Justiça
Publicado em 08/09/2026, às 09h40 Foto: AGU Claudia Cardozo
A crise no Supremo Tribunal Federal (STF) se agrava a cada dia que passa. Nesta terça-feira (8), o ministro André Mendonça, ao pedir o afastamento do diretor da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, denunciou que vem sendo alvo de espionagem por parte do setor de inteligência da corporação. Mendonça também determinou o afastamento do diretor de Inteligência Policial, Leandro Almada da Costa.
André Mendonça, que mantém uma relação próxima com o advogado-geral da União, Jorge Messias, que foi rejeitado para uma vaga no STF, afirmou que a espionagem chegou ao principal gabinete da Advocacia Geral da União (AGU). Segundo o ministro, a devassa vinha acontecendo há pelo menos um mês, baseada em expedientes apócrifos que ele definiu como uma aberração jurídica.
"Ou seja, ao menos há mais de 30 dias este relator tem sido monitorado pela Polícia Federal. Trata-se de monitoramento ilícito de Ministro da Suprema Corte do país, o que por si só revela a gravidade da situação", cravou Mendonça no despacho.
Além do que chamou de "monitoramento sistemático e ilegal", Mendonça demonstrou o conteúdo de documentos de inteligência que tentavam dissecar sua proximidade pessoal e funcional com o advogado-geral da União, Jorge Messias. Ambos são publicamente próximos e compartilham trânsito no segmento evangélico.
Nos papéis elaborados pela PF, os analistas tentavam justificar por que Messias não havia recorrido de decisões de Mendonça nas operações "Sem Desconto" e "Compliance Zero". Para o ministro, o texto policial se perdeu em construções fantasiosas. "Identificam-se ilações extremamente genéricas e abstratas, feitas a partir de 'juízos' inferenciais que, nos seus próprios termos, 'encadeiam-se em cadeia de múltiplos elos', para concluir que o Advogado-Geral da União não teria deferido o pedido formalizado pelo Diretor-Geral da Polícia Federal para recorrer de decisões (...) porque teria decidido com o propósito de preservar 'relação política com o relator'", destacou o magistrado.
Mendonça foi além e apontou que os próprios autores do dossiê reconheciam a fragilidade técnica do que estavam fazendo. O material trazia anotações de que possuía "confiança agregada baixa" e método de "suspeição reversa" ao admitir que a própria PF era "parte interessada" na causa. Mesmo assim, os responsáveis recomendaram ações ostensivas:
"Assim, à luz desses e dos demais elementos trazidos no 'documento' apresentado, se evidencia a efetiva realização de MONITORAMENTO e COLETA DIRIGIDA sobre a pessoa deste Ministro do Supremo Tribunal Federal e sobre a pessoa do Advogado-Geral da União", frisou.
Ao analisar outro anexo do dossiê, Mendonça disparou adjetivos duros, acusando os agentes de realizarem "abjeta e leviana acusação" ao insinuarem que uma "matriz religiosa comum" e o apoio de igrejas teriam pautado a conduta de Messias. Os dois são evangélicos.
O ministro classificou como "surreal" o fato de a polícia tentar fazer futurologia sobre escolhas privativas do Palácio do Planalto. Um dos trechos dos relatórios confidenciais tentava medir o impacto da conduta da AGU na sucessão judicial de Lula:
"Tamanha é a surrealidade do 'documento', que avança inclusive em análises sobre juízo discricionário a ser exercido, de modo exclusivo e soberano, até mesmo pelo Presidente da República. Quanto ao ponto, o 'documento' traz avaliação de que 'a escolha do Advogado-Geral da União por priorizar seu relacionamento com o relator, em detrimento da redução dos riscos de exploração política do caso envolvendo o filho do Presidente da República, eleva substancialmente a percepção de risco associada a eventual renovação de sua indicação ao Supremo Tribunal Federal neste momento'".
Para André Mendonça, a estrutura da PF extrapolou qualquer barreira republicana, instaurando um tribunal paralelo para vigiar os fundamentos das decisões do Supremo e o trabalho de delegados. O ministro comparou a investida ao ambiente asfixiante do clássico distópico de George Orwell:
Diante do quadro ora apresentado, que mais se assemelha ao cenário concebido por George Orwell em sua célebre distopia, intitulada '1984', verifica-se, a mais não poder, que a produção dos 'relatórios de inteligência' em questão (...) revelam fatos de extrema gravidade, com repercussões não apenas no plano institucional, mas também quanto à segurança e integridade pessoal de integrante deste Supremo Tribunal Federal", ressaltou.
O documento também continha capítulos intitulados "Riscos decorrentes da atuação do juízo relator" e avaliava o "standard probatório" de despachos judiciais, o que, segundo o magistrado, evidencia a "óbvia finalidade de escrutinar o exercício da atividade jurisdicional".