Justiça

"Até a máfia tem ética": Gilmar Mendes dispara contra métodos no STF e aponta lógica de acobertamento em investigações

O ministro pediu uma sindicância rigorosa para apurar indícios de corrupção entre magistrados, sem privilégios ou proteção  |  Foto: Divulgação

Publicado em 15/09/2026, às 13h03   Foto: Divulgação   Claudia Cardozo

O decano do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Gilmar Mendes, disparou duras críticas aos colegas de toga durante a sessão plenária da manhã desta terça-feira (15), designada para analisar a  Petição (PET) 16.662. O ministro Gilmar Mendes criticou a condução de investigações relacionadas ao Banco Master, o vazamento seletivo de dados e o que chamou de tentativa de arrastar o tribunal para o meio das eleições.

Sem meias palavras e utilizando metáforas duras para classificar a dinâmica interna de poder e proteção entre magistrados, o decano disparou contra a falta de colegialidade e comparou práticas recentes a códigos mafiosos:

Siga o BNews no Google e receba as principais notícias no seu celular

Isso não é apenas uma investigação irregular, é uma simetria, por exemplo. Quem detém sozinho aquilo que pode alcançar outros integrantes do colegiado, passa a exercer sobre eles algum tipo de ascendência. Outro que se vê: 'Eu protejo você'. Relação de máfia. Isso não se faz. Não é ambiente de pessoas dignas", esbravejou Gilmar.

O "vício eleitoral"


Em sua exposição, o ministro voltou a enfatizar que o relatório central da apuração teria sido propositalmente gerido e o sigilo levantado de forma monocrática com o claro intuito de constranger pares e jogar a opinião pública contra posições divergentes no plenário, bem como influenciar o pleito eleitoral:

"O relator aguardou a chegada do período eleitoral para encomendar o relatório, que muito provavelmente implicaria exatamente quem ele buscava implicar. Mais grave do que isso, antes que a questão fosse efetivamente submetida ao plenário, monocraticamente levantou o sigilo do relatório, a fim de constranger qualquer posição contrária à sua atuação. O que está parecendo mesmo? O que o intuito aqui é jogar com o caos."

O decano classificou a tentativa de envolver a Suprema Corte em disputas políticas como uma manobra irresponsável de agentes que perderam a noção institucional:

Se deram muito mal, porque são aprendizes de feiticeiro. Tentaram arrastar o Supremo Tribunal Federal para esse tipo de prática e pensar que ele ia ficar imunes e impunes é de uma desfaçatez de corar frade de pedra. Em nome de Deus já se fez muita patifaria, repito."

A máfia 


Aprofundando as críticas sobre o tratamento dado aos nomes de autoridades citadas no âmbito de apurações ligadas a casos sensíveis, como o escândalo envolvendo o Banco Master, Gilmar Mendes reprovou veementemente a seletividade no recorte das investigações e cobrou transparência total sobre todos os magistrados eventualmente mencionados, sejam do STF, Superior Tribunal de Justiça (STJ) ou de outras instâncias:

Não é admissível que em um conjunto de fatos se destaque em alguns para exames e se relegue em outros ao silêncio. Um jogo de comédia, de máfia. Como se a gravidade da notícia variasse conforme o nome do magistrado a que se refere ou conforme o tribunal que ele integra. A apuração parcial é a apuração viciada, porque o recorte do objeto já constitui, ele próprio, um juízo prévio sobre o que merece e o que não merece ser apurado."

O ministro foi ainda mais enfático ao apontar que nem mesmo estruturas criminosas tradicionais operariam sob a lógica de falta de lealdade institucional que, segundo ele, estaria se instalando no ecossistema de vazamentos e pressões veladas:

"Até a máfia tem princípio, tem decência, não se comporta dessa forma. Não se comporta dessa forma um tribunal que, se isso adivinha, já não delibera com liberdade. As pessoas estão submetidas, submissas, entregues a esse tipo de vilipêndio."

Proposta de certificação e saneamento


Apoiando a tese apresentada pelo ministro Flávio Dino, Gilmar concluiu sua questão de ordem exigindo a suspensão temporária do julgamento para a reunião das petições conexas (PET 16.662 e PET 16.704) e a formalização de uma sindicância rigorosa para certificar e apurar, de forma isonômica e sem privilégios corporativos, o nome de qualquer magistrado do país que possua indícios de recebimento indevido de valores.

Classificação Indicativa: Livre


TagsSTJcorrupçãoapuraçãostfgilmar mendesSupremo Tribunal FederalinvestigaçõesMáfiaFlávio DinoBanco MasterVício eleitoral