Justiça
Publicado em 09/07/2026, às 10h51 Reprodução Redação Bnews
Livre há dois anos, o ex-estudante de Medicina Mateus da Costa Meira, de 51 anos, voltou a chamar atenção pública após ser visto frequentando o Shopping Barra, em Salvador, onde circula por cafés, livrarias e salas de cinema.
Condenado pelo ataque a tiros que matou três pessoas e deixou outras quatro feridas em uma sala de cinema do Morumbi Shopping, em São Paulo, em 1999, o homem que ficou conhecido como “Atirador do Shopping” foi solto pela Justiça da Bahia em 2024, após cumprir 25 anos sob custódia do Estado.
A presença de Mateus em um ambiente semelhante ao cenário do crime que o tornou conhecido gerou repercussão entre frequentadores e lojistas do centro comercial, que passaram a compartilhar imagens dele em grupos de WhatsApp. As informações são de Ullisses Campbell, que assina a coluna True Crime, do jornal O Globo.
O caso voltou ao debate público por causa da trajetória do ex-estudante de medicina, marcada pelo massacre ocorrido em uma sala de cinema, pela condenação judicial, pela internação em um hospital psiquiátrico em Salvador e pelos episódios revelados durante o processo.
O ataque no cinema do Morumbi Shopping
Na noite de 3 de novembro de 1999, Mateus da Costa Meira, então com 24 anos, entrou na sala 5 do cinema do Morumbi Shopping, em São Paulo, onde era exibido o filme “Clube da Luta”.
Antes de iniciar os disparos, ele foi ao banheiro do cinema e atirou contra um espelho. Depois, retornou à sala, sacou uma submetralhadora MAC-11 e disparou contra o público.
O ataque matou a fotógrafa Fabiana Lobão Freitas, de 25 anos; o economista Júlio Maurício Zemaitis, de 29 anos; e a publicitária Hermé Luísa Jatobá Vadasz, de 46 anos. Outras quatro pessoas ficaram feridas.
Naquele momento, muitos espectadores chegaram a acreditar que os sons dos disparos faziam parte do áudio do filme que estava sendo exibido.
1. O episódio do espelho antes do massacre
Um dos detalhes que chamaram atenção nas investigações foi o momento em que Mateus entrou no banheiro do cinema antes do ataque e disparou contra um espelho. O episódio passou a ser citado como uma etapa anterior à ação dentro da sala de exibição.
2. A escolha do filme “Clube da Luta”
Durante depoimentos, Mateus afirmou que a escolha do filme exibido naquela noite tinha relação com a identificação que dizia ter com o personagem principal da produção, interpretado pelo ator Edward Norton. Segundo o relato dele, a história do personagem, que apresentava transtornos mentais e delírios, teria influenciado sua decisão.
3. O bisturi levado para um cinema de Salvador em 1993
Durante o julgamento realizado em São Paulo, em 2004, Mateus revelou que anos antes do massacre já havia entrado em um cinema de Salvador portando um bisturi.
Segundo o relato feito à Justiça, o episódio aconteceu em 1993, quando ele morava na capital baiana e enfrentava uma frustração relacionada ao curso de medicina. Ele afirmou que chegou a ter vontade de ferir ou matar pessoas, mas não houve agressão física, feridos ou registro policial.
Na ocasião, ao ser questionado pela juíza sobre o motivo de escolher um cinema como local para seus impulsos violentos, Mateus afirmou:
“Eu me sentia perseguido, ouvia vozes e sussurros. Começou na adolescência. De certa forma, queria me livrar dessas vozes”.
A informação só se tornou pública anos depois, durante o depoimento judicial.
4. A agressão contra o próprio pai
Durante o processo, também foi revelado que Mateus havia agredido o próprio pai, que era médico.
Segundo os relatos apresentados no julgamento, ele afirmou ter dado um golpe no pai, que teria sofrido três costelas quebradas.
A defesa utilizou esses episódios anteriores para argumentar sobre a condição psiquiátrica do réu.
5. O livro digital sobre o próprio crime
Após deixar a custódia do Estado, Mateus publicou o e-book “Dentro da Escuridão: A Vida, a Mente e o Crime de Mateus da Costa Meira”.
Na obra, ele aborda o massacre do Morumbi Shopping sob sua própria perspectiva e utiliza documentos judiciais e laudos periciais relacionados ao caso.
Um dos pontos que chamou atenção foi a forma de narrativa. Em partes do livro, Mateus utiliza a terceira pessoa para descrever acontecimentos relacionados ao próprio crime.
Além do próprio caso, ele também publicou livros digitais sobre outros crimes de grande repercussão, como os assassinatos de Isabella Nardoni, o caso Suzane von Richthofen e o massacre de Columbine, nos Estados Unidos.
6. A sala do massacre foi fechada após a tragédia
A sala 5 do cinema do Morumbi Shopping, onde ocorreu o ataque em 1999, foi fechada após a tragédia.
Anos depois, em 2012, o complexo de cinemas do shopping foi desativado para dar lugar a novas lojas, alterando o espaço físico que ficou marcado pelo crime.
A condenação e a internação em Salvador
Mateus da Costa Meira foi inicialmente condenado a 120 anos e 6 meses de prisão. Posteriormente, o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) reduziu a pena para 48 anos e 9 meses.
Em 2011, a Justiça da Bahia considerou Mateus inimputável, ou seja, entendeu que ele não poderia cumprir pena comum em razão de seu diagnóstico psiquiátrico. A partir disso, ele passou a cumprir medida de segurança, com tratamento psiquiátrico, no Hospital de Custódia e Tratamento (HCT), em Salvador.
A liberação foi determinada pelo Tribunal de Justiça da Bahia. O processo tramita em segredo de justiça, e os detalhes do parecer clínico que levou à desinternação não foram divulgados.