Artigo

Sem identidade

Confira o artigo 'Sem identidade', de José Medrado  |  Arquivo pessoal / José Medrado

Publicado em 16/03/2026, às 21h32   Arquivo pessoal / José Medrado   José Medrado

Nesse domingo passado o Brasi deu material para estudiosos do comportamento se debruçarem sobre o povo brasileiro. Foi o Oscar. O recente reconhecimento internacional de obras brasileiras, como a atuação de Wagner Moura e o próprio filme – O agente secreto - gerou uma reação intrigante: parte do público nacional não torceu pelo êxito de um compatriota. Em alguns casos, a rejeição esteve ligada a posicionamentos políticos do artista, mas esse fenômeno transcende a esfera pessoal. Trata-se de um reflexo mais profundo da relação do brasileiro com sua própria cultura.

A lógica que sustenta o orgulho nacional muitas vezes é paradoxal: deseja-se reconhecimento externo, mas aplaudir o sucesso de um conterrâneo pode gerar desconforto quando surgem diferenças ideológicas. Esse comportamento pode ser analisado à luz da psicologia social, em especial da teoria da identidade social. Segundo a qual os indivíduos se classificam em grupos, favorecendo aqueles que percebem como semelhantes e, ao mesmo tempo, subestimando membros do próprio grupo quando estes desafiam expectativas normativas.

Siga o BNews no Google e receba as principais notícias no seu celular

No caso de Moura, a recusa em celebrar seu êxito não reflete a obra em si, mas a tensão entre a identidade nacional desejada e a diversidade de opiniões internas. Há, portanto, um conflito entre o pertencimento cultural e a coerência ideológica percebida, que leva à incompreensão e até à hostilidade simbólica. Esse padrão não se restringe a artistas. Produtos culturais, como filmes, séries e música, muitas vezes enfrentam resistência doméstica, mesmo diante de conquistas globais. A incompreensão se instala quando o público enxerga no sucesso do outro um espelho crítico de si mesmo ou de valores sociais que não reconhece.

Torcer contra, paradoxalmente, torna-se um mecanismo de defesa emocional, uma maneira de manter consistência interna diante de mudanças externas. Reconhecer esse comportamento é essencial: a cultura brasileira só se fortalece quando o público entende que apoiar o próprio produto não é endossar ideias específicas, mas valorizar a criatividade e o talento nacionais em sua pluralidade.

Além disso, a falta de torcida interna evidencia uma fragilidade cultural: a dificuldade de dissociar o valor de um produto ou artista das convicções pessoais do público. Aplaudir um sucesso brasileiro no exterior não significa concordar com todas as posições do criador; significa reconhecer a capacidade de representar a riqueza criativa do país. Essa incompreensão revela um paradoxo persistente: enquanto se espera que o mundo admire a cultura nacional, internamente ainda se luta para celebrar suas manifestações em toda a complexidade que possuem. Superar essa tensão é um passo necessário para construir uma identidade cultural sólida, capaz de se orgulhar de seus talentos sem subordinar o mérito à uniformidade de pensamentos ou ideologias.

Classificação Indicativa: Livre


TagsbrasiloscaridentidadeWagner MourapúblicosucessoculturafragilidadeanáliseconflitocriatividadeDiversidadereconhecimentocomportamentopsicologiatalentoIdeologiasPertencimentoProdutos culturais

Leia também


Torcidas, que lástima


BATOM NÃO