Argentina perdeu. Estou na Austrália, em viagem a convite de instituições espiritualistas para palestras e pinturas mediúnicas, portando em um fuso que me deixa totalmente confuso, são 13 horas a mais que o Brasil. Não consigo acompanhar em cima da hora os atos, mas sei agora que a Argentina perdeu. Eu já havia me programado a escrever este texto, o que poderia desistir, mas não, quis fazê-lo. Não havia espaço, na minha visão de mundo, para torcer pela Argentina, mesmo sendo uma Nação latino-americana. Essa não é uma posição partidária ou ideológica, afinal sou brasileiro, mas uma demarcação político-social contra a naturalização do preconceito.
O futebol sul-americano e mundial vem sendo manchado por
cenas grotescas vindas das arquibancadas dos “Hermanos”. A imitação de macacos e os insultos racistas direcionados a jogadores e torcedores negros deixaram de ser episódios isolados para se tornarem um padrão cultural intolerável. Quando essa mesma conduta é silenciada ou mesmo reforçada dentro do próprio time — como vimos nas lamentáveis celebrações da Copa América de 2024 e nas recentes manifestações no Mundial de 2026 nos Estados Unidos —, fica evidente que o problema é estrutural, é da sociedade argentina, em sua – talvez – maioria.
Não me contamino aqui com as rivalidades históricas ou do folclore do futebol. Trata-se da ausência de uma postura institucional firme que dissuada o torcedor da violência racial. A complacência das federações e o silêncio dos atletas transformam a paixão esportiva em um salvo-conduto para a humilhação, para encenações grotescas direcionadas às pessoas. Validar esse comportamento com o nosso apoio, mesmo que indireto, é aceitar que a dignidade humana valha menos do que noventa minutos de entretenimento. Sei que o meu sentir não representa nada junto aos torcedores da seleção argentina, o que é absolutamente verdade, mas por tudo isso, minha postura neste jogo é de absoluto distanciamento. Minha recusa em torcer por essa seleção é um manifesto pessoal pelo futebol em que acredito: um esporte que eleva e une, e não um palco que desumaniza, discrimina, ofende. Não se pode ressalvar 90, ou mais minutos em nome de uma torcida, que ao final será por pessoas que estão em campo e se esquivam de combater crimes que são perpetrados por parte de sua torcida. Não podemos transigir com valores de humanidade. É o que penso.
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