Justiça
Publicado em 02/03/2026, às 14h02 Foto: Divulgação Thiago Dória
Felizmente, o século XXI consolidou a ideia de que as pessoas precisam ser mais do que meros “operários” que vivem para trabalhar e trabalham para viver. Se, de um lado, essa demanda está presente desde os movimentos sociais que eclodiram com o advento da Revolução Industrial, de outro, os próprios empresários também entenderam que uma vida de qualidade faz com que as pessoas sejam mais felizes – e também mais produtivas... Em suma, independentemente do fundamento ou motivo, parece ser consenso que o cuidado com a saúde física e mental dos indivíduos é fundamental as empresas e para a sociedade.
Por outro lado, empreendedores e gestores ainda parecem adormecidos quando o assunto é a “saúde física e mental” das organizações, representada justamente pela sua boa governança. É comum encontrar pessoas que defendem que as empresas têm a produtividade e o resultado como seus únicos objetivos, e que aplicam tempo, energia e recursos apenas nisso. Sob esta lógica, as empresa ficam parecendo exatamente como os operários do século XIX: vivem para produzir e produzem para viver - mas morrerão logo, e sem deixar nada.
Da mesma maneira que compreendemos que os indivíduos precisam estar protegidos por EPIs no desenvolvimento do trabalho, que não podem estar sujeitos a riscos extremos, e que precisam cuidar de ameaças veladas como o stress e a depressão, não podemos ignorar que as empresas também precisam usar proteções (como códigos e ética e conduta, políticas internas, acordos de sócios), se afastar de riscos extremos (adotando práticas anticorrupção e de sustentabilidade) e cuidar de ameaças veladas (mantendo sistemas de integridade e compliance, auditorias internas e conselhos de administração ou consultivos, além de prezar por um bom planejamento estratégico). Tudo isso é governança.
Seguindo na metáfora com a saúde individual, é óbvio que cada organização precisará de “médicos, exames, vacinas e remédios” diferentes. O que também é óbvio é que todas as empresas, assim como as pessoas, precisam de algum nível de atenção à sua “saúde”. Não precisa fazer raio-X para um gripe, mas não dá para curar câncer com chá de camomila. É fundamental prestar atenção aos sintomas, procurar especialistas quando necessário, e sempre manter uma atitude de atenção e prevenção.
Como dizem que homem não gosta de ir ao médico, será essa desatenção da empresas tem a ver com o fato da maioria dos gestores e empresários ser do sexo masculino? Vá saber... Mas uma coisa é certa: deixar de ir ao médico não vai curar ninguém. Ao contrário, vai contribuir para que uma pessoa (ou empresa) vá para a UTI mais cedo. Ou para o cemitério. Será que vale a pena?
Thiago Dória
Advogado, Conselheiro de Administração (CCA-IBGC) e Mestre em Direito, Governança e Políticas Públicas