BNews Gastrô
Publicado em 30/10/2026, às 14h00 - Atualizado em 31/10/2026, às 09h55 Arte/BNEWS Antonio Dilson Neto
Provavelmente você já assistiu a Ratatouille, a animação da Disney e da Pixar lançada em 2007. Ao lado do ratinho Remy, que sonha em ser chef, e do atrapalhado Linguini, há um personagem que carrega a memória de uma figura hoje quase em extinção: Anton Ego, o temido crítico de gastronomia.
No filme, meu quase xará é a figura mais temida de Paris, um vilão que tem a caneta como arma e é capaz de destruir carreiras e fechar restaurantes com poucas linhas de texto.
Quase sempre, o faz.
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O trabalho de Ego era experimentar, estudar e fazer uma crítica bem-feita e especializada de espaços, pratos e criações da gastronomia parisiense.
É por acreditar nesse tipo de olhar, exigente e independente, que o BNews estreia a sua crítica gastronômica. A proposta é conhecer, analisar e explorar a gastronomia soteropolitana, elogiando o que merece e apontando o que precisa melhorar, sem deixar que o nome da casa ou a amizade com o chef falem mais alto do que o prato.
Ego condensa o imaginário da crítica gastronômica francesa, por muito tempo considerada a mais exigente e contundente do mundo, e esse "poder" tem correspondência na vida real. Jornalistas e críticos como François Simon e Emmanuel Rubin tinham mesmo o poder e a fama de fazer e desfazer um restaurante com suas avaliações.
Em 2026, esse modelo parece ter perdido força e espaço nas publicações. Por quê?
Parte dos críticos virou celebridade, aproximou-se dos grandes chefs, e a crítica mudou de natureza, transformando-se numa espécie de ode às grandes cozinhas e às personalidades da gastronomia francesa.
O que era bom passou a ser inflado como se fosse superpoder, e o que não estava tão bom e poderia melhorar foi varrido para baixo de várias camadas de amizade.
Entretanto, esse formato já está esgotado e tem perdido a força. Ninguém está interessado em só ver vídeos e textos ultraelogiosos sobre todos os estabelecimentos da cidade.
A gente sabe que nada é tão perfeito assim o tempo todo.
Na França, o autor do perfil @Yann_Vous_Cuisine não mostra o rosto, não revela a identidade nem faz parceria com restaurantes. Só que ele posta tudo. O prato; o preço. E, principalmente, o que não gostou.
A audiência estrondosa do perfil se explica justamente pela falta de vontade de agradar. O que está bom é elogiado e o que custa 40 euros e é medíocre leva crítica, não importa o peso do nome da casa ou do chef.
Yann conta que já recebeu ofertas milionárias de restaurantes franceses para parar de publicar suas avaliações. Empresários e chefs que dificilmente seriam criticados em público agora precisam lidar com uma nota ruim dada por alguém que entra no salão sem ser reconhecido e que reúne 176 mil seguidores e 250 milhões de visualizações.
No Brasil, O Crítico Antigourmet, do jornal O Globo, já vinha seguindo esse caminho. Sob o lema “Primeiro a comida, depois a moral”, criticou com dureza o DOM e A Casa do Porco, dois dos restaurantes mais incensados e premiados do país.
Anton Ego, François Simon e Emmanuel Rubin só precisavam de uma mesa, uma caneta e a disposição de dizer o que achava. Em Salvador, mesas não faltam.
Bem-vindos.
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