Justiça
Publicado em 24/03/2026, às 13h00 Foto: Divulgação Thiago Dória
Há algumas semanas, debati com alguns colegas de podcast sobre o avanço (ou não) das práticas de responsabilidade ambiental, social e de governança no Brasil, o vulgo “ESG” (tenho ressalvas a essa nomenclatura, mas vou adotá-la aqui para facilitar o entendimento). Durante o programa, concordamos sobre o perceptível crescimento de várias iniciativas em torno dessas três vertentes, mas alguns deles consideram haver uma certa hipocrisia das empresas nesse tema.
Acreditam que, de fato, as práticas responsáveis avançaram no “chão de fábrica”, mas apenas porque aqueles profissionais são efetivamente fiscalizados, e principalmente por pressão do consumidor; de outro lado, acham que os altos gestores das empresas, no silêncio dos seus gabinetes, mandam o ESG às favas quando uma prática responsável afeta seu lucro.
Apesar de já ter registrado a minha ponderação ao vivo, entendi que precisava escrever um pouco mais sobre o assunto, principalmente sobre dois aspectos que, no meu entender, prejudicam a análise deles.
O primeiro tem a ver com a percepção de “copo meio vazio” sobre a evolução da nossa sociedade. Todos concordamos que há, sim, muitos avanços, mas a ressalva feita por eles parece partir da premissa de que as coisas só vão estar “melhores” quando estiverem “perfeitas”, ou de que o eventual descompromisso de alguns gestores, em alguns casos, diminui a magnitude de uma evolução do mercado ou contamina o seu sucesso. Como leva tempo para mudar o mundo, e ele não muda todo de uma vez só, acho que uma coisa não invalida a outra.
Mesmo concordando que muitas empresas não são tão responsáveis quanto parecem – ou tentam parecer – não podemos menosprezar o progresso que a grande maioria das organizações vem alcançando dia-a-dia. Além disso, é necessário replicar e multiplicar o que está dando certo, o que passa necessariamente por identificar e valorizar iniciativas que têm conduzido essa evolução num bom caminho.
O segundo aspecto, e mais importante, é chamar a atenção para uma espécie de julgamento moral que pode se desenrolar dessa conversa, e que põe em risco o entendimento de todo o fenômeno. Empresas não devem adotar práticas responsáveis para serem boazinhas ou virtuosas, mas sim porque elas efetivamente geram resultado, principalmente na prevenção de riscos. Aliás, a construção de uma equivocada dicotomia entre lucro e responsabilidade me faz até lembrar da antiga condenação da usura pela igreja na Idade Média.
Adotar praticas de ESG não é virtude moral que levará os gestores ao Reino dos Céus. É sintoma de boa gestão, responsável e preocupada com resultados no médio e longo prazo. Empresas com boa governança estarão mais protegidas de imbróglios societários e casos graves de corrupção; empresas socialmente responsáveis dificilmente serão vítimas de escândalos envolvendo pautas explosivas na imprensa; empresas ambientalmente responsáveis tendem a não se envolver em tragédias graves e arcar com consequências bilionárias.
As organizações que desejam perdurar devem se mover no sentido da governança, e consequentemente da responsabilidade com todos os atores (stakeholderes) que lhe cercam, o que inclui todas as pessoas dentro e fora da empresa e o ambiente que lhe cerca. Qualquer irresponsabilidade, de qualquer espécie, é um risco a mais. Cada um que lide com os seus...
Thiago Dória
Advogado, Conselheiro de Administração (CCA-IBGC) e Mestre em Direito, Governança e Políticas Públicas