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A toga não deve ser guardada no púlpilto

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Publicado em 08/09/2026, às 06h19   Divulgação   José Medrado

Foram 37 anos de minha vida de 65 anos dedicados ao Judiciário Federal Trabalhista. Passei por salas de audiência, caminhei por corredores da alta administração, exercendo função ligada à presidência por 20 anos, 10 presidentes, pude também pelos contatos frequentes – implantei no Quinto Regional o Dia do Cidadão, que perdura até hoje, ali vi as dores e esperanças de trabalhadores e empregadores, aprendi uma lição fundamental: a toga não pode ser um símbolo de vaidade ou poder pessoal.

Ela deve representar a neutralidade serena, o escudo da lei e a garantia de que todos, absolutamente todos, serão tratados com a mesma equidade. Por isso, causa profundo desconforto assistir a cenas em que a liturgia da Justiça se confunde com o proselitismo religioso.

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Quando um magistrado — seja ele um juiz de primeiro grau ou um ministro das Cortes Superiores — associa a dignidade do seu cargo a dogmas de fé, pede orações em ambientes de culto ou permite que a toga passe pelo púlpito, quebra-se um pacto republicano essencial.

O Brasil é um Estado laico. Essa laicidade não é uma postura contra a fé, mas justamente a única salvaguarda da liberdade de todas as crenças e também do direito daqueles que não professam religião alguma. O templo do magistrado é a Constituição Federal; sua oração é o cumprimento rigoroso do devido processo legal; sua doutrina é o conjunto das leis do país.

Misturar a fé individual com o exercício da jurisdição é apequenar a Justiça. Quem busca o Poder Judiciário não quer uma bênção espiritual ou uma sentença fundamentada em preceitos morais de uma determinada igreja.

O cidadão busca a aplicação da lei fria, justa e imparcial. Espera que o julgador se dispa de suas convicções pessoais para ser a voz da ordem jurídica. Ao permitir que o púlpito avance sobre a bancada do tribunal, compromete-se a confiança pública na imparcialidade das decisões.

O Judiciário Federal não pertence a uma fé, a um partido ou a uma ideologia. Seu único compromisso é com a sociedade, com a cidadania e com a Carta Magna. Honrar essa trajetória de serviço público exige reconhecer que fé e Estado caminham lado a lado apenas quando mantêm a devida e respeitosa distância.

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