Justiça

PF suspeita que Toffoli seja “beneficiário final” de fundo com R$ 35 mi de Vorcaro e cita possível encontro na casa do ministro

Toffoli nega amizade com Vorcaro, enquanto André Mendonça afirma que não há providências a serem adotadas pela relatoria sobre o relatório da PF  |  Rosinei Coutinho/SCO/STF e Esfera Brasil/Divulgação

Publicado em 11/09/2026, às 02h24   Rosinei Coutinho/SCO/STF e Esfera Brasil/Divulgação   Redação Bnews

O relatório da Polícia Federal (PF) aponta suspeitas de que o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), possa ter sido o beneficiário final ou proprietário de fato de um fundo que recebeu ao menos R$ 35 milhões do banqueiro Daniel Vorcaro e posteriormente transferiu cerca de R$ 34 milhões para uma holding nas Ilhas Virgens Britânicas. O documento também cita possíveis interferências relacionadas a um julgamento de precatórios e registra encontros, ligações e outras interações entre Toffoli e Vorcaro.

As mensagens que detalham o suposto envolvimento foram obtidas antecipadamente pela revista Piauí, a partir de um relatório da PF. Posteriormente, nesta quinta-feira (10), o ministro Edson Fachin, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que André Mendonça levantasse o sigilo das investigações relacionadas ao caso Master.

Siga o BNews no Google e receba as principais notícias no seu celular

O relatório, chamado Informação de Polícia Judiciária de Análise nº 893171/2026, foi elaborado a partir de dados extraídos do celular de Vorcaro, apreendido durante a primeira prisão do banqueiro, em 18 de novembro de 2025. Segundo a PF, o material apresenta contatos diretos e indiretos entre Vorcaro e Toffoli.

Fundo recebeu R$ 35 milhões

O fundo de investimento Arleen era sócio do resort Tayayá, em Ribeirão Claro, no interior do Paraná, empreendimento que pertence a Toffoli e sua família.

Segundo o relatório, Vorcaro aportou “ao menos” R$ 35 milhões no Arleen. Em 2025, o fundo passou a ter como proprietário o empresário Alberto Leite, amigo de Toffoli e dono da empresa de segurança FS Security.

Ainda de acordo com a investigação, em março de 2025, Alberto Leite registrou a holding Egide I nas Ilhas Virgens Britânicas. No mesmo mês, o regulamento do Arleen foi alterado para permitir investimentos no exterior.

Em novembro, o fundo começou a se desfazer de suas cotas. Em dezembro, transferiu cerca de R$ 34 milhões para a Egide I.

A PF afirma ter identificado elementos que, analisados conjuntamente, apontariam para a possibilidade de Toffoli ter figurado como beneficiário final ou proprietário de fato do fundo e de seus ativos. O relatório também cita documentos e comunicações que sugeririam o uso de interpostas pessoas e estruturas no exterior.

O gabinete de Toffoli negou a existência de recursos do ministro no exterior e afirmou que ele jamais realizou qualquer operação nas Ilhas Virgens Britânicas.

Operação envolveu amigo de Toffoli

As mensagens de Vorcaro mostram que o banqueiro tratava os aportes relacionados ao Tayayá como uma obrigação que precisava ser resolvida.

Em 14 de agosto de 2024, preocupado com um atraso, Vorcaro acionou seu cunhado, Fabiano Zettel, e Fábio Faria, apontado no relatório como operador político do banqueiro.

Durante a troca de mensagens, Vorcaro avisou Faria que entraria em contato com Toffoli e, pouco depois, enviou ao ministro: “Oi tudo bem? Gostaria de te ver rapidamente, você teria algum horário hoje?”. O relatório não registra resposta de Toffoli.

Na mesma conversa, Vorcaro perguntou ao cunhado onde estava o dinheiro. Zettel respondeu que estava “No fundo dono do Tayayá”. A PF afirma não saber se a expressão fazia referência ao Arleen ou ao Leal, outro fundo que também era sócio do resort.

Mais tarde, Zettel informou que R$ 20 milhões haviam sido pagos anteriormente e outros R$ 15 milhões naquele momento. Às 17h47, comunicou: “Tayayá resolvido.”

Alberto Leite assumiu o Arleen

Em novembro de 2025, depois da decisão favorável à usina Alcídia no julgamento de precatórios, Vorcaro passou a discutir sua saída do Tayayá.

Em uma mensagem para Zettel, escreveu que o fundo deveria “passar pra um amigo que vai comprar”. Depois, mencionou apenas “Alberto”, em referência a Alberto Leite.

Em 5 de novembro, Vorcaro perguntou quanto dinheiro havia no fundo e questionou: “Como chama o FIP?”. Zettel respondeu: “FIP Arleen”.

No mesmo dia, Vorcaro escreveu para Alberto Leite que estava pronto para executar o negócio que haviam discutido. Leite respondeu que estava na Espanha e que pediria a sua equipe para acelerar a operação.

Em janeiro de 2025, Vorcaro voltou a cobrar a transferência e encaminhou a Zettel o contato de Leite, afirmando: “Tenho que transferir pra ele”.

A operação foi concluída em 19 de fevereiro de 2025, segundo Zettel. Meses depois, Leite vendeu sua participação no Tayayá para a PHD Holding, empresa do advogado Paulo Humberto Barbosa, ligado ao grupo J&F.

Procurado pela Piauí, Leite afirmou que não daria entrevista, mas negou ter sido sócio de Toffoli ou Vorcaro. Mas, em declaração anterior à Folha de S.Paulo, disse que a aquisição do Arleen foi uma operação imobiliária regular e lucrativa e negou qualquer vínculo societário, comercial ou favorecimento envolvendo Toffoli.

PF cita possível influência em voto

O relatório também aponta suspeitas relacionadas ao julgamento de uma ação envolvendo a destilaria Alcídia, pertencente ao grupo Atvos, que cobrava da União reparação por prejuízos provocados na década de 1980.

A decisão tinha potencial impacto sobre a carteira de precatórios do setor sucroalcooleiro do Banco Master, que somava mais de R$ 10 bilhões.

Antes do julgamento, o diretor jurídico do banco, André Kruschewsky, enviou mensagem a Vorcaro: “É importante! Serve de paradigma para nossos casos”.

Segundo o relatório, Toffoli tinha histórico de votos favoráveis às usinas em processos relacionados a precatórios. Dias antes do julgamento da Alcídia, porém, havia votado de forma contrária às usinas em uma ação semelhante envolvendo a Raízen.

A mudança provocou reação entre integrantes do Master. Fábio Faria escreveu: “Matou a gente”, “Comecei a suar” e “Pqp”.

Kruschewsky, então, perguntou ao banqueiro: “Vamos nos movimentar?”.

Vorcaro respondeu: “Estou acompanhando”. Depois: “Mais do que imagina”. E: “Tá uma pica isso”. Na sequência, afirmou: “Toffoli virou o voto”. Posteriormene: “Tô tratando aqui”.

O diretor jurídico ainda ofereceu ajuda para tentar retirar o processo da pauta: “Se precisar de ajuda, para tirar de pauta, avisa!”.

A PF registrou que Kruschewsky “aparenta ter acesso ao STF inclusive para ‘tirar de pauta’ o processo em questão”.

No dia previsto para o julgamento, o ministro Kassio Nunes Marques pediu vista e Toffoli registrou ausência justificada. O caso acabou sendo adiado e retomado em 1º de outubro de 2024.

Na sessão, a tese da Alcídia prevaleceu. Toffoli votou a favor da usina, contrariando o voto que havia dado no caso semelhante da Raízen.

Às 16h58, um operador do banco informou a Vorcaro: “Ganhamos Alcídia”.

O resultado foi de 3 votos a 2, com a mudança de posição de Toffoli em relação ao julgamento anterior. Vorcaro respondeu com um emoji de joinha e depois comunicou o resultado a um contato identificado pela PF como Paulo Sérgio Neves, diretor do Banco Central, que respondeu com uma imagem de mãos em oração.

A PF ressalvou que o caso ainda demandava “aprofundamento analítico” e que os elementos disponíveis não eram suficientes para conclusões definitivas. O relatório atribuiu especial relevância às mensagens “Toffoli virou o voto” e “tô tratando aqui” por terem ocorrido imediatamente antes do julgamento e em meio às conversas sobre a necessidade de “se movimentar” e “acompanhar” o processo.

O gabinete de Toffoli negou qualquer “alteração de voto” e afirmou que o ministro votou sempre da mesma maneira no processo da Raízen.

Relação com ex-mulher de Toffoli

O relatório também cita Roberta Rangel, ex-mulher de Toffoli, como advogada de Vorcaro.

Em maio de 2021, um sócio do escritório de Walfrido Warde enviou ao celular de Vorcaro uma procuração na qual Rangel aparecia como representante da Companhia Agroindustrial de Goiânia em uma ação rescisória.

O precatório da empresa também aparece na carteira de ativos do Master, em duas posições que somavam R$ 1,8 bilhão.

Segundo a PF, a relação profissional de Rangel com o Master começou em dezembro de 2020. Na época, após a Justiça Federal em Rondônia determinar o bloqueio de R$ 7,7 milhões em bens de Vorcaro durante a Operação Fundo Fake, o escritório Warde apresentou proposta de honorários indicando Warde e Roberta Rangel como responsáveis pelos trabalhos.

Em março de 2024, um advogado informou a Vorcaro que a parte contrária em um processo no Superior Tribunal de Justiça (STJ) havia constituído Roberta Rangel. Na mensagem, escreveu: “Mulher do Toffoli”. Vorcaro respondeu: “Ela é minha advogada”.

A PF afirma que Rangel manteve vínculos profissionais e logísticos com Vorcaro ao menos entre dezembro de 2020 e fevereiro de 2025.

Encontros e ligações

O relatório registra ainda encontros presenciais entre Toffoli e Vorcaro. A PF identificou ao menos 12 registros distintos de encontros, convites e agendamentos.

Seis registros são descritos como encontros ocorridos entre novembro de 2023 e abril de 2024.

Um dos primeiros convites partiu de Toffoli para a comemoração de seus 56 anos, em novembro de 2023, em São Paulo. Não há confirmação de que Vorcaro tenha comparecido.

Dias antes, porém, o banqueiro escreveu a uma terceira pessoa: “Vou para SP domingo”
E acrescentou: “Aniversário do Toffoli”.

A PF considerou que as mensagens indicavam “ao menos, interesse declarado em participar”.

Outro encontro teria ocorrido na casa de Vorcaro, em novembro de 2023. Fábio Faria sugeriu o local e escreveu: “Melhor na sua casa pro Toffoli ficar mais de boa”.

Vorcaro respondeu: “Então vamos só nós mesmo de homem mais os dois”.

No dia seguinte, segundo as mensagens analisadas pela PF, Toffoli também teria convidado Vorcaro para um encontro.

Em março de 2024, o ministro enviou ao banqueiro um endereço residencial no Lago Norte, em Brasília, e marcou o encontro para as 9h. Na manhã seguinte, Vorcaro escreveu: “Bom dia tudo bem? A caminho, Pelo waze devo me atrasar uns 15 minutos”.

Toffoli respondeu: “Tranquilo”.

Para a PF, o endereço era compatível com a região indicada como residência do ministro, sendo “plausível” a hipótese de que Vorcaro tenha visitado Toffoli no local.

Em abril daquele ano, Toffoli teria ido à casa de Vorcaro em Brasília, em encontro marcado com a intermediação de Fábio Faria.

O relatório também cita dois encontros em Londres durante um fórum bancado pelo Master, onde ocorreu a degustação de uísque Macallan.

Mensagens sobre a fazenda no Paraná

Em março de 2024, Fábio Faria contou a Vorcaro que Toffoli havia marcado um almoço para o dia seguinte “lá na fazenda dele”, com a presença de Bruno Dantas, do Tribunal de Contas da União.

Vorcaro perguntou: “Lá no Paraná?”. Faria confirmou e perguntou se poderia usar um helicóptero da Prime You. Vorcaro respondeu: “Já pede na Prime, irmão”. E acrescentou: “Eu tenho na Prime um heli só meu”. “É pra nós usarmos”.

Um funcionário da Prime encaminhou ao banqueiro um áudio no qual Faria acertava o roteiro do encontro e dizia: “A gente vai amanhã lá na fazenda do Toffoli, ali na fronteira com, nessa coordenada aí, é Paraná com São Paulo”.

Segundo a PF, elementos técnicos e geográficos indicavam que a “fazenda do Toffoli” mencionada por Faria era o resort Tayayá, em Ribeirão Claro, na divisa entre Paraná e São Paulo.

Toffoli nega amizade com Vorcaro

Em nota divulgada antes da publicação da reportagem, o gabinete de Dias Toffoli afirmou que o ministro “jamais teve qualquer relação de amizade e muito menos amizade íntima” com Daniel Vorcaro.

Toffoli também negou ter recebido qualquer valor do banqueiro ou de Fabiano Zettel e reiterou que “jamais teve relação de amizade ou intimidade com Daniel Vorcaro”.

Sobre a presença em Londres, o gabinete afirmou que a participação no evento da degustação de Macallan ocorreu a convite do ministro Alexandre de Moraes.

O relatório da PF foi encaminhado ao STF porque Toffoli era o relator do caso Master e ministros da Suprema Corte não podem ser investigados sem autorização do próprio tribunal.

O documento permaneceu sob sigilo. Segundo a reportagem, em fevereiro de 2026, os dez ministros do STF tiveram conhecimento da arguição de suspeição contra Toffoli e decidiram pelo arquivamento. O relatório da PF que fundamentava a apuração, contudo, permaneceu sob posse da Polícia Federal.

O ministro André Mendonça, apontado como relator do caso, afirmou à revista que o relatório não havia sido enviado especificamente a ele. Em resposta sobre a ausência de providências, declarou que os autos da arguição não lhe foram remetidos e que, por isso, “não há providências a serem adotadas por esta relatoria”.

Classificação Indicativa: Livre


TagsSTJBrasíliabanco centralSão PaulostflondresSuperior Tribunal de JustiçaEspanhaSupremo Tribunal FederalParanáSuíçaAndré MendonçaDias ToffoliRoberta RangelFábio FariaArthur Lirahugo mottaEdson FachinAlexandre de MoraesGuilherme Mussibruno dantasdavi alcolumbreKassio Nunes MarquesBanco Masterlago norteDaniel Vorcaroilhas virgens britânicasWalfrido wardeRibeirão claroFabiano ZettelTayayá ResortPaulo sérgio nevesandré kruschewskyBar dos ArcosPaulo Humberto BarbosaGuilherme LippiCiro Rocha SoaresAlberto Leite

Leia também


Festa de Vorcaro reuniu 120 mulheres e 20 homens e teve celulares proibidos: 'Só menina nova'


Além de Vorcaro, veja quem está no inquérito do Banco Master relatado por Mendonça após quebra de sigilo