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Publicado em 07/06/2026, às 21h53 Foto: Arquivo pessoal / Marcelo Cerqueira Marcelo Cerqueira
A Avenida Paulista não é apenas o coração financeiro do Brasil; no último domingo, ela funcionou como um sismógrafo de alta precisão, detectando e amplificando a força de uma existência que o patriarcado, em sua eterna "ressaca moral", tenta inutilmente silenciar. A abertura da Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo não foi apenas o início de um calendário; foi um Big Bang estético e político que reverberará em cada quilombo, periferia e território dissidente deste país ao longo de 2026.
O epicentro desse abalo sísmico tem nome, sobrenome e uma trajetória que se confunde com a própria invenção da cidadania sexual no Brasil: Luiz Mott. Ver o decano do movimento e fundador do Grupo Gay da Bahia (GGB) ser homenageado no topo do trio de abertura ao completar 80 anos é, acima de tudo, um ato de Higiene Mental Decolonial. A voz do decano opera como uma verdadeira "faxina na mente", limpando a opressão e o estigma que nos foram introjetados por séculos.
Mott não é apenas um sobrevivente. Foi sua determinação férrea que mobilizou as assinaturas de 17 mil brasileiros para revogar o famigerado código CID-302, que permitia tratar LGBTs como doentes mentais. Por isso, Mott é o grande arquiteto da nossa alforria subjetiva. Em épocas de chumbo e preconceito sistêmico, foi ele quem pavimentou o caminho para que milhões de brasileiros pudessem trocar o armário pelo asfalto.
Celebrar Mott na Paulista, a maior Parada do Sul Global é reconhecer que a profundidade da nossa luta não se mede em curtidas, mas em décadas de enfrentamento ao Panóptico do Preconceito. Aqui, evoco o conceito clássico do filósofo Jeremy Bentham, imortalizado por Michel Foucault em Vigiar e Punir: a tentativa do Estado de nos manter sob vigilância constante e controle disciplinar. Mott, que saiu de São Paulo para fundar na Bahia o alicerce da nossa resistência, retorna agora como uma lenda viva, lembrando-nos que a biopolítica do Estado, que tenta gerir nossos corpos e afetos, encontra seu limite intransponível na nossa capacidade de ocupação e celebração de massa.
Mas o eco retumbante de São Paulo é apenas o prelúdio. Se a Paulista abre o caminho, é na Bahia que o asfalto ferve com a promessa da soberania definitiva. O Grupo Gay da Bahia já iniciou a contagem regressiva para a 23ª Parada do Orgulho LGBT+ da Bahia, que ocupará o circuito Barra/Ondina no feriadão de 6 de setembro. Das 11h às 21h, transformaremos a orla de Salvador no maior laboratório de saúde coletiva e afirmação política do Norte-Nordeste, sob o slogan: “Do coração de Salvador para o Mundo”.
Aos meus nobres leitores do BNews, explico por que escrevo sobre saúde coletiva associada à Parada: o orgulho é um antídoto. A Parada contribui para a saúde pública ao promover a visibilidade, combater o isolamento social e reduzir drasticamente os índices de sofrimento psíquico causados pela LGBTfobia. É um espaço de conscientização, prevenção e, sobretudo, de reivindicação de políticas de acolhimento.
A Parada da Bahia não é um "pit stop" recreativo; é uma intervenção estratégica de saúde. Enquanto o conservadorismo tenta nos empurrar para a invisibilidade, respondemos com a Biopolítica da Presença, animada, resiliente e soberana. Estaremos lá para distribuir não apenas insumos de prevenção, mas doses maciças de autoestima, dignidade e coragem. Afinal, ser um de nós diariamente exige a bravura de quem "faz barba em leão e parto em onça".
O recado de Mott em São Paulo é o nosso norte: nossa luta por existência plena é legítima e inegociável. Que o brilho dos 80 anos do nosso mestre ilumine o trajeto da Barra até Ondina e sirva de farol para as mentes que ainda resistem ao novo, e o novo sempre vem. Em setembro, a Bahia não apenas celebrará o orgulho, mas proclamará a alforria definitiva de todas as cabeças. Como diz o poeta: “A gente se vê no Farol” - e no asfalto, onde a liberdade é a única norma permitida.
Marcelo Cerqueira; Gestor Público, Estrategista da Diversidade e Escritor. Autor das obras: ARDILOSA – A vida secreta de uma travesti Serial Killer e Amor Sem Correntes: Um Manifesto pela Decolonialidade do Afeto.