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A tragédia do espetáculo: quando a dor do outro vira moeda de troca por engajamento

O episódio de Darino Sena revela a falta de compaixão nas redes sociais e a busca por cliques e engajamento em momentos de vulnerabilidade  |  Foto: Arquivo pessoal / José Medrado

Publicado em 03/08/2026, às 23h30   Foto: Arquivo pessoal / José Medrado   José Medrado

Fiquei chocado, diante do que as pessoas podem fazer, a fim de buscar ser visto por seus perfis de redes sociais. Claro que este é o tempo que vivemos, e , naturalmente, não sou contra às pessoas fazerem de suas vidas o que lhes apraz a consciência. Todavia, O episódio recente envolvendo o jornalista Darino Sena em Salvador escancara uma patologia social que há muito tempo deixou de ser silenciosa: a perda completa da empatia em nome de alguns segundos de atenção digital. Na noite de 1º de agosto de 2026, sábado último, o jornalista e ex-apresentador da TV Bahia e da TV Aratu, passou por uma grave crise de saúde mental na Praça da Sé, no Centro Histórico de Salvador. Em visível estado de vulnerabilidade emocional e desorientação, o comunicador precisou ser contido pela Polícia Militar e socorrido pelo SAMU, que o encaminhou para atendimento médico especializado. Enquanto o episódio se desenrolava, diversas pessoas no local puxaram seus celulares para filmar a cena. Em poucos minutos, vídeos da situação degradante circulavam em redes sociais e grupos de mensagem acompanhados de deboche e busca por engajamento, em vez de atitudes de socorro ou proteção à dignidade do profissional. Não consigo entender como as pessoas podem se tornar tão impermeáveis à dor do outro.

Ver um ser humano em pleno surto psicológico, desamparado e exposto, deveria despertar uma única reação imediata: compaixão e busca por socorro. No entanto, o que se viu foi a cena grotesca de dezenas de telas iluminadas registradas não para salvar, mas para capitalizar. O impulso de transformar o sofrimento alheio em "conteúdo viral" sobrepôs-se ao dever mínimo de humanidade. Existe um limite ético e moral que a sociedade parece ter atropelado sem qualquer pudor. Uma crise de saúde mental não é entretenimento, não é meme e não serve de degrau para audiência ou likes. Expor alguém em seu momento de maior vulnerabilidade — despido de suas defesas e da própria razão — é uma forma de violência silenciosa, mas devastadora, que não maltrata apenas a família que, certamente, como a nota que li, está em amoroso acolhimento do profissional, que se encontra sob tratamento médico.

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Muito triste que a busca desmedida por cliques transformou espectadores em abutres digitais. Quando preferimos filmar o colapso de uma pessoa em vez de estender a mão ou pedir ajuda médica, falhamos como coletivo, evidenciamos a enfermidade de nossas almas. É preciso resgatar com urgência a noção de respeito à dignidade humana: a dor alheia não pode ser o espetáculo da vez. Filmar para denunciar crime, algo errado...sim, penso até ser obrigação, mas filmar alguém em situação de descontrole psicológico é, realmente, um túnel escuro em que nos encontramos. Vibro pela saúde de Darino Sena e de sua família.

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