Artigo
Publicado em 22/06/2026, às 17h59 Divulgação Marcelo Cerqueira
Em 1969, o Estado não regulava as populações dissidentes apenas por meio do cassetete policial. Ele o fazia, fundamentalmente, por meio do aparato médico-psiquiátrico. Ser homossexual ou transgressor de gênero era, por definição legal e científica, carregar um diagnóstico de perturbação mental (o antigo CID 302 e equivalentes). O corpo dissidente era um território ocupado pelo diagnóstico, pela vigilância sanitária e pela higienização social. Stonewall não foi só reação à brutalidade policial; foi uma insurreição contra a patologização da existência.
Naquela noite de verão em Nova York, quando travestis negras, drag queens latinas, trabalhadores sexuais e jovens da periferia decidiram revidar, eles estavam operando a mais radical estratégia de Redução de Danos jamais vista. Naquele momento, a história que vem de baixo começava a ser escrita com sangue, suor, lágrimas e a coragem necessária para sustentar a recusa coletiva de permitir que o Estado amparado na medicina hegemônica decidissem quem tinha o direito de viver ou morrer.
O confronto foi um manifesto coletivo, escrito na pele de cada um, provando que a sobrevivência e as condições de bem-estar são as métricas absolutamente primárias da saúde pública. A saúde coletiva frequentemente tratou a prevenção e o cuidado como pacotes técnicos que descem de gabinetes climatizados, sem nunca ouvir as populações vulneráveis. Stonewall inverte essa lógica. Foi a partir da revolta que surgiu o entendimento clínico e a comprovação de que o saber sobre a sobrevivência nasce da calçada, do asfalto quente e da vivência comunitária.
Dessa luta, que teve início em um bar no Greenwich Village, para as ruas, foi um passo. No ano seguinte, em 28 de junho de 1970, aconteceu a Marcha do Dia da Libertação na cidade de Nova York, concentrando-se no Village - onde se deu a vitória histórica - e marchando até o Central Park.
Os principais slogans e gritos eram recados diretos para a sociedade americana. "Gay is good" (Ser gay é bom), criado pelo ativista Frank Kameny, inspirou-se diretamente no movimento "Black is Beautiful", que confrontava o racismo da época. Na primeira Parada do mundo, os participantes bradavam: "Say it clear, say it loud: Gay is good, gay is proud!" (Diga claramente, diga alto: ser gay é bom, ser gay é orgulho!). Eram milhares de pessoas diversas ocupando o asfalto, refutando estigmas e afirmando sua dignidade.
Esse protesto fez com que a alforria médica chegasse em três anos. Em 15 de dezembro de 1973, a melhor comemoração de Natal da nossa história se concretizou quando a Associação Americana de Psiquiatria (APA) elevou a homossexualidade à categoria de orientação sexual, retirando-a do rol de patologias. Em seguida, a Associação Americana de Psicologia (APA) endossou a decisão, aprovando uma resolução que baniu oficialmente a homossexualidade da lista de transtornos mentais em 1975.
Quem liderou a revolta não foram os homossexuais que buscavam assimilação; foram os corpos e corpas que transitavam na interseção aguda da vulnerabilidade social -incluindo raça, cor, território e dissidência de gênero. Sylvia Rivera e Marsha P. Johnson não lutavam apenas pelo direito de frequentar um bar; lutavam pelo direito de ocupar o espaço público, por alimentação, trabalho, pela própria vida (para não serem assassinadas) e por uma rede de apoio mútuo - o que hoje compreendemos como determinantes sociais da saúde.
O dia 28 de junho, portanto, é o marco de uma epistemologia de sobrevivência. É a data em que a periferia existencial do mundo desenhou, com pedras e barricadas, o rascunho de uma saúde pública que não oprime, mas liberta. No Brasil, em 1984, a nossa alforria aconteceu pela determinação do professor Luiz Mott que, ao mobilizar 17 mil assinaturas e obter o apoio da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), fez o Conselho Federal de Medicina (CFM) tornar sem efeito o diagnóstico correspondente ao CID 302- antecipando-se à própria OMS na maior vitória política e sanitária do nosso movimento.
Se a LGBTfobia estrutural e o racismo são patógenos sociais que produzem adoecimento mental, isolamento, depressão e morte, o Orgulho é o antígeno. O Orgulho, nesta interpretação, não é um sentimento de vaidade ou uma celebração vazia; ele é uma tecnologia de imunidade social. Quando um corpo dissidente se recusa a se envergonhar de sua própria biologia e de sua identidade, ele interrompe o ciclo de adoecimento psicossomático imposto pelo estigma. A Parada do Orgulho LGBT+ cura porque devolve ao sujeito a soberania sobre sua própria narrativa e sobre sua saúde.
Escrever sobre o 28 de junho hoje é compreender que a nossa luta não terminou com a conquista do casamento civil ou com as leis de criminalização da homofobia. A travessia para a emancipação reside na garantia de que cada corpo gay, cada corpa preta, periférica, trans, travesti, bicha e não-binárie tenha acesso à dignidade plena: ao saneamento básico e à moradia como direitos fundamentais de saúde; à despatologização real e ao respeito às transições de gênero, sem a tutela humilhante do olhar médico colonizador; e à construção de uma rede de afeto e cuidado que neutralize a solidão e o abandono histórico de séculos. Fomos tão fustigados historicamente que corremos o risco de naturalizar essas violências e reproduzi-las contra os nossos próprios pares.
O dia 28 de junho é o dia em que o corpo dissidente deixou de ser um objeto de estudo clínico ou de repressão policial para se tornar o sujeito soberano de sua própria narrativa existencial na cidade. A 23ª Parada do Orgulho LGBT+ da Bahia, em 9 de setembro, será o momento de celebrar essa data materna e renovar o compromisso de que a nossa saúde, a nossa vida na cidade e o nosso legado são absolutamente inegociáveis.
Marcelo Cerqueira, gestor, estrategista de diversidade, escritor autor do livro “Amor Sem Correntes: Um Manifesto pela Decolonialidade do Afeto” Editor J. M. D. de Oliveira, Sergipe, 2026.