Brasil

A relação entre educador e educando

Publicado em 30/08/2013, às 09h54      Maria Dolores Fiuza


Partindo do pressuposto de que os seres humanos são integrantes e se relacionam com o mundo, a vida só existe na relação do ser com o outro. As relações se estruturam por intermédio da interação das pessoas com instituições em diferentes contextos sociais, políticos e econômicos.

Assim, a educação escolar ocorre na interconexão do educando e do educador com o mundo, como complementa o educador brasileiro Paulo Freire (1999, p 47): “partimos de que o homem, ser de relações e não só de contatos, não apenas está no mundo, mas com o mundo, e que a educação se estrutura no respeito do outro e ao seu saber.” Diante deste contexto, o sentido da relação educador e educando se estrutura na abertura ao outro e na diversidade dos alunos de uma sala de aula. Relação inteira que provoca o encontro mútuo sem pressupostos anteriores.

Notamos, nos dias atuais, que prevaleceu a experiência e a utilização de pessoas, conhecimentos e relações, fruto de uma ciência positivista que por anos estruturou o pensamento e os caminhos da humanidade. Ao estabelecermos um diálogo com o ambiente escolar, vemos que as relações entre educador e educando se formam na atitude  “Eu e isso”, isto é, ao educador cabe a tarefa de dar aulas, usar metodologias de ensino e critérios de avaliação para verificar a aprendizagem dos alunos. Aparentemente um processo simples e seguro: dar a matéria e verificar o aprendizado. Em contrapartida, as cenas a que temos assistido nos bastidores da instituição escolar – indisciplina, agressão física, analfabetos funcionais – mostram a fragilidade de atuar apenas com o intelecto, de maneira restrita. Trata-se, portanto, de buscar brechas na regulamentação do cotidiano escolar para vivenciar relações humanas e vivas, o que engendra a necessidade de abertura, de disponibilidade de dar a mão ao outro.

Percebo em minha prática de educanda e educadora a reincidência da relação afetiva e prazerosa com uma disciplina interligada a laços afetivos criados com o educador, seja por um sorriso ou um acolhimento, ou ainda um desafio. O oposto ocorre na relação de terror com a disciplina devido ao medo ou pânico causado por um professor. Segundo Freire, o que importa, na formação docente, não é a repetição mecânica do gesto, ou este ou aquele, mas a compreensão do valor dos sentimentos, das emoções, do desejo, da insegurança a ser superada pela segurança. Sendo assim, o papel do educador na constituição das comunidades é fundamental.

Intencionalmente o professor educa com a sua vida, seus conhecimentos, desejos e desafios; nesta trajetória o papel do educador se estrutura em ajudar a desvelar, junto com a comunidade escolar, as cobranças sociais exigidas e, em diversos momentos, aceitas com naturalidade. A dificuldade dos adultos em aprenderem a lidar com a diversidade nas entranhas da modernidade é grande. O conhecimento linear requer reflexão, compreensão para lidar com a incerteza, com o erro e o diferente. Em outras palavras, os aspectos aqui citados refletem a criação de uma educação pautada em vínculos e parcerias. Os conflitos no ambiente escolar retratam esta dificuldade de lidar com a diversidade dos alunos. Portanto, é preciso ter cuidado com o ser humano em sua totalidade, com o corpo, a mente, os sentimentos, as emoções. O sentido das relações centra-se no movimento de repensar a educação dialogando com o outro através de uma constituição de comunidade, ou seja, grupos interdisciplinares. Para tanto, deve existir uma escuta refinada, participação efetiva do educador. Conversar significa estarcom, encontrar-se, religar-se, libertar-se. Não estou com isso buscando uma saída para a educação. Busco diversas saídas pautadas no contexto local dos educadores e educandos, em suas histórias de vida, vínculos grupais e essa entrelinha  potencializa a capacidade criadora de cada indivíduo.

A essência está na convivência com as diferenças no labirinto da educação, na coexistência com o outro. Lidar com a diferença propicia refletir, mudar de opinião, ser coerente com a visão de mundo, abrir-se para o diferente e para o inédito da vida.

Educar significa formar pessoas capazes de desejar um mundo melhor. Educar não significa letrar o aluno, fazer dele ambicioso a adentrar na academia e ansiar o diploma. Educar significa formar pessoas capazes de desejar um mundo melhor sendo melhores: respeitando, compreendendo, contribuindo na proliferação de sujeitos conscientes das suas potencialidades com afeto e disciplina.

A educação não parte de um momento próximo, a inteligência se apresenta desde a formação do homem. E é bíblico o convite ao saber:  no trecho “o verbo habitou entre nós”  (João 1:1-2 e 14), trata-se de um convite a multiplicar de forma clara a inclusão e a partilha dos saberes. Temos como um bom exemplo o filósofo Sócrates, que tentava levar o conhecimento sobre as coisas do mundo e do ser humano através da palavra e do diálogo. Assim, um mestre deve admitir que também não é senhor e dono da verdade, deve apenas saber que se encontra como mediador entre o que se pode ser conhecido e quem quer conhecer. Ao passo que um aluno deve se mostrar aberto a questionar o que considera como verdade absoluta. Caso contrário, permanecerá na escuridão do falso conhecimento e assim será uma fonte de erro, sem a possibilidade de suprir a carência de sua alma perante a realidade.

A educação tradicional preocupava-se muito com o retorno avaliativo.  Era  a forma de reconhecer as potencialidades dos aprendizes, através de provas, testes; entretanto, hoje se percebe que a avaliação, mesmo sendo importante no ambiente escolar, não é mais a meta primordial de retorno do conhecimento. O que importa atualmente é levar os alunos a amadurecerem os conhecimentos aprendidos. Deve-se ter como objetivo a formação dos alunos como pessoas e levá-los a terem um conhecimento real do conteúdo, ou seja, ajudá-los a aplicar no dia a dia. Com isto não se propõe um abandono à educação tradicional, mas a se considerar também o processo de aprendizagem dos alunos, cuja maior preocupação é com um sujeito participativo dos movimentos que favorecem o seu bem-estar.

Contudo, a educação cresce, com grandes propostas e investimentos, entretanto, sem coração; todos os conhecimentos, então, serão perdidos e retardarão a conquista de uma educação centrada no sujeito. Segundo Carl Rogers, “a abordagem centrada na pessoa refere-se à capacidade de relacionar-se com o outro.” É daí que surge a aprendizagem centrada no aluno. Ele nos convida a trabalhar a afetividade, a oportunizar a escuta e perceber o universo de cada aprendiz e suas frustrações; com essa interação, o sujeito se perceberá coparticipante dessa troca que é o saber e, por fim, irá se sentir participativo no progresso global. Enfim, a busca é por uma educação onde exista o resgate do poder do sujeito em construir em grupo, respeitando o processo de cada um e contribuindo para os avanços coletivos. Tendo em vista o conturbado ambiente que envolve o processo de aprendizagem, inclusive com graves problemas sociais por que passa o país, ter um diagnóstico com uma visão integral do sujeito possibilita encarar o fracasso escolar com um olhar animador, que conduz o ser a uma gama de novas perspectivas que, se bem observadas, contribuirão para uma conduta mais equilibrada nas relações interpessoais.

Certamente, a educação também luta por uma forma de educar holística, que atenda as necessidades do homem integral, despertando nele seus poderes e direitos enquanto homem criado para crescer e multiplicar saberes; entretanto, somente com a internalização do seu compromisso consigo possibilita e capacita para esses cuidados.

Uma educação que parte desse princípio de preparar o aprendiz despertando e cuidando como ser humano, reconstruindo um universo muitas vezes fragmentado, é que possibilitará uma consciência ampla para a sua contribuição e participação como multiplicador de uma espécie tão rica e completa: o homem. 

Classificação Indicativa: Livre


Tags