Cidades
Publicado em 26/07/2026, às 02h00 Reprodução/Youtube/Binho Gomes Camila Sales
O que parecia ser apenas uma disputa imobiliária no coração do Pelourinho, em Salvador, ganhou contornos dramáticos e explosivos justamente no ano em que a cinebiografia do "Rei do Pop", Michael Jackson, ultrapassou US$ 1 bilhão em bilheteria mundial.
O BNEWS obteve acesso exclusivo a áudios que revelam ameaças de prisão, acusações de invasão de domicílio e o verdadeiro estopim para a decisão judicial de reintegração de posse contra Carlos Alberto dos Santos, de 63 anos, após 17 anos cuidando da varanda eternizada no clipe de They Don't Care About Us (1995).
A decisão judicial que surpreendeu fãs, baianos e turistas aconteceu pouco mais de um mês após o local ter sido renovado. Em junho, o influenciador e jornalista Binho Gomes chegou a doar um novo totem de acrílico do artista para substituir a antiga estrutura desgastada, em um momento de celebração do espaço.
Contudo, o processo de reintegração de posse movido pela empresa My Falcam Brasil Empreendimentos - que tem como um dos representantes um italiano identificado como Silvano Lamberti - ganhou força após um desentendimento ríspido entre Carlos e a namorada do proprietário.
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Em áudios obtidos com exclusividade pela reportagem, a mulher, que afirma ter contatos na Segurança Pública, proibiu expressamente a entrada de qualquer turista na casa, alegando que o imóvel estaria interditado pela Prefeitura e pelo Corpo de Bombeiros.
Na gravação, ela chega a citar uma das maiores tragédias do país para justificar o temor de uma responsabilização criminal do companheiro.
"A casa está interditada. O Silvano vai responder a um processo por causa dessa porcaria. Seja o Papa, seja o prefeito, seja quem for! Ninguém entra mais naquela casa! Morre alguém, cai alguma coisa, e quem vai pagar o prejuízo é Silvano! Vou dar um exemplo para o senhor: o senhor lembra muito bem do que aconteceu na Boate Kiss? Quem responde é o dono", esbraveja a mulher nas gravações.
Ainda nos áudios, a mulher ameaça acionar a polícia caso os fãs de Michael continuassem subindo para tirar fotos, afirmando que fecharia o local e que quem estivesse lá dentro seria levado à delegacia por invasão de domicílio.
Em entrevista exclusiva ao BNEWS na manhã desta quarta-feira (22), enquanto ainda atendia os últimos turistas no casarão azul do Pelourinho, Carlos se defendeu. Na visão do comerciante, essa preocupação repentina com a segurança serve apenas como pretexto para que os proprietários se apossem do negócio desenvolvido por ele.
O idoso relata que há diversos interessados em assumir o local, motivados pelo fato de não haver cobrança de aluguel e pelo sucesso turístico do espaço, que chega a comover e atrair crianças que não conheceram Michael Jackson em vida.
Na prática, o acesso direto à famosa sacada do primeiro andar já era restrito no dia a dia devido a reformas, e os fãs limitavam-se a fotografar a fachada ou o térreo. Ele explicou que o conflito ocorreu justamente porque, antes de uma apresentação do Olodum, abriu uma rápida e limitada exceção, permitindo que alguns visitantes entrassem rapidamente apenas para fotografar o espaço, mediante cuidados com a sinalização, antes mesmo de as lojas vizinhas abrirem.
Na visão do comerciante, essa preocupação repentina com a segurança serve apenas como pretexto para se apossarem do negócio desenvolvido por ele. O idoso relata que há diversos interessados em assumir o local, motivados pelo fato de não haver cobrança de aluguel e pelo sucesso turístico do espaço, que chega a comover e atrair até mesmo crianças que não conheceram Michael Jackson em vida.
"Você cria uma coisa, as pessoas querem copiar e destruir a pessoa para dar seguimento", desabafou.
A dedicação de Carlos ao espaço impressiona não apenas pelo tempo de dedicação e pela rotina de estar no local às 5h da manhã, mas também pela matemática do compromisso. Ele próprio calcula que, desde 2009, colocando a música para tocar cerca de 20 vezes ao dia, já ouviu o hit de Michael Jackson aproximadamente 95 mil vezes.
Recentemente, foi surpreendido por exigências do Corpo de Bombeiros e da Defesa Civil (Codesal), que cobraram a instalação de extintores e pequenos reparos estruturais na laje - despesas que tiraram o sono do idoso. O carisma e o apelo social em torno de sua figura eram imensos, fazendo com que visitantes fizessem questão de comprar lembranças de R$5 ou R$10.
Durante quase duas décadas, o guardião não oficial de um patrimônio de R$1,3 milhão argumenta que protegeu o casarão do abandono e de possíveis invasões, sem nunca receber apoio financeiro dos proprietários para a manutenção.
Recentemente, foi surpreendido por exigências do Corpo de Bombeiros e da Defesa Civil (Codesal), que cobraram a instalação de extintores e pequenos reparos estruturais na laje - despesas que tiraram o sono do idoso. O carisma e o apelo social em torno de sua figura eram imensos fazendo que visitantes fizessem questão de comprar lembranças de R$5 ou R$10.
O objetivo era quase utópico: ajudá-lo a juntar dinheiro para comprar a casa. Um sonho que esbarrou na dura realidade de quem via a pequena renda diária ser imediatamente engolida pelas despesas básicas de sobrevivência, impedindo qualquer economia.
Todo esse legado de resistência cultural tombou diante de uma armadilha jurídica: um contrato de comodato (empréstimo gratuito) assinado em 2015. Na entrevista, o idoso garante que, ao colocar sua assinatura no papel, nunca compreendeu o peso jurídico daquele documento, nem que as cláusulas dariam à empresa o direito de expulsá-lo a qualquer momento.
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Agora, com a ordem da 9ª Vara Cível e Comercial autorizando o uso de força policial para a desocupação imediata, Carlos Alberto esvazia o imóvel e o próprio futuro. Abalado, ele chora ao projetar os próximos dias. Aos 63 anos, o comerciante lida com uma grave e dolorosa lesão na perna, uma úlcera que sangra frequentemente e exige a troca constante de curativos.
A venda das camisas e chaveiros do "Rei do Pop" era o que sustentava não apenas os medicamentos, mas o aluguel da casa onde mora com os filhos e uma rigorosa dieta de alimentos integrais, essencial para que seu quadro de saúde não piore.
Sem o casarão e sem dinheiro para reverter a situação, o guardião da varanda mais famosa da Bahia faz um último apelo, não mais pela memória do MJ, mas pela própria dignidade:
"Se eu sair daqui, eu vou tentar ver se consigo trabalhar de camelô. Queria pedir ajuda para conseguir um ponto, só pra botar minha banquinha e trabalhar em paz. Se eu for trabalhar de camelô na rua, não sei como vai ser, porque eu não tenho como me locomover direito. É daqui que tiro minha alimentação e meus medicamentos", revela.
A defesa de Carlos entrou com um recurso que seria julgado nesta quarta-feira (22), mas o prazo para a entrega do imóvel se esgotou na quinta-feira (23). O comerciante, temendo vingança e multas impagáveis, já que o processo cobra danos materiais em uma causa de R$1,3 milhão, orientou colegas a entregarem a chave ao oficial de justiça.
Procurada pelo BNews para comentar a decisão e o prazo relâmpago para a desocupação de um ponto turístico histórico, a juíza Ana Karena Nobre, titular da 9ª Vara Cível e Comercial e responsável pela liminar de despejo, informou, por meio de sua assessoria, que não concederá entrevistas. A magistrada declarou que "a decisão já traz os fundamentos e esclarecimentos sobre a questão, e que o prazo é o que a lei prevê".
O BNews também tentou contato com os representantes legais da My Falcam, mas não obteve retorno.
Para além da frieza burocrática de uma ação imobiliária ou de um contrato de comodato, a desocupação do casarão azul carrega um significado muito mais profundo.
A Varanda de Michael Jackson é, na prática, um patrimônio afetivo e cultural da Bahia e do Brasil. Quando o "Rei do Pop" subiu as escadarias em 1995, ao som dos tambores do Olodum, o Pelourinho foi projetado globalmente em um momento de afirmação da cultura afro-brasileira.
Diante de tamanho peso histórico, o desfecho do caso levanta um questionamento: por que um espaço de tamanha relevância não recebeu apoio público e privado para restauração e fomento?
O turismo brasileiro coleciona exemplos de que o caminho poderia ter sido outro. O Morro Santa Marta, no Rio de Janeiro, que dividiu as gravações com Salvador, abraçou a passagem do astro: ganhou uma estátua de bronze do cantor, um painel de mosaico e teve o turismo promovido e apoiado pelo Estado.
O que torna o cenário soteropolitano ainda mais desolador é o completo vazio de respostas sobre o dia de amanhã considerando que não foi divulgado o que será feito da casa após a entrega das chaves.
O casarão continuará sendo explorado turisticamente como a "Casa de Michael Jackson", mas com novos guardiões lucrando sobre a marca que Carlos ergueu? Será transformado em um comércio comum? Ou voltará a amargar o abandono e o risco de ruína de anos atrás considerando que o dono e a namorada não são residentes de Salvador?
Enquanto o destino do imóvel milionário é uma incógnita, o de Carlos exige urgência. Diante de suas condições, idade avançada, falta de aposentadoria e uma úlcera grave na perna que depende da renda diária da loja para curativos e dieta, um acordo que realmente o favorecesse precisaria ir muito além de apenas conceder mais alguns dias para a desocupação.
Uma resolução humana e justa exigiria, no mínimo, a indenização pelas benfeitorias e pela valorização turística agregada ao espaço ao longo de quase duas décadas. Precisaria garantir, também, um novo ponto no Pelourinho para que ele pudesse seguir trabalhando sem o receio de novos despejos, além da anulação absoluta de multas contratuais e cobranças judiciais.
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