Justiça

Moro fala sobre embate entre esquerda de direita e dispara: “criminoso é oportunista, não tem partido”

Magistrado participou do III Simpósio Nacional de Combate a Corrupção em Salvador   |  Adenilton Nunes // BNews

Publicado em 23/08/2018, às 14h57   Adenilton Nunes // BNews   Rafael Albuquerque

Durante participação no III Simpósio Nacional de Combate a Corrupção, que começou na manhã desta quinta-feira (23) no UCI do Shopping Barra, em Salvador, o juiz federal Sérgio Moro recebeu a Medalha Tiradentes, concedida pela Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (ADPF), e falou sobre importância de forças-tarefas e reconheceu “diferenças” entre PF e MP.

Também sobre a polêmica envolvendo prisão cautelar: “não há dúvida que a prisão deve seguir o julgamento, e não preceda. Mas a lei prevê a prisão cautelar por diversos motivos, inclusive para evitar a repetição do crime. Prisão preventiva é necessária, e quando há necessidade e prova robusta não fere o devido processo legal”. Ainda neste tema, Moro comparou a corrupção sistêmica e a necessidade da prisão cautelar ao famoso caso do “Maníaco do Parque”: “Não precisa o fim do processo para prender o indivíduo que comete o crime reiteradas vezes. É importante (a prisão) para mandar uma mensagem forte que a Justiça tem que passar para sociedade brasileira que é: ‘basta. Chega. Isso tem que parar’”. Moro ainda brincou sobre essa questão: “foram 115 prisões preventivas segundo dados do MP. Pra mim deveria ter tido mais, porque sou um juiz liberal”, disse arrancando risos da plateia. 

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Segredo de Justiça também foi outro assunto abordado pelo magistrado em sua fala: “no crime contra a administração pública a publicidade é mandatória. Antes diziam que Moro vazava isso ou aquilo. Moro não vazava nada. Eu não produzo as provas. Eu recebo e sou mensageiro e não há nada de errado nisso. Errado foram as ações que originaram as provas”. E bradou: “não consigo entender que em alguns lugares existam ações penais por crimes contra a administração pública sem que isso tenha a devida publicidade”.

Moro defendeu, mais uma vez, a prisão em 2ª instância: “não viola presunção de inocência. Na França e EUA a prisão já é a partir da 1ª instância, e não há quem diga que nesses países não haja presunção de inocência. O STF teve a sensibilidade de estabelecer isso em 2016. É um ponto fundamental e não pode ter retorno”. Em sua fala, o magistrado também disparou contra o empresariado: “na corrupção é fácil condenar o governo. Mas quem paga propina não é governo, é empresa. Se pode fazer muito no privado e na sociedade civil, independentemente do governo. Isso não exime a responsabilidade do poder público. O executivo e legislativo devem fazer sua parte, e fizeram poucos”. 

Moro também se posicionou contra o foro privilegiado: “os tribunais superiores não têm condições de dar a celeridade necessária aos processos com foto privilegiado. Isso gera impunidade e é contrário ao preceito básico da democracia de que todos são iguais perante a lei. Acho que deve extinguir para todas as autoridades, inclusive juízes. Não faço questão disso. Aliás, acho até inconveniente. É preciso evitar ou eliminar por completo”, destacou. 

Já respondendo a perguntas da plateia e do mediador, Moro falou rechaçou a ideia de propensão dessa ou daquela ideologia política à corrupção: “não vejo assim. A corrupção atinge a esquerda e a direita. Dizem que a Lava Jato foi usada para perseguir partidos e lideranças de esquerda. Se estamos num processo de corrupção governamental, se isso envolve executivos da principal estatal do País e diversos empresários, é natural que os casos envolvam os políticos dessa coalisão”. Moro completou: “criminoso é oportunista, não tem partido”.

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