Justiça

Juíza ajuda filhas a prepararem surpresa emocionante de Dia dos Pais para oficializar paternidade socioafetiva na Bahia

O reconhecimento da paternidade socioafetiva traz não apenas um sobrenome, mas também direitos e dignidade para Luan e suas filhas  |  Foto: Divulgação / Acervo Pessoal

Publicado em 10/08/2026, às 14h10   Foto: Divulgação / Acervo Pessoal   Claudia Cardozo

Existe um velho ditado que diz: “pai é quem cria”. E foi por isso, baseado neste sentimento, que a Justiça reconheceu a paternidade socioafetiva em uma família de Camaçari. Ainda na adolescência, com 17 anos Luan Douglas Barbosa da Silva assumiu a missão de cuidar de duas meninas ainda bebês, frutos do relacionamento anterior de sua esposa, Catiane Santos Lustosa.

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Passados 14 anos, agora, oficialmente, Luan se tornou oficialmente pai das meninas que tanto ama. E para selar esse reconhecimento, com a ajuda da juíza Fernanda Vasconcelos, da 1ª Vara de Família de Camaçari, as filhas fizeram uma surpresa emocionante neste domingo (9), Dia dos Pais.


Mas antes, é preciso contar como começou. Quando Luan conheceu Catiane, Sofia tinha apenas um ano e Sabrina, seis meses. O pai biológico havia abandonado as crianças sem prestar assistência financeira ou afetiva. Mesmo jovem, Luan não hesitou em assumir a responsabilidade.


Sempre foi um sonho para mim ser pai. Quando conheci as meninas, mesmo não sendo do meu sangue, amei como se fossem minhas. São 14 anos de dedicação, de empenho, e nada mais justo do que dar o meu sobrenome para elas. Sentia isso como um dever", relata Luan Douglas.


O caminho não foi isento de julgamentos externos. Catiane relembra com emoção o início do relacionamento e as críticas que ouvia por estar com um jovem de 17 anos enquanto já era mãe de duas bebês.


Todo mundo falava: 'Você é louca, ele é muito novo'. Se eu tivesse escutado as críticas, hoje não estaria aqui, feliz, vendo ele cuidar tão bem das minhas filhas. Ele foi o pai que elas nunca tiveram da parte biológica. Sempre esteve presente nos momentos bons e ruins, em reuniões da escola, emergências médicas e datas comemorativas", conta a mãe.


Conforme foram crescendo e amadurecendo a decisão, processo que contou com acompanhamento psicológico, as próprias filhas expressaram o desejo de retirar o sobrenome do pai biológico e adotar formalmente o nome de Luan. O genitor foi citado no processo e concordou com a alteração sem gerar disputas judiciais.


O entrave burocrático, que já durava quase um ano, pesava sobre a rotina da família. Catiane desabafa sobre o desconforto que sentia ao precisar explicar a ausência do nome do marido nos documentos: "Eu odiava ter que dizer que ele era 'padrasto'. Ele sempre foi o pai de fato. Hoje, ao levar os novos documentos na escola para atualizar tudo, sinto uma realização enorme. Não existe mais essa palavra. Agora é pai e pronto."

A "operação secreta" 
A reta final do processo tomou um rumo inusitado e afetivo dentro do próprio fórum. Durante a primeira audiência, a ausência de Sofia e Sabrina fez com que a juíza Fernanda Vasconcelos precisasse adiar o encerramento do caso para ouvir as jovens formalmente. A decepção estampada no rosto de Luan ao saber que o processo não terminaria ali sensibilizou a magistrada.


A gente encontrou a Dra. Fernanda, que foi um anjo nas nossas vidas e deu uma força imensa. Quando ela conheceu o caso, tomou para ela e nos ajudou bastante", destaca Catiane com gratidão.


Para resolver o impasse sem comprometer o trabalho do pai, a juíza remarcou a oitiva das jovens para a semana seguinte, orientando que apenas a mãe e as filhas comparecessem. Foi durante esse depoimento que surgiu a ideia de transformar a burocracia em um presente inesquecível.


Um servidor da Vara de Família e assistente da magistrada, sugeriu criar uma "farsa do bem": orientaram a família a dizer a Luan que o processo atrasaria porque a promotora estaria viajando e precisaria emitir um parecer posterior. Nos bastidores, contudo, a engrenagem da Justiça acelerou sob a articulação da juíza Fernanda Vasconcelos.

No Instagram, a juíza falou da emoção de atuar no caso. A magistrada compartilhou com os seguidores a alegria de ver o desfecho bem-sucedido e contou que chorou bastante ao ver o vídeo com a reação de Luan: "Foi a coisa mais linda do mundo. Eu chorei tanto vendo o vídeo [da surpresa]".

Ao BNews, ela falou que só fez o seu trabalho: "trabalhar em uma Vara de Família é lidar diariamente com algumas das questões mais sensíveis da vida humana. É um trabalho muitas vezes penoso, porque por trás de cada processo existem afetos, dores, expectativas e histórias de vida. Mas é também extremamente gratificante perceber que, por meio do nosso trabalho, podemos transformar concretamente a vida das pessoas".

Não considero que tenha feito nada extraordinário. Cumpri a minha obrigação como juíza: prestar a jurisdição da melhor forma possível, sem perder de vista que, por trás dos números e dos processos, existem vidas que passam pelas nossas mãos. E são momentos como esse que nos lembram do verdadeiro sentido do nosso trabalho".

A Promotoria emitiu o parecer com urgência e renunciou ao prazo recursal para agilizar os trâmites. Em seguida, a equipe da Vara Judicial entrou em contato com o Cartório de Registro Civil, pedindo prioridade para que a emissão dos documentos ocorresse antes da data comemorativa, já que o prazo regular estouraria o Dia dos Pais. O cartório atendeu ao apelo e entregou as certidões atualizadas a tempo.


Com os novos documentos em mãos, Sofia e Sabrina montaram uma caixa de presentes especial para surpreender o pai. Elas picaram os registros de nascimento antigos para fazer confetes e usaram os papéis para esconder as novas certidões no fundo do pacote.

Eu não esperava de forma alguma. Falei para mim mesmo que o processo iria demorar, mas Deus foi abrindo os caminhos. Receber essa surpresa e a certidão foi uma vitória, um sonho realizado", comemora Luan.


Dignidade e direitos assegurados
Além do amparo emocional e da presença reconhecida nos documentos escolares, a formalização da paternidade socioafetiva traz desdobramentos práticos na garantia de direitos. Com a nova certidão em mãos, Luan já deu entrada na inclusão das filhas no plano de saúde da empresa onde trabalha.


Trabalho em uma empresa voltada para o lado familiar e hoje pude encaminhar os papéis para inclusão delas no plano de saúde, para que fiquem bem assistidas, com os mesmos direitos dos meus outros dois filhos", destaca.


Olhando para a trajetória construída ao longo de mais de uma década, Luan deseja que a conquista da sua família sirva de exemplo: "Que isso seja uma inspiração para outras pessoas. É uma vida pequenina que precisa da gente, e o amor e a presença fazem toda a diferença."


O que é a Paternidade Socioafetiva
A paternidade socioafetiva ocorre quando o vínculo interpessoal, o afeto e a convivência familiar prevalecem sobre a consanguinidade, reconhecendo juridicamente como pai quem exerce esse papel na prática diária, com amor, amparo e responsabilidade.

Qualquer pessoa que desempenhe a função paterna de forma contínua, pública e consolidada pode requerer esse reconhecimento, desde que haja o consentimento dos envolvidos e, no caso de menores, a concordância dos responsáveis ou avaliação judicial.

Para dar entrada no processo, as partes devem buscar auxílio jurídico por meio de um advogado particular ou da Defensoria Pública do Estado. O pedido pode ser formalizado diretamente em cartório, para filhos maiores de 12 anos e quando não há divergências, ou por via judicial nas Varas de Família, garantindo à criança ou ao jovem os mesmos direitos civis, sucessórios e de assistência que qualquer filho biológico possui.

Classificação Indicativa: Livre


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