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Artigo

Seu filho não pode ter tudo, nem você

  |  Divulgação

Publicado em 05/11/2026, às 14h00   Divulgação   Luana Dantas

Há cenas conhecidas: chega a hora de desligar a tela, ir embora do parque, fazer a lição escolar, arrumar o quarto… a criança protesta e o adulto tenta explicar, negocia, explica de novo, procura uma maneira de encerrar a situação sem que ninguém fique insatisfeito. A criança explode, e o adulto volta atrás, não necessariamente porque desconheça a importância dos limites, mas porque também é difícil suportar a raiva de alguém que amamos, que queremos cuidar e, ao mesmo tempo, porque gostaríamos que nossos cuidados fossem sempre recebidos como amor, 

No atendimento a jovens e crianças, essas cenas são comuns: pais angustiados com uma guerra diária que não sabem como conduzir. Nesses momentos, eu me recordo sempre dos Rollings Stones, com Mick Jagger gritando que “Você não pode ter tudo o que quer.” Essa frase, que poderia ser dita por qualquer pai ou mãe, encontra eco em uma conhecida música dos Rolling Stones, “You Can’t Always Get What You Want”. Gosto de me lembrar dos vocais de Jagger por entender que nem tudo depende da permissão de alguém, porque há coisas que simplesmente não serão possíveis, mesmo que seus pais, avós, amigos e professores também te apoiem. Não se pode ganhar todas as vezes!

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E isso é frustante, terrível, e triste, e talvez esse seja o ponto porque é comum ouvirmos que as crianças de hoje não sabem lidar com a frustração, pedem demais, não aceitam esperar, reagem quando são contrariadas. E não tenho dúvidas de que essa questão merece atenção, mas talvez seja preciso incluir os adultos nessa conversa: como nós temos lidado com aquilo que não acontece do nosso jeito? O que sentimos quando um filho chora, grita, xinga, diante de uma decisão que precisamos sustentar?

A clínica com jovens e crianças ensina a olhar para o que está em jogo nesse encontro porque um filho ocupa um lugar no desejo dos pais, nas histórias que carregam, no que sonharam para si e não puderam viver, ou puderam viver e supõem que o filho também deva viver, e isso faz parte dos laços familiares. Mas sustentar um limite com um filho exige atravessar junto com ele a montanha de afetos que e

sse limite irá desencadear. E se manter junto com ele não significa ceder ao que se pede, mas sim, suportar a expressão dessa frustração sem, com isso, consentir com ofensas, manipulações e agressões.  

Um detalhe: o indicative é que esse impasse surge quando sobra pouco espaço para que essa criança seja alguém diferente do que imaginaram. Um pai ou uma mãe pode desejar tanto a felicidade de seu filho que qualquer tristeza, frustração ou raiva passe a ser vivida como uma falha sua. E, nesse ponto, sugiro mudar a frase da música de destinatário: ‘Os pais também não podem ter tudo o que querem, não poderão proteger os filhos de cada decepção, garantir suas escolhas ou ser amados sem ambivalência, sem conflitos ou impasses’. Uma criança pode amar os pais e sentir raiva deles, pode ser escutada e, ainda assim, precisar aceitar uma decisão que não lhe agrada, pois reconhecer seus sentimentos não exige atender a todos os seus pedidos.

Essa dificuldade não se produz apenas dentro de casa, vivemos cercados por promessas de satisfação e respostas rápidas para os desconfortos. Os adultos compram, isolam-se, deslizam a tela e procuram distrações quando não estão bem, as crianças fazem parte desse mundo, observam tudo! E nós nos apressamos em preencher o tempo delas, como se cada momento sem uma atividade fosse sinal de que estamos deixando de oferecer alguma coisa. Por isso, defendo a ideia de que os pais também precisam suportar não ter sempre uma proposta, permitir que o filho se entedie, fique sem saber o que fazer e possa inventar um destino para aquele tempo. Isso também exige disponibilidade, e sabemos que o cansaço, a sobrecarga e a ausência de apoio tornam mais difícil suportar a insatisfação dos filhos. Sendo assim, pensar sobre limites pede mais do que cobrar firmeza dos pais: é preciso ajudá-los a sustentar decisões, escutar o que elas provocam e também poder revê-las, se necessário, porque reconhecer um erro não desfaz seu lugar na relação. Ao contrário, a autoridade costuma ser mais bem aceita quando acompanhada de um comportamento coerente com aquilo que se exige deles.

Talvez uma das tarefas mais difíceis de criar um filho seja aceitar que o amor não nos torna capazes de completá-lo, haverá desejos que não poderemos atender e caminhos que ele precisará construir sozinho, inclusive contrariando nossas expectativas. A música dos Rolling Stones sugere que aquilo de que precisamos pode ser diferente do que queremos, mas quem pode saber de tudo de que um filho precisa? Também não teremos a confirmação de que acertamos sempre, nem de que nossos cuidados serão recebidos como amor. Frustrante, né? Ou como diz o Jagger: yeah, baby, a gente também não pode ter tudo.

*Por Luana Pinho S. Dantas / Psicóloga clínica, mestre em educação e contemporaneidade e coordenadora do Programa Infanto Juvenil da Holiste // @holistepsiquiatria

Classificação Indicativa: Livre


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