Artigo
Publicado em 27/10/2026, às 20h56 Joilson Pereira Luciana Oliva*
Lembro-me dos dias antes da minha primeira menstruação. Eu estava na Fonte Nova, assistindo a um jogo de futebol, quando senti uma dor muito intensa na região inferior do abdome. Sem compreender o que acontecia, achei que fosse morrer. Cinco dias depois, veio a menarca. Ali começava uma relação com o ciclo menstrual que me acompanha até hoje. Demorei, porém, a entender o que meu corpo tentava me dizer.
Na adolescência, quando os Raimundos cantavam "mulher de fases", eu não sabia bem o que a música queria dizer, mas de alguma maneira me reconhecia nela. Nos dias antes da menstruação não era só o corpo que mudava: meus pensamentos pareciam diferentes, a atenção piorava, o humor oscilava e surgia uma vontade incontrolável de comer chocolate, como se, por alguns dias, eu deixasse de ser eu mesma. Com a chegada da menstruação, quase num passe de mágica, tudo voltava ao normal.
Só mais tarde, já médica e psiquiatra, compreendi que os sintomas pré-menstruais variam de intensidade. Para muitas de nós, são leves e não provocam prejuízos importantes. Para outras, podem configurar o Transtorno Disfórico Pré-Menstrual (TDPM), marcado por sofrimento intenso e comprometimento real da vida. Apesar de ser um sofrimento previsível, que volta todo mês, segue com estigma de exagero, falta de controle ou "coisa de mulher". Mas os estudos apontam que, nesse período, há uma grande probabilidade no aumento de ideação suicida e de tentativa de suicídio. O crescimento varia entre quatro e sete vezes. Mesmo assim, muitas mulheres que convivem com o TDPM passam anos sendo chamadas de difíceis, dramáticas, “histéricas” ou instáveis quando, na verdade, precisam de escuta, avaliação e cuidado.
Mulheres com este transtorno sentem que nessa época, não conseguem confiar nos próprios pensamentos nem tomar decisões: tudo parece errado, inclusive o relacionamento, e, às vezes, surge a sensação de não amar mais o parceiro. Quando a menstruação chega, o quadro se desfaz. Mas volta no mês seguinte, e no outro... e no outro... com a impressão de que nunca vai acabar.
No curta-metragem 'Overdrive’, a diretora e atriz Abigail Wilson interpreta uma personagem que dirige em alta velocidade e realiza manobras arriscadas enquanto luta contra si mesma para manter o controle do corpo e da mente. A produção traduz, de forma metafórica, a batalha que muitas mulheres com TDPM travam todo mês para continuar conduzindo a própria vida.
O transtorno foi reconhecido oficialmente pela Organização Mundial da Saúde na 11ª edição da Classificação Internacional de Doenças (CID-11). Há evidências da participação de fatores genéticos, mas sua origem ainda não está completamente esclarecida. Em geral, os níveis dos hormônios reprodutivos se encontram dentro do esperado. O que parece existir é uma maior sensibilidade do sistema nervoso central às oscilações hormonais normais do ciclo: o que muda não são os hormônios, e sim a resposta do cérebro a eles.
Para se ter uma noção da gravidade, o documentário ‘Investigating PMDD: The “Jekyll and Hyde” Condition That Drove Me to an Extreme Treatment’, produzido pela emissora britânica ITV News, acompanhou mulheres que, após anos de sofrimento e tratamentos sem resposta, recorreram à retirada cirúrgica dos ovários, procedimento que induz uma menopausa precoce e irreversível. Hoje, esse tratamento é reservado a casos excepcionais e refratários, após avaliação especializada, não sendo a primeira opção, mas mostra até onde algumas mulheres precisaram chegar para interromper um sofrimento que se repetia todos os meses. O TDPM não cria outra personalidade nem transforma a mulher em uma pessoa “má”, mas se trata de uma alteração cíclica do humor que envolve sintomas emocionais, cognitivos, comportamentais e físicos.
Entre banalizar os sintomas e recorrer à cirurgia, há muito a ser feito: o diagnóstico precoce; entender o ciclo menstrual; perceber-se e registrar os sintomas; mudar o estilo de vida; fazer psicoterapia; e usar antidepressivos ou tratamento hormonal quando indicado, com psiquiatria e/ou ginecologia.
A falta de representação na TV brasileira torna o tema menos democrático, mais invisível e sem representação suficiente para discussões mais amplas, reforçando o estereótipo da mulher no período pré-menstrual como alguém sem filtro, imprevisível ou transformada em outra pessoa.
É urgente contarmos outras histórias sobre as “mulheres de fases”, ilustrando como elas precisam entender o próprio ciclo e ser compreendidas por quem está ao seu redor, seja no trabalho, em casa ou nos serviços de saúde, pois reconhecer o TDPM não é culpar os hormônios por todo sofrimento feminino, é nomear o que nós, mulheres, sentimos.
Quando os sintomas interferem no trabalho, nos estudos, nos relacionamentos ou na forma como a mulher se reconhece, é necessário procurar avaliação especializada. O TDPM tem tratamento. E nenhuma mulher deveria precisar esperar a próxima fase, todos os meses, para voltar a se sentir ela mesma.
*Por Luciana Oliva / Psiquiatra e coordenadora do Núcleo de Saúde Mental da Mulher da Clínica Holiste - @holistepsiquiatria