santos. Após uma trajetória marcada por altos e baixos, o lateral-esquerdo do Zenit disputa sua primeira Copa do Mundo aos 32 anos, fase em que muitos atletas já começam a se despedir do futebol de elite.

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Titular absoluto de Carlo Ancelotti na atual edição do Mundial, dono da posição em uma das equipes favoritas ao título mundial e peça fundamental do sistema defensivo brasileiro. Nascido em João Pessoa no dia 22 de março de 1994, ano do tetracampeonato da Seleção, o paraibano transformou uma carreira construída longe dos holofotes em uma das grandes histórias desta Copa do Mundo de 2026.

Em um país acostumado a produzir laterais de enorme vocação ofensiva e com alto poder de finalização, Ancelotti encontrou no jogador do Zenit um defensor seguro e capaz de oferecer equilíbrio para que os jogadores mais criativos possam decidir as partidas, exatamente o perfil que buscava.

Convocado por “engano”?

O reconhecimento atual contrasta diretamente com a maneira como sua primeira convocação foi recebida, ainda em 2013, mais precisamente no dia 2 de abril, um dia após o "Dia da Mentira", quando muitos acreditaram que seu nome havia aparecido na lista por engano. Mas, para surpresa de muitos, era verdade. Naquele ano, Douglas Santos ainda era uma promessa do Náutico, com apenas 19 anos, e chamou a atenção de Luiz Felipe Scolari depois de atuações seguras pela Seleção Brasileira Sub-20. 

Douglas Santos com as cores do Naútico em entrevista coletiva - Foto: Divulgação / Naútico

Antes do amistoso contra a Bolívia, organizado pela Confedaração Brasileira de Futebol (CBF) para arrecadar recursos destinados à família do torcedor Kevin Espada, morto durante uma partida da Libertadores, aconteceria fora da Data Fifa, o que obrigou Felipão a convocar apenas jogadores que atuavam no futebol brasileiro. Porém, ao divulgar a lista, surgiu uma enorme confusão. 

Como havia dois jogadores chamados Douglas Santos em destaque no país, o lateral-esquerdo do Timbu e o lateral-direito Douglas Pereira dos Santos, do São Paulo, que anos depois seria contratado pelo Barcelona e conquistaria a Liga dos Campeões de 2014/2015 no banco de reservas, muitos torcedores passaram a acreditar que a CBF havia cometido um erro.

A teoria ganhou força porque Felipão convocou dois laterais-esquerdos e nenhum lateral-direito. O treinador precisou desmentir publicamente os rumores e explicar que acompanhava Douglas havia bastante tempo nas categorias de base. Embora não tenha entrado em campo naquela ocasião, a convocação representava o reconhecimento de um talento que começava a despontar no futebol nacional.

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A expectativa era de que aquela fosse apenas a primeira de muitas oportunidades. Douglas passou rapidamente pela Udinese, da Itália, antes de retornar ao Brasil por empréstimo da equipe italiana junto ao Atlético Mineiro. No clube alvinegro, viveu um dos melhores momentos da carreira em solo brasileiro, quando conquistou a Copa do Brasil de 2014 e o Campeonato Mineiro de 2015. Com a camisa do Galo, disputou 99 jogos, marcou três gols e distribuiu sete assistências.

O desempenho o recolocou na Seleção principal, sendo convocado para a Copa América Centenário de 2016. Naquele mesmo ano, fez sua estreia oficial na vitória sobre o Panamá e, poucos meses depois, tornou-se titular absoluto da equipe olímpica comandada por Rogério Micale ao lado de Neymar. Foram seis partidas durante a campanha que terminou com a conquista da inédita medalha de ouro para o futebol brasileiro, coroada com a vitória sobre a Alemanha, no Maracanã. 

Tudo indicava que Douglas faria parte da renovação da Seleção nos anos seguintes, mas aconteceu justamente o oposto. Após os Jogos Olímpicos do Rio, o lateral desapareceu completamente das convocações da equipe principal. Enquanto companheiros de sua geração consolidavam espaço na 'Canarinho', Douglas iniciava uma longa ausência que duraria quase nove anos.

Em entrevista à CBF TV, o próprio jogador revelou que, depois de tantas listas sem seu nome, deixou até de acompanhar as convocações. A esperança de voltar à equipe nacional foi sendo substituída pelo foco exclusivo em sua carreira nos clubes.

Chegou um momento em que eu nem assistia mais às convocações. Sempre ficava aquela expectativa, mas depois de tanto tempo preferi focar apenas no meu trabalho. Continuei trabalhando, acreditando em Deus e esperando que, se fosse da vontade d'Ele, esse momento chegaria" - Douglas Santos.

Foi exatamente nesse período de anonimato que o atleta construiu o capítulo mais vitorioso de sua trajetória profissional. Depois de três temporadas com as cores do Hamburgo, da Alemanha, em que disputou 88 partidas entre 2016 e 2019, foi contratado pelo Zenit no último ano pelo clube alemão por aproximadamente 14 milhões de euros (cerca de R$ 83 milhões na cotação atual). 

Na Rússia, tornou-se capitão da equipe, ultrapassou a marca de 200 partidas pelo clube e acumulou uma impressionante coleção de títulos. Até a temporada 2025/26, conquistou seis Campeonatos Russos, uma Copa da Rússia e cinco Supercopas nacionais, consolidando-se como um dos estrangeiros mais vencedores da história do Zenit. Com a escrita, o brasileiro entrou no livro de troféus do clube, que possui nomes de compatriotas como o lateral Wendel, o zagueiro Nino e o atacante Hulk.

Curiosamente, esse crescimento ocorreu justamente quando o futebol russo passou a perder visibilidade internacional em razão das sanções impostas ao país após a guerra contra a Ucrânia, que afastaram seus clubes das competições organizadas pela UEFA.

Douglas Santos “Russo”?

A valorização do lateral dentro da Rússia foi tamanha que, em março de 2025, Douglas viveu um dos episódios mais inusitados de sua carreira. Após obter cidadania russa, foi convocado para defender a seleção do país em amistosos internacionais. Ao mesmo tempo, seu nome aparecia na pré-lista elaborada por Dorival Júnior para a Seleção Brasileira. 

Como havia disputado apenas amistosos pela equipe principal e atuado nas categorias de base do Brasil, o regulamento da FIFA permitia que ele mudasse de seleção. A possibilidade existia, mas Douglas jamais escondeu que seu sonho permanecia o mesmo desde o início da carreira: voltar a vestir a camisa amarela. Meses depois, esse desejo seria realizado graças à chegada de Carlo Ancelotti.

Douglas Santos em atuação pelo Zenit em 2026 - Foto: Redes Sociais / Instagram / @douglassantos06

Ao assumir a Seleção Brasileira, o treinador italiano encontrou um problema evidente. O país, historicamente reconhecido por produzir grandes laterais como Roberto Carlos, Nilton Santos e Marcelo, atravessava um momento de escassez na posição. Mais do que jogadores capazes de apoiar o ataque, Ancelotti buscava atletas que transmitissem segurança defensiva e permitissem maior liberdade aos homens de frente, especialmente o camisa 7 e destaque do Brasil no torneio, Vinícius Júnior. 

O nome de Douglas Santos surgiu após observações realizadas por Davide Ancelotti, filho e auxiliar do treinador, que acompanhava seu desempenho no Zenit. A convocação para os jogos contra Chile e Bolívia, pelas Eliminatórias, em setembro de 2025, encerrou um jejum de nove anos sem vestir a camisa da Seleção do atleta revelado pelo Centro Sportivo Paraibano (CSP). 

Titular contra os chilenos, Douglas agradou imediatamente e praticamente não saiu mais da equipe, ficando ausente apenas durante um período em que esteve lesionado. O próprio lateral revelou que Ancelotti destacava constantemente sua evolução defensiva construída ao longo dos anos no futebol russo, característica que acabou sendo determinante para sua consolidação. 

O Mister tem falado bastante comigo. Ele diz que eu cresci muito defensivamente no Zenit. Tenho procurado fazer exatamente aquilo que ele pede. Sabe das minhas características e, graças a Deus, as coisas têm dado certo", afirmou o lateral em entrevista coletiva.

Apenas "correto"?

A confiança do paraibano dentro das quatro linhas com a Amarelinha também pode ser explicada pelos números. Segundo dados da plataforma especializada em estatísticas futebolísticas Sofascore, Douglas Santos é um dos jogadores mais consistentes do Brasil nesta Copa do Mundo. 

Após os quatro primeiros jogos da Seleção, contra Marrocos, Haiti, Escócia e Japão, o lateral apresenta nota média de 6,98 e lidera toda a equipe em desarmes, com média de três por partida. Além disso, o defensor também registra 4,2 bolas recuperadas por jogo, sofreu apenas dois dribles durante toda a competição, venceu 68% dos duelos disputados e apresentou 74% de aproveitamento nos confrontos pelo chão

Enquanto o lado direito da defesa sofreu sucessivas mudanças após as lesões de Éder Militão e Wesley, o que obrigou Ancelotti a improvisar jogadores como Ibañez e, posteriormente, pôr o zagueiro do Flamengo e lateral de origem, Danilo Luiz, o corredor esquerdo tornou-se um dos setores mais seguros da equipe justamente graças à regularidade de Douglas.

Antes do início da competição, o defensor do gigante russo era o jogador menos seguido entre todos os convocados, com cerca de 196 mil seguidores nas redes sociais. Após uma campanha promovida pela CazéTV, incentivando os torcedores a conhecerem melhor o lateral e acompanharem seu perfil, o crescimento foi exponencial. 

Em poucas semanas, ultrapassou a marca de dois milhões de seguidores. O aumento da popularidade reflete aquilo que acontece dentro de campo: um atleta que, durante anos, passou despercebido pelo grande público, finalmente passou a receber reconhecimento nacional.

A história de Douglas Santos expõe em campo (ou em telas) que o futebol nem sempre recompensa apenas o talento mais vistoso. Em uma modalidade cada vez mais orientada pelo equilíbrio tático e pela intensidade física, jogadores capazes de cumprir funções coletivas com excelência tornaram-se indispensáveis.

Douglas não é o lateral dos grandes dribles, como Marcelo, nem das arrancadas intermináveis ou das estatísticas ofensivas chamativas, como Daniel Alves; seu protagonismo está justamente na discrição e na execução do famoso “trabalho sujo”. No entanto, para o titular de Carlão, a ideia de que ele apenas executa um "feijão com arroz bem feito" está longe de ser verdade. Para o famoso operário da bola, existe um ingrediente a mais. Mas, qual? Pois o próprio Douglas Santos pode responder a essa indagação.

Acho que esse feijão com arroz bem temperado que todo mundo está falando é fazer o simples com excelência. Eu estou me preparando muito, me preparei muito para chegar à Seleção depois de nove anos. Então não queria perder essa oportunidade e estou fazendo tudo o que Mister e sua comissão vêm pedindo. Graças a Deus vem dando certo, vou continuar dando o meu melhor para que esse feijão com arroz bem temperado possa continuar alegrando todo torcedor brasileiro", disse Douglas Santos em entrevista coletiva na última sexta-feira (3), antes do duelo contra a Noruega pelas oitavas de final.
Douglas Santos durante entrevista coletiva pela Seleção Brasileira em 2026 - Foto: Rafael Ribeiro / CBF

Classificação Indicativa: Livre


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