Cidades

O subúrbio que ninguém mostra

Publicado em 10/05/2015, às 13h57      Alessandro Isabel

Violência, tráfico de drogas, pobreza e abandono. Barracos, analfabetos e desempregados. Essa é a imagem construída por grande parte dos soteropolitanos que nunca pisou em solo suburbano. Considerada uma terra distante, longe da civilização, a região do Subúrbio Ferroviário abriga belas paisagens, povo acolhedor e tem a cara de Salvador. Escrevo com palavras de quem respira o ar, ainda puro, de uma das maiores áreas remanescentes de Mata Atlântica do país. Lá (ou aqui), no longínquo Subúrbio, ainda é possível escutar o canto dos pássaros, admirar os saguis, e observar o voo de gaviões e beija-flores. Colher frutas do pé. Aos montes. Temos guerra entre facções? Sim. Mas não abdicamos de viver. Ainda conversamos com o vizinho na porta de casa, jogamos dominó na porta do bar, e movimentamos uma economia forte.
O Subúrbio é uma grande metrópole. São 22 bairros. Quase 800 mil habitantes. E as belezas? A história? Muitos irão perguntar: O que vou fazer naquele lugar subdesenvolvido, de “gente feia” e casas por "rebocar"? Posso escrever diversos parágrafos sobre cada ponto histórico e com potencial turístico, além das celebridades que daqui brotaram e que aqui estão, mas uma rápida pesquisa na internet vai lhe ajudar mais. Fato é que os presidentes FHC, Lula e Dilma escolheram, dentre os 5. 570 municípios brasileiros, esse canto esquecido da cidade para passar os feriadões.
Saiba que a praia de Inema, que faz parte do paraíso chamado Base Naval de Aratu, é a mesma São Tomé de Paripe - um muro divide as duas. Para quem gosta de um banho de mar, com água tranquila, sem ondas e morna, visite uma praia suburbana. Quem não conhece a Ilha de Maré, tire um domingo para dar um pulo em mais um cantinho suburbano. E o Parque São Bartolomeu? Dê um pulo na igreja da Nossa Senhora da Conceição de Escada, erguida em 1536. A experiência diária não é das melhores, mas faça um passeio de trem num fim de semana. Sensação única. Agradável.
Confesso que fiquei "engasgado" quando recebi o Mapa Turístico fornecido pela Prefeitura de Salvador, onde a capital baiana vai da Ribeira até Itapuã. O Subúrbio vira uma grande área verde, excluído, como sempre, sem chances de aparecer e de se mostrar. Talvez os barracos não possam/devam sair na foto, talvez o povo humilde não fale outro idioma, talvez a falta de infraestrura e da presença do poder público seja mais visível aos olhos do turista, não podemos vender isso, mas podemos, e devemos, vender simpatia, simplicidade e mostrar o que temos de melhor. E temos o bastante.
Não posso maquiar a verdade. O paraíso não existe. Como toda Salvador, você poderá flagrar alguma imagem desagradável, mas a possibilidade de ações violentas são iguais a Barra, ou Itapuã - muito mais em Itapuã. Óbvio que não se deve entrar em local que não conhece, ser curioso o querer conhecer os "becos e vielas", o passei não precisa de tanta emoção, mas atesto que você não se arrependerá de passar uma tarde no Subúrbio.

Classificação Indicativa: Livre


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