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Eu odeio jingles, ou a baixaria que eles se tornaram

Explorando a linha tênue entre a nostalgia dos jingles e a banalização na política contemporânea  |  Arquivo Pessoal

Publicado em 29/08/2026, às 12h23 - Atualizado às 12h27   Arquivo Pessoal   Claudia Cardozo

Eu odeio jingles. Isso mesmo. De forma direta e objetiva, me sinto segura para escrever que odeio alguma coisa. Em tempos de fãs e haters, a Internet, essa grande praça pública, me dá uma pseudoussegurança para me manifestar.

Mas explico: odeio porque são músicas “chicletes”, dessas que ficam agarradas na sua cabeça e não saem do pensamento nem por reza brava. Mas sei que eles já estão tão incorporados em nossa cultura eleitoral, que é difícil ignorar o seu potencial de mobilização e uma certa indução ao voto.

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O jingle nada mais é do que uma cantiga quase popular difundida massivamente na publicidade. Quem aí lembra do “compre batom”, “eu quero ver pipoca pular, eu quero pipoca e guaraná”, ou até mesmo de um famoso lanche de uma rede de fast-food: “dois hambúrgueres, alface, queijo, molho especial, cebola, picles e um pão com gergelim”.

E para finalizar a lista de exemplos, o mais odiado dos últimos tempos: o pônei maldito.
Dito isso, relembrando todos esses jingles aqui que já voltaram a agarrar na minha cabeça enquanto escrevo esse texto, o jingle anima a festa da democracia. É a trilha sonora que embala as eleições e acaba sendo reflexo de seu tempo.

Temos na história política jingles memoráveis, inesquecíveis. Eu mesma lembro do jingle de um candidato a prefeito de 1992, da cidade onde nasci: Conselheiro Lafaiete.

Naquela época (entregando aqui minha idade), os showmícios eram permitidos e talvez fossem o único acesso de muitos eleitores a alguma manifestação cultural. Eu me lembro de sair de casa à noite com minha família pra ver um showmício desses. Eu tinha uns 6 anos.

E antes da atração tocar, lá estava o jingle tocando massivamente até o disco arranhar ou a fita cassete embolar. Queríamos que os discursos políticos acabassem logo para poder dançar. Realidade de quem cresceu em cidade do interior (no meu caso, lá de Minas Gerais).

Não vou escrever a letra que até hoje lembro pra não dizer que eu voto em A e em B. A bem da verdade, não sei se conseguirei votar nessas eleições pelo trabalho mesmo. Mas voltando a essa linha de raciocínio, até hoje sei o jingle dessa campanha, do candidato que minha mãe apoiou na época. Dona Cida e seus filhos vestiram camisas de candidato, sim.

Mas o que faz um jingle se perpetuar no tempo de forma que a gente saiba cantar mesmo com o passar dos anos? É sua letra, melodia, ousadia, nostalgia ou mesmo uma espécie de elaboração erudita que só o conhecimento popular consegue explicar?

Nos últimos anos, com o crescimento dos paredões em Salvador, pra mim, os jingles passaram a ser poluição sonora. Eu não me lembro de jingles recentes. Eu não lembro os jingles mais marcantes da última campanha. Para mim, parece uma produção em série de fábrica, com a mesma batida, troca de farpas entre candidatos, de baixaria e vulgaridade.

É ruim até para as crianças ouvirem. Sem querer ser careta, mas seriam dignos de uma espécie de um filtro da lei antibaixaria. Porque os palavrões estão por todo lado. E falo isso admitindo minha hipocrisia, pois já fui chamada de Dercy Gonçalves por meus colegas pelo meu vasto repertório chulo.

É de lamentar e querer evitar a todo custo ouvir os paredões-jingles espalhados pela cidade, causando a poluição sonora. E quem mora na periferia também reclama dessa zoada e fica torcendo para que esse período acabe logo para assistir à TV em paz.

É triste ver uma expressão cultural ser banalizada. Mas eu sei que são reflexos dos tempos atuais. É preciso tentar se aproximar das massas, do povo, dos populares. Mas será mesmo que precisamos baixar tanto o nível? Ontem mesmo, vimos um carro com mulheres seminuas desfilando ao som de um jingle político.

Até onde vai o apelo pelo voto? Nós já estamos dominados pela baixaria e pelo sensacionalismo há um bom tempo. E sei que quem ler esse texto pode até achar que sou pregadora do elitismo. Longe de mim isso aí.

Eu só sei que do jeito que está, não dá para almejar dias melhores.

Classificação Indicativa: Livre


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