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Memórias e Flashbacks de Carnavais Passados

  |  Reprodução / Redes Sociais

Publicado em 24/02/2025, às 10h42   Reprodução / Redes Sociais   Marcelo Cerqueira @marcelocerqueira.oficial

Eu nem sabia o que era Carnaval, mas sabia que gostava do que se falava sobre ele. As memórias que tenho começam a partir dos meus 8 anos de idade, quando morava no distrito de Irará, na Fazenda Saco do Capim. As histórias que me contavam ficavam na minha cabeça de criança, e eu imaginava aquele monte de gente dançando e interagindo. Perguntava aos mais velhos: "Para que lado fica Salvador?", e eles apontavam. Então, eu ficava olhando e imaginando como seria o Carnaval.

Diante disso, restava-me usar a criatividade e fazer o meu Carnaval particular. Pegava um pano grande, botava na cabeça e ficava girando ao redor da casa, repetindo: "É Carnaval! É Carnaval!"

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Pouco tempo depois, viajei com minha avó para São Paulo, para uma "rápida" viagem que acabou durando cerca de cinco anos. Fui uma criança de muita sorte, pois meu padrasto era um homem incrível, de grande carinho por mim. Aqui na Bahia, minha madrasta também era uma pessoa formidável.

Em São Paulo, levávamos uma vida quase nômade, pois o emprego do meu padrasto exigia que viajássemos muito. Por isso, morei tanto na capital, na Zona Leste, quanto no interior, em cidades como Capão Bonito, onde havia muitos japoneses, e Itapetininga. Foi nessa última cidade, já crescido, que fiz muitas amizades. Lembro-me do dia em que fomos assistir ao filme do Superman no cinema. Outra diversão nossa era colocar pregos nos trilhos do trem para vê-los amassados e transformá-los em pequenas lanças.

Lembro também das escapadas para uma casa onde havia uma macieira. Oficialmente, íamos roubar maçãs, mas, na verdade, era só um pretexto para ver uma menina bonita. Naquele grupo de moleques, todos eram lindos, e foi ali que tive minha primeira experiência com o Carnaval. Fundamos a Escola de Samba Unidos da Maloca. O nome não tinha relação direta com o que hoje chamamos de "maloca", mas provavelmente surgiu porque ensaiávamos em uma casa abandonada.

A escola era organizada. Tínhamos passistas – as meninas que ficavam à frente sambando – e os meninos batiam tamborins. Chegamos até a ter um hino, mas, infelizmente, já não lembro a melodia. Esse encontro me marcou profundamente, pois foi uma experiência incrível. Na época, eu já tinha 15 anos.

Uma das lembranças mais intensas que tenho foi de um beijo. Estava em frente à Catedral da Matriz Senhor dos Passos quando, de repente, um homem me beijou na boca. Não lembro qual foi minha reação, mas posso entender que, na época, eu era uma adolescente andrógina e usava black power.

Já em Salvador, gostava muito de usar máscaras no Carnaval – de todo tipo –, aquelas fixadas com um elástico no nariz e nos olhos. Eu nunca ia sozinho e nem me arriscava a fazer isso; sempre fui cauteloso e saía com minhas primas.

Certa vez, no meio da folia, encontrei o Trio Elétrico do Comanches, onde havia muitas mulheres seminuas, com os seios à mostra. Aquilo foi como uma descarga elétrica na minha cabeça.

Com o tempo, aprendi a me preparar melhor para o Carnaval. Comprei tecidos, mandei costurar fantasias com costuras laterais, deixando espaço para os braços e para a cabeça. Algumas eram bem cavadas, deixando as costas e o peito à mostra. Amarrava um pano na cintura para dar um toque especial. Meu truque era amarrar uma fita na testa e usar um soquete grande para guardar a identidade e algum dinheiro.

O fim da mortalha (a vestimenta carnavalesca) era virar pano de chão ou pano de prato. Mas essa peça tem uma história curiosa. O nome "mortalha" vem do latim mortualia, que significa "roupa dos mortos". Essa vestimenta fúnebre foi parar no Carnaval de Salvador por uma reivindicação dos blocos carnavalescos.

Desde a Idade Média, a mortalha fazia parte das tradições funerárias da Europa cristã, das culturas árabes e muçulmanas e também das religiões africanas. No Brasil colonial, por exemplo, no Campo da Pólvora – onde hoje funciona o Fórum Ruy Barbosa e abaixo dele a estação do metrô –, havia um cemitério administrado pela Santa Casa de Misericórdia. Lá, pessoas pobres e indigentes eram enterradas enroladas em mortalhas.

Já nos anos 1950, com o surgimento de grandes blocos de Carnaval e a necessidade de padronização, a mortalha saiu do cemitério e foi para as ruas, vestindo os foliões vivos. A peça dominou muitos Carnavais até ser substituída pelo abadá, uma camiseta que facilitava a exibição de patrocinadores. Hoje, o abadá ainda é usado por muitos blocos, às vezes acompanhado de shorts, outras vezes como um item que os foliões vestem como se fosse um troféu.

Usei muita mortalha dos blocos Internacionais e Inter. Eu e Luiz saíamos para pegar bloco ao meio-dia, sob um sol escaldante.

Com o tempo passei a sair impunemente no Carnaval só de sunga, sem me importar com a norma imposta pela portaria da Secretaria de Segurança Pública, que proibia o uso da peça e determinava que quem estivesse de sunga poderia ser preso.

Lembro de um amigo fisiculturista que treinava na Academia Petrus. Durante o Carnaval, os alunos se reuniam para sair com sungas e minissaias feitas com véu de noiva e elástico. Ver aqueles homens enormes com roupas minúsculas era um espetáculo plástico e desconcertante.

Infelizmente, a beleza desperta sentimentos destrutivos. Um deles, ao se afastar do grupo, foi abordado por uma patrulha da PM e preso. Passou o Carnaval inteiro na cadeia e só foi liberado na Quarta-Feira de Cinzas, ainda vestido como se fosse o primeiro dia da festa.

Outro dia, uma amiga fiz o comentário que os policiais menos atraentes são os mais rigorosos no Carnaval e no cotidiano. Talvez os bonitos sejam mais seguros de si.

Do Carnaval só restam memória, cultura e resistência. A folia pode até mudar de roupa, mas nunca perde a essência.

MARCELO CERQUEIRA é Coordenador Municipal da Política LGBT+ e Ativista do GGB

Classificação Indicativa: Livre


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