Justiça

Após decisão do STF liberar doação de sangue por gays e bissexuais, Hemoba é investigada por suposta recusa

Denúncias de discriminação na doação de sangue levam MP-BA a monitorar atuação da Hemoba  |  Nguyễn Hiệp/Unsplash

Publicado em 29/07/2026, às 13h20 - Atualizado às 13h26   Nguyễn Hiệp/Unsplash   Matheus Simoni

O Ministério Público do Estado da Bahia (MP-BA) vai acompanhar a atuação da Fundação de Hematologia e Hemoterapia da Bahia (Hemoba) diante de denúncias de que a instituição estaria recusando doações de sangue de pessoas da comunidade LGBT+.

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A medida foi tomada através da instauração de um procedimento administrativo estrutural, assinado pela promotora de Justiça Márcia Regina Ribeiro Teixeira, da 4ª Promotoria com atribuição de proteção dos direitos da população LGBTI+ e combate à LGBTfobia. O órgão é vinculado à 1ª Promotoria de Justiça de Direitos Humanos de Salvador, que trata de denúncias e investigações dessa natureza.

Segundo o MP-BA, os relatos chegaram ao Ministério Público durante a execução de um mutirão realizado na sede da empresa em Salvador voltado ao acolhimento e encaminhamento de pedidos de retificação de prenome e gênero para pessoas trans e travestis. Foi nesse contexto que cidadãos da comunidade LGBT+ relataram à Promotoria que a Hemoba estaria recusando a doação de sangue de indivíduos do grupo.

Para a promotora, o fato de essas denúncias terem surgido justamente em um espaço dedicado à promoção da dignidade e da identidade cidadã evidencia a conexão entre diferentes formas de exclusão enfrentadas pela população LGBT+: enquanto uma frente de atuação do Ministério Público busca viabilizar a retificação de registro civil conforme a identidade autopercebida, barreiras discriminatórias no momento da doação de sangue representariam, segundo ela, um retrocesso à cidadania dessas mesmas pessoas.

O MP-BA lembra que o Supremo Tribunal Federal (STF), em julgamento realizado em 2020, decidiu de forma definitiva e com efeito vinculante que é inconstitucional restringir a doação de sangue de homens homossexuais e bissexuais. Para o órgão máximo do Poder Judiciário, a triagem de doadores deve se basear em critérios científicos objetivos ligados a condutas individuais de risco, e não na orientação sexual do candidato a doador.

Hemoba é alvo do MP-BA após suposta recusa de doação de sangue (Foto: Carol Garcia/GOVBA)

O documento também cita uma resolução da Anvisa que revogou formalmente os trechos considerados discriminatórios de uma norma anterior sobre triagem de doadores de sangue, além de ajustes feitos em portaria do Ministério da Saúde no mesmo sentido.

Para a Promotoria, a recusa imotivada de doadores por pertencerem a minorias sexuais viola os princípios da igualdade e do pluralismo, além de frustrar o caráter voluntário, altruísta e solidário que deveria orientar todo o ciclo do sangue, desde a captação à transfusão. A promotora ainda destaca que a Constituição Federal elege a dignidade da pessoa humana como um dos fundamentos da República e veda expressamente qualquer discriminação baseada em sexo, gênero ou orientação sexual.

Os próximos passos

O procedimento administrativo estrutural, instrumento escolhido pelo MP-BA, serve para reunir informações preliminares sobre fatos que possam configurar lesão a interesses difusos e coletivos, podendo resultar tanto em soluções consensuais quanto em base probatória para uma eventual ação civil pública ou termo de ajustamento de conduta, caso as irregularidades sejam confirmadas.

Com a instauração, formalizada em 15 de julho, a Promotoria passa a acompanhar de forma estruturada a conduta técnica e administrativa da Hemoba especificamente quanto ao tratamento dado a doadores de sangue da comunidade LGBT+.

O que diz a Hemoba?

Procurada pelo BNews, a Hemoba declarou que não existe qualquer restrição à doação de sangue baseada na orientação sexual ou identidade de gênero dos candidatos à doação. "Todos os cidadãos podem doar sangue, desde que atendam aos critérios técnicos e sanitários estabelecidos pela legislação vigente para a seleção de doadores", diz a pasta.

Os critérios adotados pela Hemoba, de acordo com a fundação, seguem as normas do Ministério da Saúde e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), em conformidade com a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF).

"Durante a triagem clínica, todos os candidatos são submetidos aos mesmos protocolos de avaliação, aplicados de forma igualitária e baseados em evidências científicas, com a garantia do sigilo médico, não sendo possível tornar público o motivo da inaptidão de um determinado doador. A seleção dos doadores considera aspectos relacionados ao estado de saúde, histórico clínico e situações que possam representar risco para a segurança transfusional, conforme previsto na Portaria de Consolidação nº 5, de 28 de setembro de 2017, do Ministério da Saúde, atualizada pela Portaria GM/MS nº 11.685, de 2 de julho de 2026, e demais normas sanitárias vigentes", sustenta a Hemoba.

A fundação ainda diz que a portaria ministerial reforça que a avaliação da aptidão para a doação de sangue deve ser realizada de forma individualizada, com base em critérios técnicos e científicos, "vedando qualquer distinção fundamentada na orientação sexual, identidade de gênero ou outras características pessoais dos candidatos à doação".

"A Hemoba reafirma seu compromisso com o respeito à diversidade, à promoção dos direitos humanos e ao acolhimento de todos os cidadãos que desejam realizar esse ato voluntário e solidário de salvar vidas", ressalta.

Classificação Indicativa: Livre


TagsMP-BAstfHemobaDoação de sanguediscriminaçãoLGBT+

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