Cidades

Feira de Santana: detento morre por falta de assistência médica em presídio

Defesa da vítima disse que Jorge Pereira nunca recebeu tratamento; Seap foi questionada, mas a reportagem não recebeu nenhum posicionamento  |  Reprodução

Publicado em 11/10/2017, às 12h10   Reprodução   Adelia Felix

A precária infraestrutura das unidades prisionais na Bahia, geridas pela Secretaria de Administração Penitenciária (Seap), já foi por diversas vezes denunciadas pelo BNews. Nesta semana, a reportagem recebeu mais uma denúncia.  

O detento Jorge Pereira, 66 anos, preso desde janeiro deste ano, no Conjunto Penal de Feira de Santana, a cerca de 100 km de Salvador, morreu depois que seus problemas de saúde se agravaram na última quinta-feira (5). A família só foi avisada na manhã do dia seguinte. Ele estava internado no Hospital Geral Clériston Andrade.

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Além da diabetes, Jorge também sofria de instabilidade em posição erguida, dificuldade de locomoção, hiperreflexia generalizada, diminuição severa das vistas e hipertensão. Ao site, a defesa dele alega que o detento nunca recebeu assistência médica básica.

“Já entrou com todos estes problemas, os quais se agravaram dentro da prisão. Existia suspeita, por exames, de câncer na próstata e nunca foi levado para fazer os exames finais. Estava sem tratamento desde que entrou no presídio”, relata o advogado Fred Gitirana.

Um documento apresentado ao site aponta que o preso teria assinado um termo, responsabilizando-se pela não aceitação do tratamento prescrito na unidade de saúde prisional. A defesa questiona a veracidade do documento e as circunstâncias as quais o cliente teria sido submetido na assinatura do termo.

“Este documento nunca existiu, inclusive, quando entrei em contato com o setor médico da penitenciária de Feira, fui informado inúmeras vezes que estavam dando o tratamento, enquanto ele reclamava que era mentira. O mesmo era analfabeto, só sabia assinar o nome”, esclarece.

Na certidão de óbito, a causa da morte é descrita como “choque séptico”, resultado de uma infecção que se alastra pelo corpo rapidamente, afetando vários órgãos. É bastante comum em pessoas mais fracas, que não conseguem controlar a infecção, como crianças, idosos, e pacientes com câncer, insuficiência nos rins ou no fígado. 

Ainda na certidão, é detalhado que outro motivo que levou à morte do preso foi “erisipela em MMII”, um processo infeccioso da pele, que pode atingir a gordura do tecido celular, causado por uma bactéria que se propaga pelos vasos linfáticos. Comum em pessoas diabéticas, obesas e nos portadores de deficiência da circulação das veias dos membros inferiores. A vítima possuía uma ferida no joelho, segundo a defesa.

Por diversas vezes, o advogado acionou a Justiça para que o cliente cumprisse prisão domiciliar, o Ministério Público da Bahia (MP-BA) chegou a dar parecer favorável à pretensão da defesa, mas em todas as oportunidades o pedido foi negado pela Justiça. 

Jorge foi sentenciado pelo crime de atentado violento ao pudor, por ter feito “coito interfemures” com a sobrinha de 15 anos. Ao site, a defesa afirma que a jovem, hoje mulher, afirma que foi consensual, mas que na época foi pressionada pelos irmãos a dar uma versão contrária do fato.

Em uma petição encaminhada pela defesa ao Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA), o advogado questiona: “Por que esta Corte concedeu prisão domiciliar ao promotor Almiro Sena, acusado de uma série de abusos sexuais, que não demonstra qualquer doença aparente, mas nega a um homem de idade avançada, que tinha doenças documentalmente comprovadas? Há justiça? Por que os ricos ainda são tratados de forma diferente dos pobres, dos analfabetos sem expressão?”.

A Secretaria de Saúde do Estado (Sesab) foi procurada, e informou que "a assistência à saúde em presídios cabe à SEAP". Também procurada, a assessoria da Secretaria de Administração Penitenciária disse que responderia aos questionamentos feitos pela reportagem, mas nenhuma resposta foi enviada.

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