Justiça

Se Governe: Quem tem culpa? Eu?

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Publicado em 18/12/2025, às 12h00   Foto: Divulgação   Thiago Dória

Na coluna passada (leia aqui), contei um caso em que uma empresa inteira praticamente ignorou uma ordem dada pelo sócio, e sutilmente sugeri que a “culpa” do ocorrido era do próprio gestor. Por óbvio, alguns amigos empresários reagiram ao texto, e recebi reclamações das mais diversas sobre a falta de mão de obra qualificada e a baixa cultura de conformidade no Brasil, em especial na Bahia. Essas constatações não estão necessariamente erradas, mas uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa.

Imagine alguém que vai plantar uma lavoura numa região com poucas chuvas. Ciente desta condição, o fazendeiro deve investir todos os recursos disponíveis para, de algum modo, levar água para a sua plantação, correto? Quem puder investir mais, fará uma grande sistema de irrigação; quem não puder investir nada, terá de contar com a própria sorte e confiar na fé em São Pedro. De todo modo, o sucesso ou insucesso da lavoura estará diretamente ligado à capacidade do fazendeiro de superar os desafios impostos pela sua condição climática, e a culpa de um insucesso certamente não será atribuída à geografia.

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Quantas vezes a gente já ouviu o quanto é difícil empreender? Isso é novidade? A rigor, empreender não é fácil em nenhum lugar do mundo, e cada canto tem seus desafios. Num país pobre e desigual, num estado com graves dificuldades de desenvolvimento, empreender pode ser tão difícil quanto plantar no sertão. Mas se tem gente que consegue fazer irrigação até no deserto, não adianta reclamar da seca, tem que buscar água do jeito que der.

Existe um método muito simples e conhecido de fazer planejamento, chamado Análise SWOT (ou FOFA em português), através do qual as empresas analisam o seu ambiente interno e externo, e então montam uma matriz com as suas Forças e Fraquezas (interno) e suas Oportunidades e Ameaças (externo). Assim, cada negócio consegue entender quais vantagens devem ser aproveitadas (forças e oportunidades) e quais desvantagens carecem de atenção para não comprometerem a operação (fraquezas e ameaças).

Voltando ao caso da coluna passada, pudemos perceber que havia um descompasso entre o desejo e as decisões tomadas pelo sócio da empresa e a sua implementação. Se estivéssemos fazendo uma análise SWOT desta empresa, e este problema fosse considerado como algo muito grave e digno de atenção, você o classificaria como uma ameaça (cenário externo) ou como uma fraqueza (cenário interno)? Parece óbvio, não? A escassez de mão de obra qualificada ou a baixa cultura de conformidade podem ser ameaças (cenário externo) para um plano negócio que ainda não saiu do papel, e não contratou empregados. No entanto, a partir do momento em que a empresa forma sua equipe, a baixa qualificação das pessoas e as suas falhas de comunicação passam a pertencer ao ambiente interno, e são fraquezas da empresa.

Assim, a grande vantagem da análise SWOT é ajudar o empresário a endereçar melhor as soluções para os seus problemas. Quem vai contratar, pode investir mais em recrutamento e seleção, a assim neutralizar a ameaça (externa) da falta de mão de obra; quem já contratou, precisa investir em treinamento e desenvolvimento, para mitigar a fraqueza (interna) da baixa qualificação, se for este o problema.

Não há como ter certeza de que os negócios vão dar certo, mas podemos afirmar com segurança todo gestor ou executivo tem a responsabilidade de se manter atento à equipe, ao negócio, ao mercado, à comunidade, ao ambiente, e a tudo o mais que toque a empresa, assumindo e enfrentando as dificuldades que se impõem com os recursos que tiver – ao invés de se esconder em frases feitas ou reproduzir uma conduta de miopia empresarial, que não tem mais lugar no século XXI.

Thiago Dória

Advogado, Conselheiro de Administração (CCA-IBGC) e Mestre em Direito, Governança e Políticas Públicas 

Classificação Indicativa: Livre


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