Cidades
Publicado em 16/06/2026, às 05h20 - Atualizado às 05h26 Reprodução / www.pmvc.ba.gov.br Yuri Pastori
Vitória da Conquista, um dos principais polos culturais do interior da Bahia, assiste a um esquecimento da sua história. Os principais patrimônios culturais da cidade do sudoeste baiano completam anos com as portas fechadas infestados por cupins e risco de desabamento. Enquanto isso, a gestão municipal sob o comando da prefeita Sheila Lemos (União Brasil) é alvo de insatisfação da classe artística, da oposição e do cidadão conquistense por demonstrar outras prioridades.
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A Prefeitura de Vitória da Conquista contratou para a tradicional festa junina da cidade “Arraiá da Conquista” a empresa Salvador Produções Artísticas e Entretenimentos Ltda., situada na capital baiana e representada pelo produtor Marcelo Fernandes de Britto, para captar patrocínios privados retendo uma taxa de comissão de 19% sobre o montante arrecadado. A licitação foi feita por meio do Pregão Eletrônico nº 023/2025. O valor total do contrato com vínculo de quatro anos (2025 a 2028) pode chegar a até R$ 950.000,00 (novecentos e cinquenta mil reais). A empresa possui um capital social de R$ 1 milhão e 600 mil.
Procurada pelo BNEWS, a Prefeitura nega o repasse direto do valor firmado. Em nota, a gestão municipal afirmou que "não há pagamento de valor fixo de R$ 950 mil pela Prefeitura" e que o modelo baseia-se exclusivamente na comissão de 19% sobre os patrocínios privados captados, sem ônus desse montante para os cofres públicos.
O que diz a produtora
O BNEWS também procurou a Salvador Produções. Em nota, a empresa negou que Marcelo Britto possua contrato com o município, embora uma postagem no perfil oficial dele nas redes sociais mostre que ele participa da organização da festa. Uma consulta em dados da Receita Federal também comprova que ele é sócio-administrador da empresa.
"Quem mantém contrato com o referido município é a Salvador Produções, empresa que atua há 20 anos no segmento de entretenimento, com ampla experiência na realização, produção e comercialização de grandes eventos", diz o comunicado.
Teatro Carlos Jehovah
O caso mais emblemático do descaso é o Teatro Carlos Jehovah, único teatro municipal da cidade famoso por sua rara arquitetura em arena. Inaugurado em 1982 na Praça da Bandeira, o espaço cultural está fechado há quase cinco anos.
Vizinho a ele está o Mercado Municipal de Artesanato, que está com a estrutura apodrecida. Boatos de que seriam demolidos em 2021 assustaram a comunidade, embora a secretária de Administração tenha negado a informação na ocasião.
O mandato do vereador Alexandre Xandó (PT) destinou R$ 497 mil em emenda impositiva especificamente para a reforma do teatro. Em discurso na tribuna da Câmara de Vereadores de Vitória da Conquista, em novembro de 2025, o edil disse que a prefeitura simplesmente ignorou o recurso.
Desde agosto de 2023, Xandó entregou dossiês pedindo o tombamento do espaço. Segundo o parlamentar, a resposta da Secul um ano depois foi de que o "núcleo de patrimônio estava desativado", enquanto imóveis indicados por vereadores aliados da prefeita Sheila Lemos foram tombados rapidamente. Hoje, o teto corre risco de desabar. A Secult limitou-se a informar que a licitação para a reforma está em "fase preparatória"
Cine Madrigal
O Cine Madrigal, símbolo da era de ouro dos cinemas de rua, foi fundado em 22 de maio de 1968. O espaço faz parte da memória afetiva de gerações na Rua Sete de Setembro.
O prédio do Madrigal está fechado desde julho de 2007 e sofre com a deterioração do tempo. Atualmente, a responsabilidade foi empurrada para a Secretaria Municipal de Educação, que segundo a Prefeitura está desenvolvendo um projeto para transformá-lo em um "cine-teatro". No entanto, a gestão municipal não especificou o prazo para isso se concretizar.
Em maio de 2023, a Associação do Setor Audiovisual do Sudoeste Baiano (Sasb) lançou um manifesto em defesa da recuperação do equipamento cultural histórico.
Casa Glauber Rocha
A cobertura da residência onde viveu o maior cineasta da história do país e a figura mais ilustre de Vitória da Conquista está repleta de vãos sem telhas e o madeiramento está completamente podre, com risco iminente de desabamento total.
A prefeitura justificou ao BNEWS que está elaborando um projeto técnico para tentar buscar verbas via Lei Rouanet. De acordo com a Prefeitura, representantes da pasta já foram a Brasília alinhar o projeto com o Ministério da Cultura.
Classe artística se mobiliza
A classe artística e a sociedade civil decidiram agir por conta própria diante da inércia do poder público. Uma campanha de abaixo-assinado foi lançada em janeiro de 2025 por meio do perfil @movimentaculturavca e do MAC (Movimento Artístico e Cultural de Vitória da Conquista) para a entrega da Carta da Cultura aos poderes Executivo e Legislativo.
O documento tem 20 proposições iniciais que engloba diversas linguagens artísticas, e exige, com prioridade, a reabertura imediata e a revitalização do Cine Madrigal e do Teatro Carlos Jehovah.
"Não é possível que continuemos com tanto descaso, tanto desprezo e desrespeito. Não há quaisquer justificativas para que esses locais sejam completamente abandonados sob qualquer desculpa que seja", diz o manifesto.
Oposição critica política cultural da atual gestão
O vereador Alexandre Xandó (PT) avalia que há um contraste entre o potencial criativo da população local e a falta de investimentos e manutenção por parte do poder público municipal.
"Conquista sempre foi uma cidade que pulsou cultura, inclusive com festivais de música, festival do rock, enfim, as diversas vertentes culturais que sempre tivemos. Durante a gestão Sheila Lemos inteira, o Teatro Carlos Jehovah esteve fechado. O Madrigal é onde funcionava um cinema histórico da cidade, que foi adquirido pela prefeitura na gestão do ex-prefeito Guilherme Menezes no ano de 2016 e até hoje esse espaço permanece fechado sem nenhuma utilidade", declarou o petista.
"A casa Glauber Rocha é o espaço onde o cineasta nasceu e foi adquirido pela Prefeitura numa expectativa de se tornar ali um memorial, de ser um espaço cultural e permanece fechado e praticamente caindo aos pedaços", acrescentou o edil.
Com os equipamentos municipais fechados, a cidade conta atualmente apenas com o Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima, do Governo do Estado. "Vale destacar que isso não é uma questão de falta de recursos. A Prefeitura deixou voltar dinheiro que seria justamente para reforma de espaços de cinema da Lei Aldir Blanc, deixou voltar R$ 300 mil para o governo federal. Então é falta de vontade política e gestão ", disse.
Segundo dados do Ministério da Cultura, o município foi contemplado nos meses de julho e agosto de 2023 com R$2,72 milhões da Lei Paulo Gustavo. Deste total, R$333,1 mil foram devolvidos à União, após o valor não ter sido utilizado pelo governo municipal dentro do prazo estabelecido, que chegou ao fim em 31 de dezembro de 2024.
Segundo matéria publicada pelo Conquista Repórter, em 1º de janeiro de 2025, era possível identificar o saldo de R$330 mil na conta destinada ao setor audiovisual. Já na segunda conta, reservada para as demais áreas culturais, constava o saldo de pouco mais de R$ 1.600. Os valores ainda estavam em conta um dia após o prazo para o uso dos recursos.
A publicação revela que em outra ferramenta de transparência do Governo Federal, ligada ao Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, em 16 de janeiro de 2025, havia saldo de R$333,1 mil em conta. Dias depois, em 20 de janeiro, o valor estava zerado, pois já havia sido devolvido ao Fundo Nacional de Cultura.
"Essa gestão tomou uma decisão que foi de fortalecer o São João, mas acabou sendo em detrimento dos outros espaços. Então tem gastado cachês altíssimos com o São João que nós sabemos que acaba trazendo renda para a cidade, o turismo, a economia gira, mas ao mesmo tempo também numa lógica que não é a lógica de rua", explicou.
Xandó disse que as festas de Carnaval, Natal e aniversário da cidade foram extintas. Além disso, o vereador alega que as festividades são sempre feitas pela atual gestão numa lógica de espaços privados e prejudica os comerciantes.
"Não é uma festa que é feita em uma praça da cidade, mas dentro do Parque de Exposições sob a produção de uma empresa de fora da cidade, inclusive, com isso, os ambulantes da economia solidária falaram que não podem vender qualquer mercadoria, tem que ser aquela mercadoria específica, criando um camarote pago que é uma coisa que não tinha", explicou.
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